Bruce Campbell como Ash Williams em Ash vs. Evil Dead

Créditos da imagem: Ash vs. Evil Dead/Starz/Divulgação

Séries e TV

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Como Evil Dead se reinventou das telonas para a TV, mas ninguém viu

Franquia de terror ganhou continuação televisiva que entregava tudo que os fãs pediam, mas morreu cedo demais por baixa audiência

Arthur Eloi
23.10.2019
14h18
Atualizada em
23.10.2019
14h29
Atualizada em 23.10.2019 às 14h29

É quase impossível se manter em dia com tudo de bom que chega às televisões. Entre adaptações, dramas profundos e romances adolescentes que ganham o público, há pérolas com suas fiéis comunidades de fãs, pequenas ou médias. Algumas conseguem se manter com pouco, já outras não chegam muito longe.

Infelizmente Ash vs. Evil Dead se encaixa no segundo caso. Mesmo focando no entretenimento e apresentando um fluxo constante de surpresas e bizarrices, a série de TV foi cancelada pouco antes da conclusão de sua terceira temporada, que desde o início sofreu com quedas bruscas na sua já-reduzida audiência.

A série que continua o legado de Sam Raimi (da trilogia Homem-Aranha) veio, arriscou e foi embora, mas pouca gente viu na época que estava no ar. Com o Halloween chegando, tanto Evil Dead quanto sua adaptação televisiva viram recomendações certeiras para ver na noite das bruxas - portanto vale entender como o programa nasceu, morreu e qual o futuro da franquia daqui para frente.

Origem humilde (e barulhenta)

Cartaz de Evil Dead (1981)
Evil Dead (1981)/Divulgação

Se o seriado teve uma pequena porção de espectadores, o mesmo não pode ser dito sobre Evil Dead. A franquia de filmes criada por Raimi foi um marco para a década de 1980, criando novos padrões de qualidade para projetos independentes, e também para a quantidade de sangue e profanidade que poderiam ser colocados na tela. O sombrio e exagerado humor, que dividia espaço com o terror, é outro elemento único para a época, e se tornou ainda mais evidente nas sequências.

Acompanhando um grupo de jovens durante um retiro nas montanhas, a trama mostra o grupo cometendo o erro de ler passagens proibidas de um livro abandonado no chalé em que estão hospedados: o Necronomicon, o livro dos mortos. Como resultado, uma antiga força do Mal desperta e passa a atacá-los através de demônios e possessões. A jornada de Ash Williams, o último sobrevivente interpretado por Bruce Campbell, mostra sua ida de perdedor a herói, armado com uma escopeta.

O sucesso de Evil Dead foi controverso. O filme foi banido em vários países como no Reino Unido, onde foi batizado de “Video Nasty” ao lado de outras “perversões” como Doce Vingança (1978), Holocausto Canibal (1980) e as obras de David Cronenberg. Isso tudo só ajudou no marketing: quanto mais tabu se tornava, mais tentador era de assistir. Mas quem realmente trouxe atenção à produção foi o autor Stephen King. Impressionado com a mistura de humor sombrio e violência gráfica, o Mestre do Horror rasgou elogios em sua crítica para a revista The Twilight Zone, chamando-o de “o filme mais intensamente original de 1982” - sendo que o ano viu também a chegada de clássicos como Blade Runner, O Enigma de Outro Mundo e muito mais.

Crítica de Evil Dead por Stephen King para a revista Twilight Zone

Crítica de Evil Dead por Stephen King para a revista Twilight Zone (u/rippedstallion via Reddit)

Reddit (u/rippedstallion)/Reprodução

A personalidade de Evil Dead era algo até então inédito, e o segundo filme, de 1987, soube capitalizar muito bem isso. Amplamente reconhecido com o melhor da franquia, Evil Dead II faz uma espécie de remake do original em seus primeiros minutos, mas toma rumos inesperados e ainda mais cômicos e sanguinários que o antecessor. Ajuda muito que Campbell retorna mais fanfarrão do que nunca, munido de um vasto arsenal de balas, cortes de serra-elétrica e frases de efeito. Não é à toa que, a partir daí, Ash Williams se tornou patrimônio do cinema de gênero.

Raimi, por sua vez, exagerou um pouco a mão no humor na hora de amarrar a trilogia com Army of Darkness (1993). O longa mais soa como uma comédia pastelão, mas só ajuda a firmar como a identidade da franquia depende muito do equilíbrio entre seus elementos. Quem também sofreu com isso foi A Morte do Demônio (2013), remake do Evil Dead original pelo cineasta Fede Álvarez. Sem Campbell e com tom muito mais sério, os fãs demoraram a se identificar com a reinvenção (o que não deixou de torná-la em um sucesso de bilheteria). O exagerado e, às vezes literal, banho de sangue criado por Álvarez só foi reconhecido como a obra-prima do terror que é com o passar dos anos.

