Lucifer – 3ª Temporada

Séries e TV

Crítica

Lucifer – 3ª Temporada

Segura e conservadora, Lucifer chega ao terceiro ano perto de seu público, mas longe da transgressão típica do diabo

Henrique Haddefinir
04.07.2018
12h24
Atualizada em
06.07.2018
17h58
Atualizada em 06.07.2018 às 17h58

Adaptada da obra de Neil Gaiman, Lucifer, a série procedural da Fox, tem um nome por trás de sua realização que imprime muito de sua identidade: Tom Kapinos. Talvez muitos não saibam disso, mas Kapinos foi o principal showrunner de Dawons’s Creek durante muito tempo. Após a saída de Kevin Williamson na segunda temporada, Kapinos entrou como roteirista e cresceu na bancada. A quinta e sexta temporadas foram conduzidas em grande parte por ele, que nunca escondeu de ninguém em suas entrevistas - depois que a série terminou - que considerava aquele um emprego terrível e que nunca gostou dos personagens.

Kapinos tem um estilo que todo mundo só conheceu de verdade quando ele criou Californication, uma comédia sobre um escritor viciado em sexo, drogas, álcool, que passou a vida sendo um imbecil com a filha e a esposa. O showrunner tem uma exata fascinação por esse tipo mulherengo incorrigível, que ele defende com suposto carisma enquanto discorre "misoginamente" no curso dos acontecimentos. Mesmo lá, em Dawson’s Creek, Kapinos criou Audrey (Busy Phillips) para colocar para fora essa atração pelo hedonismo. Por uma temporada ela funcionou muito bem, até que no último ano a moça virou o megafone do criador, servindo como ventríloquo para o quanto Kapinos detestava a produção.

Faz todo sentido então que Lucifer tenha caído em suas mãos como projeto de idealização. Ele não assina roteiros, mas a essência de seu estilo está presente nas diretrizes básicas do que é a adaptação. Histórica e mitologicamente falando, Lucifer é um personagem que permite o exercício da transgressão, da ousadia e a ideia de sua influência na humanidade envolve vícios, prazeres mundanos, amoralidade... Kapinos parecia o tipo certo para o trabalho. Talvez a Fox é que não fosse o tipo certo de emissora. Depois de três anos, ao olhar para trás, percebemos que Lucifer é um dos personagens mais corretinhos, quadradinhos e fofinhos da televisão americana.

Wishes

Como com toda série que lida com universos fantásticos, Lucifer adentra cada novo ano cheia de elementos para arrumar e com esse terceiro ano não foi diferente. Como acontece com todos os dramas de televisão aberta que tem muitos episódios, quase toda a tensão estabelecida se dá através de personagens novos que surgem com laços parentais ou amorosos, para ficarem no ar por pelo menos um ano. A segunda temporada focou na mãe de Lucifer, a terceira focará no Sinnerman, que mais tarde se revela ninguém menos que Cain, vivido por um robotizado Tom Welling, que mesmo assim nos deixa animados por conta de uma cavalar memória afetiva.

Essa métrica tem uma razão de ser: o formato procedural, que faz com que o miolo de todos os episódios seja sobre um caso policial que será resolvido antes dos cinco minutos finais. Lucifer tem uma estrutura narrativa das mais confortáveis do mundo. Até mesmo esse recurso procedural remete a uma televisão que perdeu sua força lá nos anos 1990 e que não interessa mais ao espectador da mesma maneira. Assim, como não sabem quanto tempo a série terá e sem poderem entregar sua revelação maior, os roteiristas ficam trazendo mães, pais, irmãos, ex-amantes, para que sempre haja um gancho com trilha de suspense para encerrar os episódios; e alguém para matar em finais de temporada. Não é que seja ruim, só não é bom.

Sweet Evil

A série, contudo, tem bons momentos textuais, sobretudo através de Ella (Aimee Garcia) e do próprio Tom Ellis, que construiu o protagonista com muita segurança. Há episódios em que as falas de Lucifer encontram frescor e a ótima referência a Bones foi um exemplo disso, já que a estrutura das duas séries é muitíssimo parecida. Isso acende a luz derradeira: a Fox nunca esteve a procura de uma série revolucionária sobre o capeta andando entre nós, ela só queria uma nova Bones, que pudesse criar uma tensão entre os protagonistas que segurasse os espectadores por anos e anos. Uma síndrome de Mulder e Scully que já está datada e falida.

Enquanto lida com a presença de Cain, o roteiro deixa Maeze (Leslie Ann) à deriva. A personagem passa toda a terceira temporada magoada com todo mundo por ser preterida. Amenadiel (D.B. Woodside) continua resumido a pseudo relações amorosas. A volta de Charlote Richards (Tricia Helfer) parecia ambígua, mas quando os roteiristas decidem revelar a ela a divindade de Lucifer e Amenadiel, a coisa toda passa a ficar totalmente sem sentido. Depois de três anos, Chloe (Lauren German) é a única otária que nunca sabe de nada, mesmo que Lucifer esteja esse tempo todo ao lado dela.

Todos sabemos que o final da temporada vai aniquilar Cain, vai resolver a vida de Charlote, vai fazer Maeze se reconciliar com Linda... Não há absolutamente nenhum fator surpresa na equação, até porque mesmo que Chloe descubra sobre Lucifer, isso já era esperado no desenho da própria temporada. Entretanto, não haver surpresa não deixa de ser um elemento de coerência. O encerramento funcionou perfeitamente e tem um monte de momentos intensos que provavelmente fizeram os fãs muito felizes. Isso até o anúncio do cancelamento, quando a possibilidade daquele final ser o final derradeiro, tornou tudo um pesadelo.

A salvação da série foi um alento e ter acontecido pelas mãos da Netflix pode representar uma melhora na linguagem. O mais curioso sobre Lucifer é que mesmo que tenha o diabo como protagonista, a série nunca escreve fora das bordas. Ele é um bad boy carismático, que as mães amam e as crianças idolatram; ele só erra porque “está com medo”, ele é um mulherengo porque “não encontrou o amor” (Lucifer se diz bissexual, mas poucas vezes o vemos com homens); ainda por cima foi rejeitado pelo pai, cuida do irmão, não pode matar, mentir, sempre cumpre sua palavra e está perdidamente apaixonado. Lucifer parece o anti-heroi mais herói de que se tem notícias na TV.

Agora é esperar que a quarta temporada venha. Se o número de episódios continuasse crescendo a cada ano, provavelmente teria um quarto ciclo de 30 semanas. Lucifer tinha muito potencial, mas acabou no loop infernal de sempre repetir a mesma fórmula. Ou esse demônio sai da zona de conforto, ou não haverá salvação possível no futuro.

Nota do Crítico
Regular