Pôsters de Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 2

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Mestres do Universo: Salvando Etérnia dobra ação e emoção em Parte 2 épica

Com mais He-Man, conclusão do primeiro ano da série eleva franquia a épico shakesperiano

Eduardo Pereira
27.11.2021
15h30
Atualizada em
29.11.2021
20h59
Atualizada em 29.11.2021 às 20h59

Se Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 1 via uma jornada intimista nascer da grandiosidade de uma pretensa batalha final, Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 2 faz o inverso, partindo do íntimo de uma de suas protagonistas para daí desencadear uma corrente de eventos épicos e crescentemente grandiosos — mesmo que, em nome da venda de bonequinhos, nunca definitivos. Trata-se de uma inversão que não implica contraposição, e sim complemento. Assim, estreita as comparações com épicos cósmicos como Star Wars e Duna (e até remete à complexidade emocional de Game of Thrones) ao sublimar de vez suas inspirações shakesperianas em uma conclusão precisa, que coloca uma caracterização rica de personagens sempre em primeiro plano.

Inverter a ordem dos fatores é também a forma que o showrunner Kevin Smith e a equipe de roteiristas composta por ele, Diya Mishra, Marc Bernardin, Tim Sheridan e Eric Carrasco encontraram para entregar produto de mesma qualidade que o apresentado na Parte 1: uma retomada reverente, mas disruptiva, à linha narrativa dos anos 1980, preservando sua essência, mas explorando pontas soltas para gerar conflitos internos inéditos ressoantes. Agora onerados pelo peso da conclusão de múltiplos arcos centrais previamente introduzidos, seria fácil perder a mão sobre a boa veia dramática até então desenvolvida e vê-la se esvair em mera porradaria. Felizmente, não é isso que acontece.

O capítulo final — por enquanto — dessa mais nova jornada de He-Man e companhia equilibra com maestria o espetáculo visual de intensas (e quase ininterruptas) batalhas fantásticas com um atencioso desenvolvimento de personagens. O trabalho vai desde a compreensão de alguns deles como defensores de arquétipos imutáveis, até o entendimento de que mudanças bem conduzidas, quando cabíveis, só fazem enriquecer uma mitologia como a da franquia; ao mesmo tempo tão celebrada e referenciada quanto ridicularizada e rejeitada. Embora Salvando Etérnia - Parte 2 use e abuse do fan service, enfim entregando aos fãs mais conservadores um tão pedido destaque ao Príncipe Adam e seu alter-ego fortão, é na abordagem sensível com que transforma essas e outras indulgências em ferramentas narrativas que a série se eleva, consolidando-se como uma das melhores animações de 2021.

Se retomarmos as origens dos Mestres do Universo enquanto propriedade intelectual, encontraremos uma cínica história de como artistas de quadrinhos, analistas de vendas, executivos e funcionários de diferentes áreas técnicas da Mattel se uniram para, com pouco investimento, criar uma linha de brinquedos capaz de traduzir pouco esmero em muito dinheiro. Pegando carona em um licenciamento mal-sucedido de Conan, o Bárbaro (1982) e no sucesso de brinquedos ligados à franquia Star Wars, o universo mezzo ópera espacial, mezzo fantasia de capa e espada da franquia foi criado, levando anos e muitas mentes criativas diferentes para reunir um conjunto razoável de regras e estruturas minimamente coesas.

Foi só com o trabalho da Filmation, produtora de He-Man e os Mestres do Universo (1983), que a linha de brinquedos passou a ter uma trama mais bem definida para embalar as brincadeiras dos seus consumidores. Abandonada em seu segundo ano em prol de She-Ra: A Princesa do Poder (1985), a série original permaneceu viva no imaginário popular muito mais como um veículo de nostalgia e referencial de paródia do que como produto cultural memorável. O que Smith e sua equipe fazem em Salvando Etérnia é abordar esse legado com as medidas certas de respeito e compreensão; sem o cinismo que invocaria um desdém pela origem comercialista e infantil do material, mas com a consciência que aquele não é um texto sagrado, intocável da cultura pop — e que, portanto, cabe a ele ser confrontado e renovado.

Cena de Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 2
Netflix/Divulgação

O resultado, por incrível que pareça, é a materialização de uma obra de arte honesta em seu retrato da pluralidade humana. A série da Netflix é, sem exageros, uma animação inspirada em bonecos de plástico que carrega mais alma e coração do que muito aglomerado de carne e osso por aí. Com a Parte 2 cumprindo a promessa de responder uma das maiores questões deixadas em aberto pela animação dos anos 1980, Teela (Sarah Michelle Gellar) se consolida como o cerne de toda essa primeira temporada; chave para a resolução do principal conflito da série. Desta vez, entretanto, ela divide o protagonismo que abraçou na etapa inicial com o Príncipe Adam (Chris Wood), Esqueleto (Mark Hamill) e, surpreendentemente, Maligna (Lena Headey).

É da atriz, ex-ocupante do Trono de Ferro, que a animação extrai uma das atuações de voz mais espetaculares. Ameaçadora e vulnerável na mesma proporção, ela transmite tanta profundidade para a personagem que é difícil lembrar de quando seu papel era apenas como o braço direito de Esqueleto. O tradicional vilão também é emblemático, tendo sua obsessão com a vitória sobre He-Man criticada de maneira frontal em todas a sua incoerência e futilidade. Galhofa sempre nos momentos certos, o veterano Hamill brilha nos monólogos, expondo o personagem como uma ilha reacionária em um mar revolto de mudanças. Já Wood, com mais tempo de tela dessa vez, cresce tanto como Adam e He-Man, aproximando um do outro e reforçando a ideia de que o heroísmo está muito além de ter ou não a Força. E Gellar segue irrepreensível como uma Teela em processo de batalha contra sua teimosia — e aceitação do seu destino.

Com uma maior injeção de recursos bem evidente, a Powerhouse Animation também reforça a ação repleta de cores e explosões, nessa conclusão, trazendo soluções visuais divertidas e impactantes para grandes batalhas. No final das contas, entretanto, o maior mérito de Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 2 é nunca perder de vista seu foco nas relações familiares, nos laços de amizade ou de antagonismo, e nos desdobramentos que ditam conspirações, inspirações, conflitos e resoluções sempre verossímeis. É com essa irresistível âncora emocional dialogando diretamente com a experiência humana que a série sustenta, do início ao fim, uma jornada surrealista que atravessa Céu, Inferno, tempo e espaço para vender brinquedos, sim, mas antes disso, emocionar.

Mestres do Universo: Salvando Etérnia
Em andamento (2021- )
Mestres do Universo: Salvando Etérnia
Em andamento (2021- )

Criado por: Kevin Smith

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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