Imagem de Roly Poly

Créditos da imagem: Daniel Semanas/YouTube/Reprodução

HQ/Livros

Entrevista

Entrevistamos Daniel Semanas, criador de Roly Poly, uma homenagem ao K-Pop

Brasileiro tem estreia simultânea nos Estados Unidos e Brasil

Marcelo Forlani
15.11.2018
21h27

A estreia é sempre cercada de nervosismo e empolgação. Foi neste misto de sentimentos que o Omelete foi conversar com o artista Daniel Semanas assim que ficou sabendo do lançamento quase simultâneo de Roly Poly nos Estados Unidos e no Brasil, respectivamente pelas editoras Fantagraphics e Mino. Já falamos sobre ela na coluna HQs Brasileiras e esperamos falar muito mais sobre o Semanas por aqui. Que estreia! 

Omelete: Quanto tempo você ficou produzindo? 

Semanas:  Passei 2 anos e meio produzindo. