Como a nova versão de Carrie fala sobre dificuldades reais do momento em que vivemos
Série de Carrie atualiza história para o público atual com novos conflitos e personagens complexos
Créditos da imagem: À Esquerda: Carrie (1976) de Sissy Spacek e À Direita: Carrie (2026) de Summer H. Howell/Divulgação
Quando assisti ao clássico Carrie (1976), de Brian De Palma, pelo qual conheci a história pela primeira vez, senti falta de mais profundidade e não gostei tanto do tom trágico, melancólico e, em alguns momentos, excessivamente expositivo. Também me incomodou o estilo bastante expressionista adotado pelo filme. Claro, sei que não se trata de um conto de fadas e que essa abordagem está relacionada ao próprio gênero do terror. Ainda assim, para mim, existe uma distância entre apresentar uma história como trágica e fazer com que ela pareça o tempo inteiro carregada de uma atmosfera depressiva.
Minha questão, portanto, nunca foi a existência desses elementos, mas a forma como eles são apresentados. Sempre pensei que Carrie poderia ser contada de maneira mais sutil, deixando algumas questões mais implícitas e permitindo que o próprio espectador chegasse a determinadas conclusões.
É justamente isso que encontrei na adaptação de Mike Flanagan, lançada na última quarta (7), no Prime Video. O formato de série permite conhecer melhor os personagens, compreender suas relações e acrescentar camadas que um longa-metragem, por limitações de tempo, dificilmente conseguiria desenvolver da mesma maneira. O ritmo mais pausado favorece esse aprofundamento e permite acompanhar a trajetória de Carrie até o grande clímax, representado pelo baile.
A narrativa ganha tempo para mostrar como cada personagem contribui para aquilo que está sendo construído e como as experiências de Carrie vão se acumulando até o acontecimento que todos conhecemos. O baile, portanto, não funciona apenas como um grande momento de terror isolado, mas como o resultado de tudo o que foi construído ao longo da narrativa. Por isso, esta nova Carrie justifica sua existência.
A história nunca foi apenas sobre uma adolescente que sofre bullying, descobre poderes telecinéticos e decide se vingar. O sobrenatural é importante, mas funciona também como uma porta de entrada para discussões muito mais amplas sobre família, isolamento, sexualidade, violência, relações de poder e a forma como uma sociedade decide quem pertence a ela e quem deve ser colocado à margem. Flanagan atualiza essas questões para o presente sem abandonar o que tornou a obra de Stephen King tão marcante.
Tendo em vista a intensa produção de novas versões para histórias clássicas, esta série era o que faltava para o clássico de King ganhar novos contornos na atualidade.
A seguir, confira as principais reflexões que a série levanta.
Leia aqui a crítica de Thiago Romariz sobre Carrie.
1 – O lar também pode ser um lugar ameaçador
Uma das primeiras coisas que a série faz pensar é que o mundo externo não é necessariamente o único lugar perigoso para uma criança ou adolescente. Às vezes, o próprio lar pode se transformar em um espaço de controle, medo, isolamento e violência. Nesse sentido, a trama traz uma dualidade problemática: tanto a proteção excessiva quanto a negligência familiar podem produzir consequências.
Carrie vive o primeiro extremo. A vigilância de sua mãe não é apenas uma forma de cuidado exagerado. Ela impede que a filha conheça o mundo, tenha contato com outras pessoas e desenvolva referências próprias. E a série vai além ao mostrar que esse comportamento não surge do nada. Existe um trauma familiar sendo transmitido, acompanhado por uma visão de mundo extremamente fanática. A violência de Margaret (Samantha Sloyan) não se resume a agressões individuais: ela interfere na maneira como Carrie enxerga o próprio corpo, a sexualidade, a religião e até seus sentimentos. Portanto, esse abuso emocional é reflexo de algo muito mais estrutural: um poder simbólico que detém o controle das estruturas mentais, morais e emocionais de Carrie.
É nesse contexto que a atriz Summer H. Howell se destaca. Sua Carrie transmite ingenuidade e sensibilidade, mas também uma capacidade de observação que impede a personagem de parecer simplesmente passiva. Ela não é apenas uma adolescente triste esperando que algo aconteça. É uma jovem que está tentando compreender um mundo do qual foi deliberadamente afastada.
