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Créditos da imagem: See/Apple/Divulgação

Séries e TV

Crítica

See

Bem produzida, série de Jason Momoa na Apple perde força ao deixar seu ponto forte de lado e se aprofundar em discussão clichê

Camila Sousa
16.01.2020
11h30

Não há dúvidas de que a oferta de séries é enorme atualmente. Com isso, os fãs têm cada vez mais produções para assistir e é difícil se destacar em um mar de novos projetos e propostas. O streaming Apple TV+ começou um bom caminho com See, série protagonizada por Jason Momoa. Com uma premissa que modifica o clássico “futuro apocalíptico”, a produção tinha tudo para entregar uma história inédita e interessante. Infelizmente, a aposta em uma narrativa fraca nos episódios finais não deixou o seriado sair do mediano.

Na trama, situada no já citado futuro distópico, apenas uma parte da população sobreviveu após uma epidemia assolar o mundo. Os que ficaram vivos não puderam mais enxergar. Dois séculos depois, ver se tornou um mito e as gerações aprenderam a viver sem usar tal sentido. Ao invés de um futuro tecnológico e repleto de ficção científica, a história de See apresenta uma humanidade que se voltou para a natureza e agora vive de forma tribal, trazendo originalidade para a velha pergunta de “como será o futuro da raça humana”.

Sem dúvida alguma, esse é o conceito mais intrigante e forte da série. Os métodos de luta por território, por exemplo, são diferentes de tudo o que foi apresentado na ficção até então. Jason Momoa, que interpreta o líder Baba Voss, se movimenta lentamente, tanto para ouvir onde seu oponente está, quanto para esconder sua própria localização. As estratégias são diferentes e isso faz com a série tenha um frescor, especialmente em seus primeiros episódios.

Como dito no texto de primeiras impressões, quem tem deficiência visual ou convive com alguém que tem, reconhece vários elementos da série, como o uso de um sistema de comunicação baseado no tato (muito semelhante ao braille) e o aumento da sensibilidade dos outros sentidos. Para sobreviver na natureza, a humanidade precisa usar o paladar para não consumir nada venenoso, o tato para se locomover, a audição para prever o que está à frente, etc.

Todos esses pontos, em conjunto com a lembrança de uma humanidade “desenvolvida” no passado, tornam os primeiros episódios de See algo inédito na televisão. A série poderia realmente ter sido um divisor de águas se continuasse neste caminho, mas, a partir do quarto capítulo, a temporada tem uma virada e aposta em criticar os problemas trazidos pelo desenvolvimento.

O poder da informação?

O grande conflito apresentado em See é o nascimento de duas crianças que podem enxergar. Elas são filhas de Maghra (Hera Hilmar) e Jerlamarel (Joshua Henry), um homem procurado pela Rainha Kane (Sylvia Hoeks) por conseguir ver. Exatamente por isso, ele vive como um foragido e abandona Maghra, que encontra em Baba Voss um companheiro que cria seus filhos como se fossem dele. Até este ponto, a trama continua interessante, afinal, há a dúvida de qual será o futuro dessas crianças que enxergam em um mundo totalmente diferente. O próprio Jerlamarel é considerado como um “feiticeiro” por ter a visão e isso mostra como aqueles que são “diferentes” sempre são tratados com frieza e preconceito.

A trama de See perde força quando se volta para o passado e passa a questionar o que significa ser “desenvolvido” ou não. Através de Jerlamarel, o único que parece se lembrar do mundo como era antes, com máquinas, energia elétrica, tecnologia de comunicação, etc., a produção questiona se tanta “evolução” é algo positivo, ou se a raça humana deixou sua essência de lado. Essa crítica é colocada em uma fala do próprio Baba Voss, que afirma que a evolução defendida por Jerlamarel foi a responsável por destruir a civilização do passado.

Ainda que seja um questionamento que tem seus méritos, See perde muita força quando se volta para isso. Todo aquele sentimento de uma história inédita citado anteriormente vai embora quando a produção escolhe apostar em uma trama batida. Outro ponto que enfraquece a série é como tal virada foi feita. Enquanto a primeira parte da série é mais lenta e contemplativa, refletindo uma humanidade que agora vive sem pressa, a metade final tem seus conflitos mostrados rapidamente, o que dificulta uma ligação maior com o público. Até mesmo a figura de Jerlamarel, citada à exaustão pelos personagens nos primeiros episódios, não é bem trabalhada, o que faz suas atitudes soarem como grandes conveniências de roteiro.

See termina deixando ganchos interessantes para o futuro, incluindo uma boa trama com a Rainha Kane. A personagem, aliás, é uma das poucas que destoa do restante da série. Enquanto no começo sua figura é difícil de compreender, aos poucos a produção apresenta mais de sua história e a torna uma personagem interessante de acompanhar. Resta agora esperar que o roteiro tenha o mesmo cuidado com os demais protagonistas e não tenha medo de criar algo realmente novo e fascinante de assistir em sua já confirmada segunda temporada.

Nota do Crítico
Bom