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Thor: Ragnarok | Quem é o compositor que faz a diferença no filme

Mark Mothersbaugh traz à Marvel personalidade e inocência

Marcelo Hessel
23.10.2017
18h10
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

Além de apresentar uma personagem LGBT ao Universo Marvel, Thor: Ragnarok traz outra novidade aos filmes do Marvel Studios. É o primeiro longa-metragem da casa cuja música fica sob a responsabilidade de um compositor com uma assinatura reconhecível, depois de quase dez anos de trilhas sonoras sem personalismos. Mesmo quando escalam nomes de ponta do mercado, como Alan Silvestri e Michael Giacchino, os filmes do estúdio sempre optam pelo caminho da homogeneização.

O Devo

Mark Mothersbaugh começou a ficar conhecido no fim dos anos 1970 como líder do Devo, banda central da new wave americana, ao lado do B-52's e do Talking Heads. Enquanto o grupo de David Byrne tinha uma sensibilidade pós-punk mais próxima do mundo dos universitários e das faculdades de arte, o Devo e o B-52's faziam uma releitura de temas tipicamente americanos a partir da disco music. O som do Devo parecia trilha de videogame, e até no uniforme eles surgiam com capacetes "pixelizados". Veja o clipe do clássico "Whip It".

Com Mark Mothersbaugh é diferente. O multi-instrumentista de 67 anos é conhecido desde os anos 1970 por seu trabalho com sintetizadores que evocam o lado mais lúdico da new wave americana, e em Ragnarok suas escolhas para a trilha estão em sintonia com o tom mais leve, inocente e colorido imposto pelo diretor Taika Waititi à aventura.

Involução

O nome "Devo" vinha de "devolution" e da ideia de que a humanidade estava involuindo. Mothersbaugh frequentemente jogava sonoramente com essa noção, então seu trabalho envolvia acordes simplórios tocados em instrumentos rudimentares (no início a banda não tinha dinheiro para comprar sintetizadores caros e chegou a montar suas próprias baterias eletrônicas). Aos poucos a banda flertou, por consequência, com temas infantis, e mais tarde o compositor se tornaria um versátil autor de trilhas de desenhos. Assista ao clipe de Peek-a-Boo!.

Na galeria abaixo, elegemos seis momentos da carreira de Mothersbaugh que ajudam a entender porque, embora essa não seja uma constante na Marvel, a escolha do compositor está bem afinada com o filme.

Pee-wee

Quando o sexto disco de estúdio do Devo foi mal nas vendas, a banda perdeu seu contrato com a Warner Music. Parte dos integrantes deixou o grupo, e além de fazer seus primeiros caminhos de carreira solo, Mark Mothersbaugh começou a trabalhar com trilhas sonoras em 1986. São dele os temas de abertura e encerramento dos episódios do programa Pee-wee's Playhouse, que mantinham o caráter lúdico do som do Devo, mas de fato voltado para o público infantil. Veja a abertura com o tema de Mothersbaugh.

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Os Anjinhos

Em 1989, dois anos antes do primeiro fim do Devo, Mark Mothersbaugh abriu uma produtora focada no seu trabalho de encomenda, a Mutato Muzika. O maior sucesso da sua carreira de compositor para seriados infantis, filmes e games sem dúvida é sua colaboração com a Nickelodeon como diretor musical de Os Anjinhos por 13 anos. Mothersbaugh tem no escritório da Mutato uma coleção invejável de sintetizadores, desde minimoogs a pianos do tamanho de uma mesa, e com eles criou temas como o do xilofone que abre Os Anjinhos - assista.

Wes Anderson

Se o trabalho de Mark Mothersbaugh para cinema tivesse que ser resumido em uma única colaboração, seria com o cineasta Wes Anderson, cujos filmes de apelo naïve combinam perfeitamente com o estilo musical do líder do Devo. Eles trabalharam juntos desde o primeiro longa de Anderson, Bottle Rocket, de 1996, e a parceria seguiu até A Vida Marinha com Steve Zissou (depois Anderson passou a trabalhar com Alexandre Desplat, colaboração que já dura três longas). Um tema que se parece com o que Mothersbaugh faz em Thor Ragnarok é o da invasão da ilha em Zissou - ouça.

Crash Bandicoot

Quando o game Crash Bandicoot estava em finalização, a Universal Interactive entrou com a ideia de criar uma trilha sinfônica "urbana e caótica" para o título de PlayStation. O nome de Mark Mothersbaugh apareceu e, embora ele não assine a trilha do jogo, lançado em 2006, o tema principal foi composto por ele. O sonzinho de xilofone que ficara famoso com Os Anjinhos retorna aqui, e a mistura de camadas emulando instrumentos lúdicos diferentes se tornou com os anos uma das assinaturas sonoras de Mothersbaugh. Ouça o tema de Crash.