A parcela mais fiel do público da franquia queria algo novo, mas no mesmo espírito que os filmes originais. Felizmente, Sam Raimi queria o mesmo.

De volta dos mortos - mas não por muito tempo

Em 2014, o cineasta se reuniu com Campbell para explorar como o guerreiro lidaria com a volta dos demônios 30 anos após o incidente original. Havia planos de narrar isso nos cinemas, mas a telinha ganhou prioridade. Pelo meio ser conhecido por narrativas recorrentes, o projeto levantava a dúvida: será que realmente existe material o bastante na vida de Ash Williams para justificar uma série de TV? Seja como for, Raimi estava interessado no formato e ainda tinha proximidade com a Starz, onde produziu o primeiro sucesso da emissora, Spartacus. Tudo estava alinhado e o diretor não desperdiçou a oportunidade.

No ano seguinte, Evil Dead retornou do jeito que os fãs tanto pediam, com a estreia de Ash vs. Evil Dead no Halloween de 2015. De cara, a série trouxe o ar de familiaridade dos clássicos, já que Campbell era tão natural no papel de Ash que parecia nunca ter saído dele. A versão velha, decadente mas irreverente e boba do herói explicava facilmente como alguém que passa a vida inteira lutando contra o mal conseguiria se descuidar ao ponto de deixá-lo voltar. Por sorte, isso também significava mais uma aventura para o caipira de motosserra enfrentar, dessa vez acompanhado de seus dois colegas de trabalho, Pablo (Ray Santiago) e Kelly (Dana Lorenzo). O programa era conduzido como uma história de road trip, com o trio caindo na estrada para enfrentar a presença do Mal.

Ao longo de três temporadas, Ash vs. Evil Dead expandiu a mitologia sobre o Necronomicon, entregou sangrentos efeitos práticos, contou com a participação de Lucy Lawless (protagonista de Xena, a Princesa Guerreira, série produzida por Raimi) e até desenvolveu a figura de Ash Williams, mostrando-o como alguém que realmente não cresceu com o tempo e que encontra muitos conflitos no cotidiano atual por causa disso. Era uma série muito consciente de suas próprias forças, que integrou elementos absurdos em sua narrativa como forma de surpreender o público a todo momento. Por exemplo, há um arco em que um fantoche de mão (Ash Slashy!) é possuído pelas forças do mal e passa a influenciar o protagonista. Por um certo período, o programa era uma das coisas mais imprevisíveis da TV, podendo ir de 8 a 80 no mesmo episódio.

Ash Williams e Ashy Slashy em Ash vs. Evil Dead
Ash vs. Evil Dead/Starz/Divulgação

O seriado se provou feito sob medida para os fãs e, no fim das contas, esses foi justamente o problema. A série nunca teve audiência incrível, ficando na casa dos 200 mil espectadores, e esses números só foram despencando ao ritmo que a trama avançava. Em 12 de abril de 2018, quando Ash vs. Evil Dead já ia mal das pernas, Bruce Campbell revelou que tinha planejado temporadas futuras, mas que as coisas não pareciam boas: "Estamos em um terrível limbo televisivo agora. Se nos tirarem do ar, podemos pensar em fazer outro filme. Se não, só continuaremos com mais temporadas". A Starz oficializou o cancelamento apenas oito dias depois, faltando dois episódios para a conclusão do ano três. Uma semana depois, Bruce Campbell anunciou que se aposentaria do papel de Ash Williams. Evil Dead teve seu retorno triunfal, mas ninguém assistiu.

E agora?

O ano seguinte ao fim de Ash vs. Evil Dead foi complicado para os fãs. Campbell revelou que faria algumas participações especiais em videogames antes de guardar sua escopeta, dublando um personagem jogável de Dead By Daylight e também para um vindouro jogo inédito da franquia. Mesmo assim, ele parece determinado em seguir em frente quando se trata de TV e cinema.

Já Sam Raimi tem planos maiores. O cineasta largou o posto de diretor de terror desde 2009, quando comandou o excelente Arraste-Me Para o Inferno, e focou na sua carreira de produtor, entregando obras de peso como o Homem nas Trevas (por sinal, dirigido por Fede Álvarez) e Predadores Assassinos. Só agora que Raimi ensaia um retorno, tendo dito que está trabalhando em ideias para resgatar Evil Dead e confirmando um novo filme da franquia - mas sem Campbell. Além disso, ele também dirigirá um longa de horror para a Columbia Pictures, estúdio onde fez sua trilogia do Homem-Aranha no início dos anos 2000.

Há a possibilidade do novo Evil Dead ser continuação da versão da Álvarez, que introduziu Mia (Jane Levy), sua própria heroína de serra-elétrica na mão. Isso seria um prato cheio para os fãs, mas um que não tiraria por nada o gosto de ter recebido um presente perfeito como Ash vs. Evil Dead, apenas para vê-lo desperdiçado.

As três temporadas de Ash vs. Evil Dead estão disponíveis no catálogo da Netflix.