Séries e TV

Crítica

O Exorcista - 2ª Temporada | Crítica

Preocupada com mais ação e sustos, série quase se descarateriza em seu segundo ano

Henrique Haddefinir
28.12.2017, às 15H22
ATUALIZADA EM 29.12.2017, ÀS 05H01
ATUALIZADA EM 29.12.2017, ÀS 05H01

Na década de 70 o livro O Exorcista de William Peter Blatty chocou o mundo com a história de possessão demoníaca que acabou imortalizada por Linda Blair na adaptação ao cinema homônima. O caso da menina que passa a ser controlada por um demônio se tornou uma espécie de representação oficial do pavor diante do desconhecido, enaltecido pela ideia de que mesmo uma inocente criança possa ser ferida por um desses “anjos caídos”. O fenômeno literário virou um fenômeno cinematográfico e como acontece com todos eles, a indústria não abandona nunca a ideia de transformar uma obra-prima em franquia.

A primeira ideia ruim foi a de levar duas sequências aos cinemas. O Exorcista II: O Herege é uma das piores continuações da história. Linda Blair sempre diz em entrevistas que o roteiro foi reescrito 5 vezes e que a versão que ela aceitou fazer foi a primeira. Não satisfeitos com o fracasso, os produtores resolveram fazer uma nova tentativa com O Exorcista III, que nem devia ter se chamado assim, o que aconteceu por pura pressão. O próprio autor do livro dirigiu o filme e se mostrou frustrado com a exploração de um título que não se correlacionava com a trama. Por fim, nos anos 2000, um prequel foi anunciado e O Exorcista: O Início também chegou aos cinemas depois de problemas que chegaram a provocar a demissão do diretor depois que o filme já estava pronto.

Ano passado, a Fox voltou a apostar no nicho e Jeremy Slater se encarregou de criar o novo formato, quase igual ao original. Alfonso Herrera vive o Padre Thomas e sua sensibilidade lhe serve para o bem e para o mal. Ben Daniels vive o Padre Marcus, que é mais experiente e obcecado pelo trabalho como exorcista. Juntos eles investigam casos de possessão e é nessa premissa que a série se apoia para garantir sua longevidade. Depois de uma primeira temporada que utilizou bastante a mitologia do original, a decisão de abordar um caso totalmente diferente no segundo ano foi acertada e ao mesmo tempo perigosa.

Exorcizando

Do mesmo jeito que as sequências carregavam o peso de precisarem se relacionar com o original, a série sentia a mesma pressão. Com toda a influência de Regan na história sendo resolvida no final do primeiro ano, era sensato não continuar explorando essa referência incansavelmente, ao mesmo tempo em que o público acabaria sempre pedindo por mais correlações. A grande cilada foi escapar das pressões do original caindo no erro de acelerar demais a narrativa e transformar o programa num drama sobrenatural de “caça aos monstros”. Quando O Exorcista recomeça, ela quase parece um episódio de Supernatural.

A segunda temporada se dividiu em dois núcleos. O principal plot segue a rotina de Andy (John Cho) e seu lar adotivo, numa ilha, onde claramente as coisas não vão bem. Durante alguns episódios, essa história segue totalmente paralela ao enredo que envolve Marcus e Thomas, que estão às voltas com uma possessão que determinará o nível de envolvimento de um deles com as regras do exorcismo. Por causa dessa bifurcação, a sensação é de que estamos vendo duas séries diferentes e o adiamento da convergência prejudica um pouco o ritmo da narrativa, que vai de picos de tensão muito altos a muita contemplação.

Essa primeira metade da temporada ainda precisa dar conta dos eventos de conspiração que marcaram o ano anterior. Essa conspiração é interessante e conduzida com controle, mas também é o recurso dramatúrgico que mais se distancia do que conhecemos como parte do universo de O Exorcista. Quando colocamos em perspectiva a perseguição da mulher possuída, a ação policial e a conspiração sobrenatural, a sensação é de descaracterização. É somente quando Marcus e Thomas alcançam o plot de Andy que a série volta a explorar as possibilidades psicológicas de um exorcismo da forma como ficou estabelecido desde o seu começo.

O uso das metáforas e alegorias ainda é o trunfo da série. A forma como ilustram as entradas e saídas malignas com “realidades alternativas” é muito eficiente e dramática, evitando o lugar comum. O bom texto de interferência do demônio respeita as características do original e as atuações de John, Alfonso e Ben ajudam na composição e na segurança dos quadros. Contudo, mesmo com os esforços de tomar decisões inusitadas, sabemos como as histórias vão acabar e a “fórmula” se ajusta e se evidencia inevitavelmente. O segundo ano é corajoso, mas há uma melancolia constante envolvendo-a, como se ela soubesse que está incapacitada de seguir justamente por causa de todas as coisas que não pode evitar (sendo o peso do original a maior delas).

Uma terceira temporada é improvável, mas se acontecer será no mesmo esquema “procedural”, com uma história diferente e uma possessão diferente. Quando colocamos as coisas assim fica bem evidente que o esgotamento é natural e inerente. Mas, se um novo ano não vier, a série pode descansar em paz e sair de cena segura de que fez um trabalho com respeito e coragem.

Nota do Crítico
Bom

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