Com enorme coração e empatia, Our Flag Means Death merece um futuro promissor

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Séries e TV

Crítica

Com enorme coração e empatia, Our Flag Means Death merece um futuro promissor

Comédia romântica de piratas na HBO Max com Taika Waititi estabelece base sólida de algo que deve brilhar ainda mais nas mais próximas temporadas

Omelete
4 min de leitura
Arthur Eloi
27.06.2022, às 15H40
ATUALIZADA EM 27.06.2022, ÀS 16H11
ATUALIZADA EM 27.06.2022, ÀS 16H11

 

Boas séries de TV não são construídas em um dia, especialmente quando se trata de comédias. De Friends a The Office e muito além, há um padrão no gênero com produções que demoram um pouco para engatar até entenderem como transmitir ao público quem são seus personagens, seus objetivos e sua essência. Com um ótimo começo, Our Flag Means Death (Nossa Bandeira é a Morte, na tradução oficial em português) tem tudo para ser o grande sucesso de amanhã.

É um pouco irônico que, por quase dois meses entre a conclusão e a renovação para a segunda temporada, parecia que a série da HBO Max não veria um amanhã, mas a confirmação de novos episódios traz toda uma nova perspectiva para o programa. O seriado de David Jenkins (People of Earth) dedica seus dez episódios para criar a sólida base de algo grandioso, desenvolvendo a uma excêntrica tripulação de piratas disfuncionais no século 18, com todo tipo de romance, intriga, alianças e traições.

Inspirado em histórias reais de pirataria no século 18, a trama segue Stede Bonnet (Rhys Darby), um lorde que abre mão de toda sua riqueza e família para viver a vida como pirata nos mares - mesmo sem nenhum tato para isso. Eventualmente, seus caminhos se cruzam com o temido Barba Negra (Taika Waititi), e as personalidades opostas dos dois fazem com que eles se atraiam. Nessa primeira temporada, é visível que tanto a produção quanto o público estão conhecendo esse carismático elenco de personagens pela primeira vez. 

Toda a premissa do programa surgiu quando Jenkins leu a página de Stede Bonnet na Wikipedia, e isso transparece no texto que ainda tenta encontrar motivações válidas e situações para explorar a dinâmica entre ele, sua equipe e o Barba Negra. Há uma notável falta de polimento ao ritmo e mesmo ao humor nos primeiros episódios, e diferentes abordagens são testadas até encontrar o que realmente funciona. Eventualmente as coisas começam a se alinhar, especialmente quando os dois piratas se aproximam, e quando a tripulação passa a valorizar Bonnet como seu capitão.

Ainda que não esteja totalmente afiada, Our Flag Means Death tem lampejos de genialidade quando abraça o humor anacrônico, como quando dois marujos criam o primeiro esquema de pirâmide da história, e na forma que desafia a imagem hiper-masculinizada com quais histórias de pirata são associadas. É deliciosamente divertida em sua capacidade de retratar Bonnet como um capitão que mais soa como um desastrado coach de auto-ajuda, tentando resolver problemas e intrigas de sua tripulação com terapia em grupo e projetos de artesanato. 

Em essência, funciona quase como uma série sobre um ambiente de trabalho disfuncional, só que com uma ambientação e cotidiano mais exóticos. A abordagem é via de mão dupla, que funciona quando tem uma boa sacada, mas que, em muitos dos momentos, fica presa no marasmo por piadas que simplesmente não vão além de apontar o quão inusitado tudo é. É só na reta final, quando vilões excelentes como Izzy Hands (Con O'Neill) e a Spanish Jackie (Leslie Jones) se fazem presentes, que o programa ganha fôlego para sair da inércia.

Assim como toda boa comédia, sua verdadeira força está no elenco, que aqui é genuinamente excelente em todos os núcleos. Nos protagonistas, tanto Rhys Darby quanto Taika Waititi brilham com piratas sem muito tato social, que tentam encontrar o equilíbrio entre coragem e sensibilidade, se permitindo serem adoráveis e humanos mesmo em um mundo em que isso não são exatamente qualidades. Toda a abordagem do seriado é lidar com a questão da identidade com progressismo e otimismo contagiantes, algo visível tanto na dinâmica do casal principal quanto na tripulação.

O cerne de Our Flag Means Death é a aceitação, e o programa cria seu universo de pirataria abraçando as mais variadas identidades de seus personagens. Histórias como a de Jim (Vico Ortiz), pirata não-binário que se vê acolhido por sua tripulação após temer que sua verdadeira identidade lhe isole dos demais, ou então dos romances entre os marujos trazem uma dose de positividade que soa como um abraço em tempos sombrios. 

Isso acaba por ser o que torna o seriado tão relevante e maior que suas fraquezas, como as muitas piadas que não funcionam ou o visual altamente artificial de tudo. Cada episódio é como um momento de respiro em meio ao caos, amargura e incerteza que não só marca presença em outras produções televisivas, como também é vigente no mundo todo. Assim como provou o enorme sucesso de Ted Lasso, há grande demanda por séries otimistas e sensíveis. 

Por mais que Our Flag Means Death ainda não seja tão lapidada quanto a obra da Apple TV+, sua construção de uma jornada marítima igualmente empolgante e humana estabelece uma base sólida que só deve crescer. Mesmo enquanto esse futuro não chega, os episódios que hoje já estão disponíveis, entre forças e fraquezas, conquistam pelas situações inusitadas, por um grupo adorável de personagens, e por um universo de aventuras cheio de coração e empatia.

Our Flag Means Death
Em andamento (2022- )
Our Flag Means Death
Em andamento (2022- )

Criado por: David Jenkins

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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