A série também apresenta o outro extremo por meio de Chris Hargensen (Alison Thornton). A família de Chris é completamente diferente da de Carrie, mas não necessariamente mais saudável. Se Carrie é submetida ao excesso de controle, Chris cresce em um ambiente de permissividade e ausência de limites.
E isso é importante porque uma das melhores escolhas da adaptação está justamente em não ser maniqueísta, ou seja, transformar seus personagens em figuras completamente boas ou más. Conhecer melhor Chris não significa justificar suas atitudes. Significa compreender que pessoas capazes de praticar violência também são influenciadas pelas relações que estabelecem ao longo da vida.
2 – O cyberbullying é uma responsabilidade social
Flanagan encontra uma maneira bastante eficiente de atualizar Carrie: leva o bullying para o ambiente digital e analisa suas implicações no mundo real, de maneira bastante abrangente. A criação do perfil Carrie Vermelha e a circulação de imagens íntimas transformam uma humilhação localizada em um acontecimento capaz de alcançar toda a comunidade.
Mas existe uma camada ainda mais interessante nisso. Chris pode iniciar o ataque, mas outras pessoas participam ativamente na criação de novos conteúdos e ajudam a transformar aquela violência em um fenômeno coletivo.
Isso porque a tela cria uma distância que facilita a violência e produz uma falsa sensação de impunidade. Nas redes sociais, uma publicação pode ser criada, compartilhada e substituída em questão de minutos. O problema é que, para quem sofre a violência, suas consequências podem custar uma vida – até literalmente.
Então, a construção do cyberbullying apresentada pela série é progressiva: alguém inicia o ataque, outras pessoas colaboram, a violência se espalha, seus efeitos ultrapassam o ambiente digital e, quando a situação chega às instituições, muitas vezes o problema enfrenta negligência e já tomou proporções catastróficas.
Por isso, talvez uma das perguntas mais incômodas de Carrie não seja apenas “quem começou?”, mas também: quantas pessoas ajudaram a fazer aquilo continuar?
3 – Repressão, sexualidade e punição social
A relação de Carrie com o próprio corpo, a sexualidade e as regras impostas por Margaret revela como desejos, medos e experiências reprimidas podem influenciar a maneira como alguém se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
Seu isolamento também faz com que seja percebida como diferente. Carrie não possui as mesmas referências culturais e comportamentais dos demais jovens, o que faz com que seja percebida como diferente. A sociedade, então, transforma essa diferença em motivo para punição e exclusão.
Nesse sentido, a telecinese pode ser interpretada simbolicamente como uma extensão daquilo que Carrie não consegue expressar de outra forma: raiva, medo, vergonha e desejos reprimidos. No horror, o sobrenatural frequentemente funciona como metáfora, e em Carrie a relação entre repressão e explosão está no centro dessa construção.
4 – Quando o poder feminino vira ameaça
A série levanta uma crítica importantíssima sobre como a sociedade enxerga e trata pessoas com habilidades e poderes extraordinários, especialmente mulheres, tendo em vista sua marginalização histórica e a violência praticada pelo patriarcado. Esses poderes, conhecimentos e habilidades muitas vezes foram tratados como fraude, charlatanismo, loucura ou até mesmo bruxaria. Existe, nesse sentido, um medo do poder feminino, principalmente quando ele foge daquilo que a sociedade considera normal ou aceitável.
A produção deixa essa crítica social de maneira bastante discreta, mas está presente durante toda a narrativa. Flanagan traz diferentes exemplos históricos de mulheres que foram perseguidas justamente por causa dessas habilidades.
E aqui está um dos méritos da nova adaptação, que mostra que Carrie não está sozinha, já que existem outras mulheres ao longo da história que foram tratadas como aberrações por aquilo que não era compreendido.
A questão deixa de ser apenas se ela é perigosa por possuir poderes e passa a ser outra: por que aquilo que é diferente precisa necessariamente ser tratado como uma ameaça?
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