Séries e TV

Crítica

(Des)encanto

Matt Groening segue a fórmula de Os Simpsons e Futurama, mas não tem tempo para brincar com o novo universo

Natália Bridi
22.08.2018
15h46
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

Quando o nome de Matt Groening aparece nos créditos espera-se personagens com grandes bocas, olhos brancos e esbugalhados e um senso de humor tão ironicamente refinado como besta. Os Simpsons se mantém nessa linha há quase 30 anos (por mais que suas melhores temporadas tenham ficado para trás), Futurama fez isso muito bem entre idas e vindas na TV, e (Des)encanto quer levar para a era da Netflix.

Desencanto
Netflix/Divulgação

Os ingredientes estão todos lá. Para quem conhece a fórmula, a familiaridade é confortável. Bean, a protagonista, segue as mesmas linhas simples de Homer e Fry. Seus desejos são comuns - beber, transar, comer, amar e ser amada. A graça está em subverter essa mediocridade. Colocando-a no centro é possível encontrar beleza e humor no lado comum da vida e no seu contraste com pequenos absurdos, como um elfo, um demônio, a criação de uma religião, o espetáculo de uma execução e a busca pelo elixir da vida eterna.

Dentro do formato do streaming, os dez episódios seguem uma lógica narrativa - Bean precisa fugir do seu casamento forçado e depois provar seu valor para seu pai -, mas não há nada que exija uma maratona. É possível assistir aos episódios sem muito compromisso. O que se destaca são os pequenos momentos em um universo (des) encantado que ainda está em construção. Ao contrário de Springfield ou da Nova Nova York de Futurama, a mitologia de Dreamland não tem muito tempo para dizer a que veio. Há misturas de referências de fantasia e algumas paródias da realidade, mas os episódios contados e a necessidade de levar o espectador para o próximo capítulo deu um compromisso limitador à série. Faltou espaço para brincar.

No fim das contas, não há nada de novo na nova animação do criador de Os Simpsons. Mesmo a parte técnica, muito bem executada, é uma lição já aprendida anteriormente. A mistura do visual básico dos personagens com cenários mais elaborados dá profundidade visual às cenas e o uso esporádico do 3D estabelece os mundos em que vivem os personagens, com apresentações ricas da vila dos Elfos e da geografia “privilegiada” do Reino de Dreamland. A trilha sonora, um bebop medieval contagiante assinado por Mark Mothersbaugh, amarra o visual com entusiasmo. 

(Des)encanto é divertida e termina em um gancho promissor, como se os dez primeiros episódios fossem apenas o piloto. Por mais que seja mais do mesmo, sempre é interessante ver o mundo pelos olhos de Matt Groening, no presente, no futuro ou no reino da fantasia.

Nota do Crítico
Bom