Séries e TV

Crítica

The Flash - 4ª temporada

Novo ano corre para resolver problemas acumulados, mas tropeça em trama arrastada

Rafael Gonzaga
10.07.2018
18h30
Atualizada em
10.07.2018
18h57
Atualizada em 10.07.2018 às 18h57

Após os mais recentes anos de The Flash sofrerem críticas negativas pelo tom mais sério e, muitas vezes, melancólico, os produtores tentaram dar à quarta temporada uma atmosfera mais resplandecente. Para isso, a equipe criativa apostou em grandes respiros de descontração com frequência e em um vilão mais maniqueísta que, atendendo a mais uma demanda dos fãs, não veio no formato de outro velocista. O problema é que, mesmo permeando os confrontos entre heróis e vilões com boas reviravoltas, a impressão que ficou ao longo da temporada foi a de lentidão: episódio após episódio, Barry Allen (Grant Gustin) e seus amigos pareciam não conseguir sair do lugar.

O novo ano começou com um belo balde de água fria ao trazer Barry de volta já no primeiro episódio, diminuindo drasticamente o impacto deixado pelo encerramento da terceira temporada, quando o herói partiu para a Força de Aceleração. As possibilidades eram muitas - se falou, por exemplo, sobre ser o momento de dar mais destaque para Wally (Keiynan Lonsdale) -, mas no segundo episódio a impressão é a de que os eventos que levaram ao season finale anterior sequer tinham acontecido: Barry estava de volta, trabalhando, organizando seu casamento. A primeira parte da temporada corre para jogar debaixo do tapete tudo que se desenrolou no ano anterior, mas demora para mostrar a que veio a nova trama.

Durante todo o quarto ano, o público acompanha Barry e seus amigos presos a uma jornada envolvendo encontrar um grupo de meta humanos que, de alguma forma, se conectam a Clifford DeVoe (Neil Sandilands), o vilão da rodada que, no fim das contas, demora seis episódios para assumir dignamente a função. Há ainda, na primeira metade da temporada, o casamento de Barry e Iris (Candice Patton) desviando o foco principal da trama tanto através de episódios focados em eventos como terapia de casal, festas de despedida de solteiro e, é claro, a própria cerimônia, realizada durante o crossover Crise na Terra-X - relembre os melhores momentos do especial.

Além do casamento - finalmente - da dupla, há outro evento importante na temporada: o julgamento de Barry Allen. Incriminado por DeVoe, o herói vai preso e, pelo menos dessa vez, a ausência do velocista não dura menos de um episódio. Durante o intervalo de tempo em que ele está atrás das grades, a série aborda a conexão entre Barry e seu pai e, principalmente, foca em mostrar o amadurecimento do personagem. Todo o arco por trás da prisão do Flash é baseado na ideia de que o rapaz é alguém menos impulsivo e capaz de fazer escolhas certas pensando a longo prazo.

A temporada é toda sobre casais, desde Barry e Iris reforçando o tempo todo que ambos “são o Flash” até a dupla de vilões. Porém, a dinâmica de cada um dos duos segue em sentidos opostos: enquanto o primeiro abre a nova remessa de episódios com alguma instabilidade e ganha solidez ao longo do tempo, o segundo vai enfraquecendo conforme suas ações vão se tornando mais sérias. Se no começo Clifford e Marlize (Kim Engelbrecht) soam como uma dupla, o vilão vai tomando decisões de forma independente conforme conquista seus objetivos e isso desregula a balança que garantia até então a aparente harmonia dos dois.

Há também a intenção latente de dar mais destaque para Iris na trama - algo muito condizente com o legado da personagem nos quadrinhos. A jovem, que assume o comando do Time Flash durante a passagem de tempo de seis meses na ausência do herói, chega até a assumir o manto de heroína principal durante o episódio “Corra, Iris, Corra”. O resultado dessa guinada na jornada de Iris teria sido proveitoso se a série tivesse se esforçado em conferir mais carisma à jovem. Se a jornalista assumiu ares mais sombrios na morte de Eddie (Rick Cosnett), lá no início, a partida de Barry no fim do terceiro ano fez com ela se tornasse uma pessoa ainda mais séria - e pouco cativante.

Há dois grandes problemas na temporada de modo geral. O primeiro é que DeVoe não é um vilão autossuficiente a ponto de se sustentar sozinho e, isso fica evidente no momento em que o espectador se dá conta que a busca por meta humanos se estendeu durante a temporada inteira. A outra questão complicada é que a luta entre DeVoe e o Time Flash é completamente desproporcional: o vilão está sempre dois passos à frente dos heróis e, até chegar ao episódio 19, “O Trapaceiro da Fuga”, se torna bem cansativo ver os protagonistas colecionando derrotas vergonhosas no arco principal para serem consolados com vitórias paralelas insignificantes.

O excesso de fracassos do Time Flash faz parecer que o vilão é realmente poderoso e implacável, mas o ponto é que ele se apoia em muletas o quarto ano todo. Verdade seja dita, até mesmo a extensão de suas motivações só emerge faltando pouquíssimos episódios para o fim da temporada. O quarto ano faz um bom trabalho ao chegar no season finale conectando praticamente tudo que aconteceu desde a volta de Barry da Força de Aceleração, mas entrega uma trama pouco marcante para o histórico do herói. Dessa vez, os roteiristas dão uma conclusão mais sólida ao arco principal da temporada e, como de habitual, há um gancho com potencial para o próximo ano - mas, levando em conta o histórico de The Flash, é melhor ir com calma na expectativa.

Nota do Crítico
Regular