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Séries e TV
Crítica

Carrie acerta ao atualizar clássico de Stephen King com a assinatura de Mike Flanagan

Entre adaptação e expansão, nova versão do icônico livro transforma o romance em um universo sobrenatural ilustrado por pautas contemporâneas e superpoderes

Omelete
4 min de leitura
02.10.2026, às 10H04.
Carrie: A Estranha (2026)

Créditos da imagem: Prime Video

Trazer Mike Flanagan para adaptar uma obra de Stephen King se tornou algo comum em Hollywood após Doutor Sono, a inesperada sequência de O Iluminado, que não fez uma grande bilheteria, mas acalentou o coração dos fãs do gênero. Com o passar do tempo, o diretor e roteirista se tornou nome recorrente quando o assunto eram novos lançamentos de terror ou mesmo quando clássicos como O Exorcista procuravam alguém para assumir o comando. Por isso, o anúncio de que ele seria o responsável pela nova versão de Carrie, A Estranha não causou temor. Pelo contrário, parecia a receita certa. O que talvez ninguém esperasse era que ele seguiria um caminho tão diferente do esperado.

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A nova série do Prime Video usa como base o livro de King, mas vai além do que é proposto pelo autor ou mesmo pelas outras adaptações, como o icônico filme de 1976. Ainda que a obra original mencione outras pessoas com poderes e explore o relacionamento da protagonista com a própria família, Flanagan amplia essas ideias e costura quase um novo universo, para usar a linguagem pop atual, dentro da história. Os fãs mais ardorosos de King sabem quão conectadas podem ser as histórias do escritor, mas Carrie leva isso a outro patamar em termos de expansão e releitura.

Não é como se a adaptação não fosse fiel, pois a base do conflito permanece a mesma do livro. Na série, a jovem Carrie (Summer H. Howell), criada em isolamento e homeschooling até a adolescência, precisa ir à escola após a morte do pai. É daí que o conflito com a mãe aflora, pois, no ambiente do ensino médio, ela começa a conhecer um mundo que nunca viu. Flanagan mantém todo o discurso sobre bullying, segregação e crueldade entre grupos típico da história, mas deixa a abordagem mais contemporânea ao explorar as relações entre alunos e professores, jovens e redes sociais e, claro, religião e cultura. Diferentemente de outras produções, Carrie consegue transitar por esses assuntos sem que a discussão soe gratuita ou pareça um recorte oportunista. Os debates são válidos, ainda que a forma se apoie em contextos muito específicos do presente, como perfis falsos no TikTok ou campanhas com fake news no Facebook.

Carrie: A Estranha (2026)
Prime Video

O livro de King, que, aliás, foi o primeiro romance publicado pelo autor, já aborda esse tipo de comportamento, assim como as adaptações anteriores o fizeram. A questão aqui é que o Prime Video transforma a história de Carrie na origem de um drama sobrenatural que se assemelha mais a uma junção de X-Men e 13 Reasons Why (ou um dos outros hits YA do Prime Video) do que a um suspense tradicional, como o primeiro filme, dirigido por Brian De Palma, ou a versão com Chloë Grace Moretz. Desde os primeiros episódios, Flanagan deixa evidente que existem outras pessoas com poderes – algo que o texto original apenas menciona brevemente – e faz disso um grande motor dos mistérios e das motivações da protagonista. Tal solução poderia se voltar contra a série, mas, como ela nunca perde de vista principalmente o drama entre mãe e filha, a escolha se torna um acerto.

Carrie: A Estranha (2026)
Prime Video

Outro fator preponderante para o sucesso da adaptação é a impecável escolha do elenco, algo recorrente nos trabalhos de Flanagan. Além da atriz principal, a excelente Summer H. Howell, rostos conhecidos de outras produções do diretor, como Kate Siegel e Rahul Kohli, estão presentes ao lado de ótimas adições, como Amber Midthunder e Siena Agudong. Esta última interpreta Sue Snell, personagem que se vê dividida entre a popularidade na escola e a compaixão por Carrie. Boa parte da proposta, porém, tem êxito justamente pela dupla central de mãe e filha. A matriarca, fanática religiosa e traumatizada pelo próprio passado, ganha contornos dolorosos e desperta empatia na pele da sempre excelente Samantha Sloyan, cujo olhar intimidador é capaz de transmitir os traumas e a culpa em um simples piscar de olhos.

Carrie: A Estranha é um excelente exemplo de adaptação ousada, que será inevitavelmente divisiva, mas que nunca se distancia do centro da obra original. Ela adiciona e muda personagens, reimagina a história principal e atualiza temas ao mesmo tempo que dá contornos relevantes ao que King sugeriu. Fã confesso de Stephen King, Flanagan sabe bem em que terreno pisa e mais uma vez se mostra um artista de confiança que, em vez de seguir uma cartilha de adaptações literais e seguras, propõe uma leitura com a própria assinatura. Isso por si só já mereceria aplausos; a parte boa é que, independentemente disso, a série funciona como uma pura e simples história de descoberta e drama sobrenatural.

Nota do Crítico

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