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Cidade de Deus volta com ainda mais cara de blockbuster – e envolvente como sempre

Segunda temporada de A Luta Não Para inaugura fase amadurecida da série da HBO Max

Omelete
3 min de leitura
14.10.2026, às 06H00.
Roberta Rodrigues em Cidade de Deus: A Luta Não Para (Reprodução)

Créditos da imagem: Roberta Rodrigues em Cidade de Deus: A Luta Não Para (Reprodução)

Sempre houve algo de forçoso na forma como Cidade de Deus emoldura sua história. A narração em off, conduzida desde o filme de 2002 por Buscapé/Wilson (Alexandre Rodrigues), serve como instrumento de didatismo, guia para as múltiplas frentes narrativas que aproximam o texto do folhetim, e aproximação de uma tradição de thriller docudramático urbano que o longa de Fernando Meirelles e Kátia Lund ajudou a rejuvenescer. Em A Luta Não Para, série continuação da HBO Max, não é diferente – mas essa condução nunca fez tão sentido quanto agora.

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O episódio de estreia da segunda temporada, exibido para convidados no Festival do Rio 2026, abre com Buscapé tirando fotos de uma reunião clandestina entre policiais e criminosos, em um cenário portuário. Escondido em cima de uma pilha de contêineres, o fotojornalista é registrado em impressionantes tomadas de drone pelo diretor Aly Muritiba (Cangaço Novo) – uma maneira eficiente de sinalizar que, após o sucesso do primeiro ano, A Luta Não Para está abraçando o seu lado blockbuster.

A partir dessa introdução, o capítulo mergulha sem demora (e com a ajuda da narração) nas vidas continuadas de seus personagens principais. Berenice (Roberta Rodrigues) começa a atuar como vereadora, enfrentando oposição e desprezo dentro da Câmara; Jerusa (Andréia Horta) volta à cena com um novo esquema que cruza caminhos com Touro (Otávio Linhares); Delano (Dhonata Augusto) volta ao trabalho na polícia, mas logo enfrenta uma acusação ultrajante, que coloca seu relacionamento com Leka (Luellem de Castro) em perigo; Geninho (Victor Andrade) luta para estabelecer para si o respeito que o pai falecido, Curió, tinha na favela; e, é claro, Cenoura (Matheus Nachtergaele) retorna à ativa para tentar controlar uma situação volátil no topo da hierarquia de poder do morro.

No melhor estilo Cidade de Deus, é fácil enxergar como cada uma dessas linhas vai convergir, no decorrer da temporada, em uma mesma bola de neve dramática. O trabalho que a série fez durante o primeiro ano, espertamente se estabelecendo como uma atualização do original para um novo formato (narrativo e estético), dá a ela espaço respirar, agora, sem a sombra de se provar um sucessor digno para um dos maiores clássicos do audiovisual brasileiro. E que bom, porque A Luta Não Para se mostra envolvente por si só.

Muritiba controla os tons dessa mistura de melodrama social e thriller de ação – “o nosso bangue-bangue”, diria Nachtergaele – com dexteridade, e maneja a produção de escala crescente com prazer óbvio. O apuro dos cenários, bem populados e decorados, salta aos olhos diante das câmeras dele, e o dinamismo do seu uso faz com que o universo da série pareça completo, preenchido, posicionado na travessia entre realidade e ficção que mais faz sentido para ele. É claro que A Luta Não Para carrega consigo o peso de uma responsabilidade política, de representação e denúncia, mas a série nunca o deixa transparecer.

É uma fase para lá de interessante para o título, e para a trajetória de Cidade de Deus como um todo. De inovação marcante a projeto arriscado, a improvável “franquia” chega a uma maturidade surpreendente nessa segunda temporada da série – e, ao chegar lá, alcança outro marco importante no sentido social da coisa: quando a favela na tela, granular e humanizada como é vista aqui, deixa de ser novidade e vira costume, temos muito a ganhar.

*A 2ª temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para chega em 8 de novembro à HBO Max.

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