Euphoria

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Euphoria - 1ª temporada

Série da HBO retrata com precisão as perturbações e descobertas da juventude

Camila Sousa
05.08.2019
09h22
Atualizada em
05.08.2019
09h57
Atualizada em 05.08.2019 às 09h57

Uma narração descompromissada e agridoce, músicas com batidas incessantes e muito neon misturado a drogas e álcool. Estes são alguns dos elementos estéticos que compõem Euphoria, série da HBO estrelada por Zendaya que deu o que falar mesmo antes do seu lançamento, com relatos de atores que se recusaram a fazer cenas “pesadas demais” e sequências com nudez frontal masculina. No entanto, assim como as batidas eletrônicas e as luzes podem ser uma distração, grande parte do público não percebeu o porquê da realidade retratada em Euphoria ser tão chocante.

Ao longo de oito episódios, a produção conta história de vários jovens, cujos caminhos se cruzam na escola ou em festas. No comando de tudo está Rue, a personagem de Zendaya e também narradora dos acontecimentos. Ao recapitular a infância e o passado de cada um, Euphoria faz um estudo profundo de por que essa geração se sente tão perdida e deixada de lado: o que faz alguém precisar escapar tão urgentemente da realidade, arriscando sua saúde física e mental? Para tanto, curiosamente, a produção fala muito sobre maternidade e paternidade. Absolutamente todos que passam por problemas em Euphoria possuem algum passado conflituoso com a família, seja por uma doença, perda de um dos pais, abandono, traumas e por aí vai. 

No entanto, por se tratar de uma produção da HBO, o destaque de muitos episódios foi a nudez, neste caso masculina. O fato disso chamar tanto a atenção fala muito mais sobre parte do público do que sobre a série em si. Embora algumas cenas sejam chocantes e até caricatas (o vestiário masculino da escola), todos os trechos em questão aparecem com contexto, algo que muitas vezes não acontece com a nudez feminina, por exemplo. Até mesmo na primeira polêmica da série, quando o personagem de Eric Dane aparece com uma ereção, o foco da câmera não está na nudez (feita com uma prótese), mas sim nas reações da outra personagem em cena.

Quando fala tanto sobre as cenas explícitas e menos sobre os dramas profundos da série, parte do público retrata, ironicamente, o que Euphoria quer demonstrar: grande parte das pessoas não entende os problemas emocionais pelos quais os adolescentes passam. Há uma grande preocupação com sexo, gravidez e uso de drogas por parte dos adultos, mas poucos realmente tentam conversar com os filhos e entender o que está por trás desses comportamentos. 

Retrato de uma geração

É importante ressaltar o quanto Euphoria é um retrato fiel de uma geração. Com pais emocionalmente ausentes, acesso à internet e muita liberdade, grande parte dos jovens passa por situações extremas em uma idade complicada por natureza. Claro, isso já foi mostrado em várias séries e filmes durante décadas, mas o que torna o seriado da HBO interessante é como cada personagem é explorado. São tantos temas importantes que, em muitos momentos, a história da protagonista Rue parece até “mais leve” em comparação com outros conflitos.

Um dos destaques é a história de Nate Jacobs (Jacob Elordi). O episódio que faz um tour pela sua infância é uma das obras mais importantes de 2019 por mostrar os problemas que rondam um garoto branco, de classe média, bonito, bom em esportes e que tem tudo para “se dar bem na vida”. Ao invés de ser estimulado a ser gentil, ouvir as pessoas ao seu redor e festejar suas conquistas com sabedoria, Nate é encorajado pelo pai desde muito novo a ser um “lutador”, aquele que não abaixa a cabeça para nada. Nate cresce, como muitos, achando que o mundo pertence a ele. Só que a realidade não é tão simples e todos, absolutamente todos, os seres humanos precisam lidar com frustrações. Quando um garoto que se sente no topo do mundo não entende isso, as consequências são desastrosas.

A construção de Nate como alguém violento, perigoso e “implacável” faz um paralelo muito real e doloroso com acontecimentos recentes de tiroteios em massa e ataques, reais ou online, em diversos locais do mundo promovidos por jovens de classe média que se sentem “injustiçados”. No caso de Nate, sua revolta contra a “injustiça” ao homem perfeito que ele é não se traduz em armas especificamente, mas sim em atos divididos de violência, como sua chantagem com Jules (Hunter Schafer) e sua relação abusiva com a namorada Maddy (Alexa Demie), outro ponto que merece destaque. A narração de Rue no episódio que trata sobre o casal deixa claro como Nate vê Maddy como uma posse, satisfeito, por exemplo, de pensar na “pureza” da garota. A questão dos relacionamentos tóxicos e abusivos tem sido discutida na mídia e nas redes sociais, mas Euphoria embarca fundo nesse aspecto, mostrando como essa relação começa, como se mantém e quais podem ser suas consequências.

Outro tema importante mostrado na temporada aparece na história de Kat, interpretada pela atriz de origem brasileira Barbie Ferreira. A personagem vê o mundo cair ao seu redor ao ter um vídeo da sua primeira vez divulgado na internet. Porém, depois de ficar assustada com a repercussão, Kat dá um novo sentido ao que aconteceu e começa a lidar de outra forma com seu corpo. “Não há nada mais poderoso do que uma mulher gorda que não está nem aí”, diz a personagem. A verdade é que a jovem ainda se importa, e muito, com a opinião dos outros, mas ao invés de ter vergonha de seu corpo, começa a vê-lo como uma ferramenta, que pode lhe trazer autoestima e até dinheiro. Essa abordagem é problemática por diversas razões, começando pelo fato de ela ser uma garota do ensino médio, até os homens estranhos e pervertidos que encontra pela internet. Ainda assim, é interessante ver o tema na série, mostrando a curva de mudança da personagem e sua “volta” para a vida insegura de uma adolescente normal.

O episódio final de Euphoria é fascinante. Sem a famosa narração de Rue, o capítulo foca na protagonista e em seus próprios traumas. Rue confronta Nate e finalmente assume que não tem nada a perder, se despede - fisicamente e emocionalmente - de Jules e faz tudo ao som de um belo discurso escrito por sua mãe. Nestas cenas, Euphoria dá um atestado do talento e versatilidade de Zendaya. Vista em 2019 como coadjuvante de luxo em Homem-Aranha: Longe de Casa, aqui a atriz brilha, completamente à vontade, e deixa claro como Rue não sabe lidar com a própria sensibilidade. As expressões da atriz ao deixar Jules emanam todo o conflito interno do momento e a cena do moletom é uma analogia sutil ao começo de sua depressão. Ao ver a morte do pai, Rue veste a roupa que costumava ser dele e, a partir dali, passa a viver sem propósito.

A ironia contida no episódio final é que, apesar de os pais precisarem, sim, dar mais atenção ao que acontece com seus filhos, a grande verdade é que não dá para controlar quem eles serão. Assim como gerações e gerações antes deles, cabe a cada um, todos os dias, acordar e decidir quem será, o que é mostrado pela evolução de personagens como Nate e Maddy. Por um lado, ele teve o momento catártico para lidar com as frustrações, e ela, depois de mais um joguinho de sedução e violência, diz que aquilo não pode continuar. Talvez voltem atrás, afinal, a juventude é uma época complicada. Mas ter consciência do que está acontecendo já mostra a evolução dos dois.

Euphoria termina em uma cena catártica com música e dança. A tristeza de Rue com mais uma partida, que lhe remete novamente à perda do pai, traz uma recaída que faz seu mundo girar, literalmente. Na coreografia brusca estão escondidos sentimentos como desespero, dor e, principalmente, a vontade de sumir de uma vida que só lhe traz tristeza. Tanta confusão deixa claro apenas uma coisa: o futuro de Rue está aberto e apenas ela pode escolher entre a “euforia” breve causada pelas drogas ou o tortuoso caminho de enfrentar as tragédias da vida, que sempre vão existir.

Nota do Crítico
Ótimo