San Diego Comic Con

Artigo

Novos Titãs | Quando o incômodo com Estelar começa a se tornar um problema

Escolha de uma atriz negra para viver personagem vem sendo questionada em nome de uma suposta fidelidade com os quadrinhos

Rafael Gonzaga
21.07.2018
13h00
Atualizada em
21.07.2018
17h58
Atualizada em 21.07.2018 às 17h58

A DC divulgou finalmente o primeiro trailer da série live-action dos Novos Titãs e, apesar do foco do vídeo ter ficado todo nos personagens Dick Grayson (Brenton Thwaites) e Ravena (Teagan Croft), o público estava ansioso por alguns vislumbres de Estelar (Anna Diop) e Mutano (Ryan Potter). Os dois últimos aparecem na prévia, mas sua participação é extremamente limitada. O público não vê nenhum dos dois usando seus poderes em seu potencial máximo, apenas dando pequenas sugestões. Contudo, desde que escolhas de elenco apontaram supostas mudanças étnicas em relação ao material base dos quadrinhos, muita gente se dedicou especialmente a dedilhar críticas à escolha de uma atriz negra para interpretar Estelar - apesar da personagem dos quadrinhos ser uma alienígena laranja.

Há uma diferença brutal entre não gostar da versão de um personagem em detrimento de alguma anterior - isso acontece o tempo todo por quem lê quadrinhos e prefere o traço de um artista a outros - e achar que o mesmo personagem perde a essência ao ser retratado com traços étnicos diferentes. Estelar, por acaso uma alienígena laranja, sem etnia definida, mas foi retratada em padrões estéticos que se aproximam mais do estereótipo caucasiano do que de qualquer outro - indo do formato do nariz até os muito recentes cabelos lisos. Se o herói continua com os mesmos poderes, mesma história de origem, mesma personalidade e a introdução de novo contornos raciais é o suficiente para incomodar esteticamente o fã a ponto de deslegitimar a autenticidade dele, há um problema grande aí que atende pelo nome de racismo.

Até agora, pouco se sabe sobre a Estelar de Diop. Além de sua breve participação no trailer exibido na San Diego Comic Con, houve o vazamento de algumas fotos do set - ambas muito parecidas. A própria atriz já sentiu a necessidade de acalmar os fãs e rebater críticas, dizendo que essas imagens estão inseridas em um contexto específico e que a caracterização dela como Estelar vai além do que já foi visto. “Posso garantir que essas imagens vazadas estão fora de contexto, e realmente se tratam de uma má interpretação da incrível personagem que é a Estelar”, e continuou: “Porém, o discurso de ódio que se seguiu foi deplorável. E embora eu esteja completamente despreocupada, eu quero usar essa situação como oportunidade para dizer que atacar pessoas não é algo que tolero”.

Enquanto as pessoas resolveram questionar a DC, pouca gente parou para prestar atenção no elenco do programa. Thwaites, Croft, Minka Kelly, Alan Ritchson, Curran Walters, Conor Leslie vivem os heróis da atração e são todos atores brancos - as exceções no elenco principal são Ryan Potter, o ator asiático que vive Mutano e Diop, a Estelar. Esses dois últimos, aliás, são os únicos atores que interpretam personagens cuja pele nos quadrinhos não é branca, já que Mutano é verde e Estelar, como já foi dito, é laranja. Se a Estelar - ou mesmo o Mutano, que, apesar de verde, era um rapaz branco antes de ganhar os poderes nas HQs - fosse reproduzida por uma atriz branca, o elenco principal seria, mais uma vez, formado só por atores brancos e isso sim, em 2018, deveria ser motivo para causar estranhamento.

A questão é: há, historicamente, uma dívida dos quadrinhos com a representatividade não-branca. Na DC, Tyroc surgiu em 1976, podendo ser considerado o primeiro herói negro, e muita gente não faz ideia de quem ele seja pelo fato de que sua contextualização era extremamente problemática - Vox chegou a aparecer antes, em 1970, mas sem poderes e John Stewart foi apresentado em 1971, mas em aparições muito esporádicas até 1984. Usando a Marvel como exemplo, um herói negro, Luke Cage, só foi ter sua própria revista em 1972, uma década depois da criação do primeiro realmente importante, Pantera Negra, que fez sua estreia em uma revista do Quarteto Fantástico em 1962. Para heroínas negras, a coisa foi ainda mais complicada: a primeira a ser criada pela editora foi Tempestade, e isso aconteceu só em 1975. Ambas editoras existem desde os anos 1930.

Após décadas de criação de centenas de heróis brancos e um ou outro negro no processo, é claro que a balança hoje está desregulada. Há vários movimentos de reparação com a falta de igualdade étnica, de gênero ou de orientação sexual ocorrendo nesse momento nos quadrinhos. Se o mundo - e o público consumidor de quadrinhos - é formado pelos mais diversos tipos de pessoas, não faz sentido que eles funcionem como uma realidade paralela formada por homens brancos heterossexuais. No papel, vimos ações de mudança do tipo em exemplos que vão desde o Homem de Gelo revelando a homossexualidade até uma mulher assumindo o manto de Thor. Com a comunidade negra, a avalanche de produções audiovisuais que dão vida aos famosos heróis dos quadrinhos tem servido ocasionalmente a esse propósito.

O Heimdall dos quadrinhos de Thor é branco e no cinema foi vivido por Idris Elba; o Tocha Humana do Quarteto Fantástico teve sua mais recente adaptação para o cinema na pele de Michael B Jordan; o Pistoleiro vivido por Will Smith em Esquadrão Suicida também é branco nas HQs - até a Domino, que é literalmente branca nos quadrinhos, foi representada pela atriz Zazie Beetz em Deadpool. E é inacreditável que parte do público fique mais incomodada com a mudança étnica desses personagem do que com o fato de que se ela não tivesse ocorrido, a representatividade negra na tela seria ainda ínfima ou, pior, nula. No caso de Anna Diop, o que acontece é algo semelhante ao caso da Gamora, a alienígena verde dos Guardiões da Galáxia, de Zöe Saldana - cuja aceitação, porém, foi mais fácil por se tratar de uma atriz já reconhecida em Hollywood.

Para quem questiona a real necessidade disso, a resposta é: não estamos mais nos anos 1930. Há hoje a necessidade de criação de personagens de diferentes etnias como é o caso da Miss Marvel de Kamala Khan e vários outros que surgiram na última década, mas isso por si só não repara a defasagem de quase um século - então, sim, a Estelar de Anna Diop é um avanço a ser recebido de braços abertos. Se o desenvolvimento da personagem em cena vai ser ruim, isso é um problema a ser questionado em tela, quando a série estrear de fato - e isso vale, obviamente, para qualquer outro personagem. Por enquanto, fãs dos quadrinhos podem aproveitar melhor o tempo usando esse caso específico para torcer pelo melhor, abraçar a mudança e rever alguns conceitos ultrapassados.