Ralph Macchio na segunda temporada de Cobra Kai

Créditos da imagem: Cobra Kai/Youtube/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Cobra Kai - 2ª Temporada

Continuação de Karatê Kid abraça a breguice e diversão sem decepcionar nas lutas e na surpreendente jornada emocional dos protagonistas

Arthur Eloi
03.05.2019
18h52

Assim como inúmeras emissoras, o Youtube também tentou pegar uma fatia do bolo da era de ouro da TV e produzir séries originais… sem muito sucesso, ao ponto de cancelar todas exceto uma: Cobra Kai. Na primeira temporada, a continuação de Karatê Kid, que reúne o elenco original após 30 anos, retoma a rivalidade entre Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka), mas vai além da nostalgia para criar um diálogo entre gerações. Agora, no segundo ano, o programa explora o impacto de nutrir essa disputa por tanto tempo.

A trama retorna em um ponto dramático para Johnny. Após vencer o campeonato e reerguer a Cobra Kai, ele é visitado por uma figura de seu passado: o sensei John Kreese, novamente interpretado por Martin Kove. O reencontro é bastante pesado para o protagonista, que teve uma adolescência complicada por conta da brutalidade do mestre, e cria tensão ao mostrar Lawrence dividido entre rejeitar Kreese ou dar uma segunda chance a ele, algo que permeia todo o seu arco. A série demonstra mais uma vez que não quer ficar apenas relembrando glórias passadas, mas sim questioná-las em um novo contexto.

Lawrence tem um crescimento importante aqui. Enquanto o ano um mostrou sua mudança de fracassado para professor, o segundo testa sua persistência ao demonstrar que a filosofia por trás da Cobra Kai é falha e ineficiente: por mais que Miguel (Xolo Maridueña) e Hawk (Jacob Bertrand) tenham vencido o campeonato de karatê, Johnny sente que os garotos não o fizeram de forma honrosa, e que a ideia de “Atacar Primeiro, Atacar Mais Forte e Não Ter Piedade” está contaminando a vida pessoal deles. As mudanças parecem natural para o personagem que cada vez mais, para sua infelicidade, passa a ver sua juventude espelhada nos alunos - ainda mais com Kreese presente, tentando aos poucos reassumir o comando da escola com uma intensa presença de tela graças à atuação certeira de Kove. O arco de Daniel LaRusso é parecido em muitos aspectos, lidando com sua própria obsessão pelo passado enquanto tenta ensinar uma nova geração no Miyagi-do, mas o antigo protagonista já não é mais o foco da trama - o coração de Cobra Kai é a evolução de Johnny Lawrence.

Mesmo assim, os novos lutadores também merecem destaque: tanto Miguel quanto Hawk tornam-se verdadeiros valentões no novo ano, enquanto Robby (Tanner Buchanan) e Samantha LaRusso (Mary Mouser) treinam para combatê-los e desenvolvem um romance. Aqui, rostos secundários ganham mais destaque e são divididos em time, o que aumenta a tensão da rivalidade entre os dojos e, é claro, resulta em uma boa e exagerada cena de luta no episódio final. O que torna o programa tão ousado é tentar equilibrar a jornada emocional dos dois protagonistas com o espírito adolescente dos filmes clássicos, e com os holofotes que o elenco jovem ganha, isso é tirado de letra. O que também ajuda é que o novo ano finalmente abraça a própria breguice - e a leva para outro nível.

A primeira temporada já brincava com uma estética oitentista que tornava muitas situações cômicas ou caricatas. Aqui, isso se torna intencional e ainda mais presente, com cenas como Johnny tentando usar um computador pela primeira vez ou então a Cobra Kai dando uma demonstração de luta regada a rock e fogos de artifício. Os roteiros reconhecem a própria tosqueira, e isso só deixa tudo mais divertido.

No fim das contas, Cobra Kai impressiona por funcionar em camadas ao entregar entretenimento de qualidade, drama relevante, boas cenas de luta e até mesmo expandir a mitologia da franquia original de filmes. Não é a toa que o Youtube continua renovando a série ao mesmo tempo que cancela as demais: há algo especial aqui, e a produção novamente prova que sabe como trabalhar esse potencial.

Nota do Crítico
Ótimo