Cena de Mãe Só Tem Duas

Séries e TV

Crítica

Mãe Só Tem Duas | Série da Netflix atualiza DNA das novelas mexicanas

Fórmula das produções mexicanas finalmente evoluiu e supera clichê de rivalidade entre mulheres

Henrique Haddefinir
01.02.2021
12h23
Atualizada em
02.02.2021
16h31
Atualizada em 02.02.2021 às 16h31

A série Mãe Só Tem Duas, que chegou à Netflix com um sucesso inesperado, consegue um feito admirável: revirar códigos estruturais conservadores sem perder a essência do gênero. No caso, o gênero são as novelas mexicanas, que no Brasil se tornaram sinônimo de produções exageradas, com interpretações mil tons acima e uma atmosfera de superficialidade. Essas impressões foram construídas a partir da chegada das produções latinas na televisão brasileira, especialmente no SBT, em que México, Colômbia, Venezuela foram todos colocados no mesmo saco. Nosso conhecimento do gênero vem das Marias (do Bairro, Mar, Mercedes) e das usurpadoras da vida.

Mesmo assim, durante muito tempo as novelas mexicanas foram levadas a sério por um público fiel e, conforme a modernidade foi chegando e as séries foram interferindo na fórmula ao redor do mundo, o DNA mexicano se tornou nostálgico e virou elemento afetivo para uma geração inteira. As novelas mexicanas eram admiradas por todos os motivos errados, mas eram adoradas. Diante de tantas opções de streaming e com a Globo lutando para reinventar o folhetim, títulos atuais do mercado mexicano não encontram mais a mesma abertura de antes no nosso território (e talvez também em outros territórios). Para seguir em frente, a arte teledramatúrgica do México precisava evoluir.

Mas, afinal de contas, o que são esses códigos que configuram uma novela mexicana? Se formos excluir o visual exagerado que ficou na nossa cabeça como um resquício da eloquência colorida dos anos 1980 e 1990, uma novela mexicana é um estado de espírito. Tudo é um pouco inocente, as vilãs são infantis, ficam sempre loucas e as histórias sempre – sempre – envolvem amores impossíveis e paternidades perdidas.

Sob essa superfície narrativa recorrente, ficava a representação de uma realidade feminina difícil para suas protagonistas. Nas novelas mexicanas, as mulheres sempre são o foco, mas elas são heroínas frágeis e que dependem da chegada de um homem rico de nome duplo que as salvará da miséria pessoal. Junto com esses “príncipes”, vinha sempre uma rival para ser odiável, porque nas novelas mexicanas as mulheres são inimigas, não importa o que aconteça. O objetivo da história é o casamento do casal e a derrota da vilã. No meio do caminho, o rocambole dramatúrgico é enrolado sem medo e sem autocensura. Vale mais o choque do que a coerência.

Amigas, mas não rivais

Mãe Só Tem Duas é uma série de nove episódios, mas que nasceu de um argumento completamente novelístico. Carolina Rivera, uma das criadoras, já escreveu muitos episódios de séries americanas com um pé na mesma direção - como Devious Maid e Jane The Virgin - mas que por serem produzidas nos Estados Unidos, afastavam-se mais do México e se comprometiam com uma linguagem seriada mais conceitual. Mãe Só Tem Duas é uma produção mexicana, com um DNA mexicano, mas com influências seriadas na forma (como o número de episódios) e no conteúdo (como na preocupação com o visual clean e com as atuações comedidas).

A trama central já é uma novela pura. Ana (Ludwika Paleta, a Maria Joaquina de Carrossel) e Mariana (Paulina Goto) são mulheres muito diferentes que dão à luz no mesmo dia. Ana é uma mulher rica, com uma carreira promissora e muito prática. Mariana é uma jovem bissexual que engravidou num momento em que buscava a própria independência. Um engano faz com que suas bebês sejam trocadas e elas passam cinco meses cuidando das meninas e se apegando a elas. Quando a troca é descoberta, tanto Ana quanto Mariana não querem cortar o contato definitivamente uma com a outra. Para isso, Mariana se muda para a casa de Ana e é nesse escopo que a história se desenvolve.

Tudo de mais previsível acontece dentro desse enredo. O marido de Ana tem um caso secreto com a mãe de Mariana, a filha de Ana é apaixonada pelo pai da filha de Mariana, existe um segredo sobre o pai de Mariana... Tudo desemboca em Mariana, porque, pela perspectiva da cultura teledramatúrgica mexicana, ela precisa ser uma heroina e Ana, a mais velha, prática, precisa ser a vilã. Contudo, conforme os episódios vão passando, os roteiros revelam uma preocupação em readequar esses códigos. Ana, por exemplo, é uma mulher com um marido passivo, acabou de ter uma filha e precisa disputar sua posição no trabalho com um jovem (vivido pelo ex-RDB Christian Chávez) que usa a maternidade contra ela 24 horas por dia. Pouco a pouco, ela e Mariana colocam as diferenças de lado e se tornam amigas. A grande ruptura com o passado, então, é feita.

Mariana também é um pouco fora da curva. Ela é bissexual e, embora a série explore pouco essa dualidade, isso não é perdido de vista. Todos sabem que ela também gosta de mulheres, mas não há uma cena sequer que problematize a situação, o que significa que, para os personagens, tudo já foi corretamente naturalizado. Mesmo com uma filha pequena e inicialmente sem apoio do pai, ela continua insistindo em realizar o sonho de voltar para a faculdade e criar seu aplicativo. O pai da menina, inclusive, surge na história levemente inspirado em Seth Rogen na comédia Ligeiramente Grávidos. Um sujeito meio relaxado, que mora com amigos maconheiros, mas que acaba sendo gentil e afetuoso.

É claro que tudo ainda é rocambolesco, com um texto muitas vezes simplório e superficial. O final, inclusive, é totalmente fora da caixinha. Mas, é muito importante reforçar que, para a audiência latina, sempre tão programada para acompanhar outro tipo de representação feminina, as mudanças feitas na hora de levar Mãe Só Tem Duas para o ar são legítimas. Além disso, essa é uma história leve, despretensiosa, como as novelas devem ser (mesmo que vistas em episódios). E é sempre muito bom quando a diversão mais suave pode ser consumida sem deixar resíduos negativos.

Mãe Só Tem Duas
Em andamento (2021- )
Mãe Só Tem Duas
Em andamento (2021- )

Criado por: Carolina Rivera

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Bom

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