Rorschach homenageará e se distanciará de Watchmen ao mesmo tempo, dizem autores no DC FanDome

Créditos da imagem: Divulgação/DC Comics

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Rorschach homenageará e se distanciará de Watchmen ao mesmo tempo, dizem autores

Tom King e Jorge Fórnes falaram sobre seu novo quadrinho em painel especial no DC FanDome

Gabriel Avila
12.09.2020
17h10

O universo de Watchmen será novamente revisitado nos quadrinhos na HQ Rorschach. Os autores Tom King e Jorge Fornés, responsáveis pelo projeto, participaram de um painel especial sobre a publicação que tem como protagonista uma nova versão do justiceiro mascarado criado por Alan Moore e Dave Gibbons.

Consciente de que esse é um desafio enorme, já que Watchmen é um dos maiores clássicos dos quadrinhos, King revelou que chegou a negar a primeira oferta de escrever Rorschach. “Você não quer ser o cara que vem depois do Richard Pryor para contar uma piada. Está destinado a fracassar, você não quer ser comparado a algo que jamais poderá superar". Relembrando a natureza da obra original, que é completa em si mesmo, King afirmou que só mudou de ideia após ver a série da HBO, criada por Damon Lindelof, o entrevistador do painel. “Lembro de assistir ao primeiro episódio e dizer ‘uau, alguém consegue vir depois do Pryor para contar piadas e fazer as pessoas rirem do mesmo jeito'". Porém, o roteirista afirmou que é importante realmente “seguir” o que veio antes, não tentar copiar.

Fornés ressaltou que apesar de estarem voltando a esse universo, foi importante não se limitar pelas regras estabelecidas na obra de 1986. “Não procuramos seguir os passos do Watchmen original. Seja conceitual ou graficamente, já que quisemos contar nossa própria história. Decidi não olhar muito para o seu trabalho, a não ser em alguns momentos, para achar o melhor visual para a nossa história". Uma das formas encontradas pela dupla para se afastar de Watchmen foi focar no lado noir da nova história, o que para o artista também se mostrou uma dificuldade, já que a própria HQ original bebe muito dessa fonte.

Ainda que tenha uma abordagem diferente, Rorschach não deixou para trás todos os aspectos de Watchmen. King revela que sua história vai tratar de alguns problemas do mundo real assim como o quadrinho de Moore e Gibbons abordou a situação política e social da década de 1980. “Estamos atravessando uma loucura tumultuosa que está nos apertando e testando. Acho que o Alan Moore nos deu as coordenadas para falar disso em um quadrinhos e na literatura. (...) Então quis me envolver no projeto para falar sobre isso. É muito político, moderno, mas também tenta ser revolucionário como Watchmen tentou antes”. Mais para o fim da conversa, Fórnes concordou com o colega. “É político igual o anterior, mas não quero falar muito porque o roteiro do Tom King vai explodir sua cabeça. Tem muitas camadas, muitas nuances e é absolutamente profundo. Espero que todos levem seu próprio ponto de vista para a história”.

Steve Ditko e o embate entre diferentes filosofias

Questionado sobre a natureza de seu novo Rorschach, Tom King fez questão de voltar às raízes do personagem, que nasceu como uma resposta de Alan Moore a alguns dos personagens de Steve Ditko, co-criador do Homem-Aranha. “Rorshach, como muitos nerds por aí já sabem, é uma paródia. É uma forma de zoar algumas criações do Steve Ditko como o Mr. A e um pouco do Questão, já que o Ditko pós-Stan Lee mergulhou na filosofia da Ayn Rand, que entre outras coisas defendia que há o bem e há o mal, e nada além. Para Ditko, sua responsabilidade como artista era desenhar pessoas que fossem boas matando pessoas más, e se saísse disso estaria falhando. Se você ler Mr. A, pode ver que Ditko vagarosamente enlouquece de uma forma artisticamente linda (...) e se torna quase o próprio Rorschach - ele acabou se isolando em seu apartamento por quase 30 anos. Então Alan Moore pegou essa ideia de um personagem que só via bem e mal e o tornou o vigilante supremo. Acontece que essa paródia, e Steve Ditko provavelmente riria disso, se tornou atraente e cativante para as pessoas igual o Wolverine e o Justiceiro.

O próprio King afirma que quando criança Rorschach era seu personagem favorito da HQ. “Essa é a maravilha do termo Rorschach que Alan usa, essa ideia de que o vejo como personagem sobre a minha perspectiva, e ela muda conforme eu também mudo, assim como um teste de Rorschach, certo? Você está olhando para uma imagem para ver a si mesmo”. Jorge Fórnes concordou com seu colega e afirmou que amadurecer ajuda a entender a essência do personagem. “Entendemos isso agora, porque nos anos 1980, quando éramos jovens, Rorschach era um dos favoritos. Sabe, eram os anos 1980, a era de Rambo, Charles Bronson, aí você cresce e passa a entender o que Rorschach significa, os vários aspectos do personagem”.

Voltando à filosofia do personagem, King revelou que se o Rorschach original era uma resposta de Moore a Ditko, esse novo é a sua própria resposta a Moore. “Tornei esse cara obcecado em Hannah Arendt, que é uma filósofa contemporânea completamente de Ayn Rand, outra imigrante judia da Alemanha que era obcecada com cidadania, ela esteve em campos de concentração e a obsessão de sua vida foi como a gente pode impedir outra ascensão nazista. Olhamos pelo ponto de vista da Arendt, pensando em como ele muda nossa concepção de super-heróis e vigilantes”.

Por fim, questionado se Ditko gostaria dessa nova HQ do Rorschach, King não teve dúvidas ao dizer que não “Acho que ele odiaria. Venero sua arte, mas acho que ele odiaria tudo o que eu escrevo pois todo o meu trabalho é sobre incertezas morais e isso claramente tem a ver com meu trabalho na CIA. A ideia de que você acha que sabe o que está fazendo sem saber de verdade, as pessoas que você conhece têm falhas e as que têm falhas podem ser heróis. Tudo isso me atrai como escritor, mas nunca atraiu Ditko. (...) Vamos prestar grande homenagem a sua linda arte, e ninguém faz melhor isso que o Jorge. Ele odiaria isso e peço desculpas ao seu espírito”.

A primeira edição de Rorschach tem lançamento programado para 13 de outubro nos EUA.

Chamada Explore o Multiverso, a segunda parte do DC FanDome acontece neste sábado (12) e terá foco maior nos quadrinhos e nas séries de TV. O evento está dividido em quatro palcos virtuais: o WatchVerse, com destaque para as séries de TV; InsiderVerse, que foca nos bastidores das produções; o FunVerse, com conteúdos interativos e o YouVerse, com conteúdos de cosplay e artes feitas pelos fãs – entenda o que será exibido em cada um.

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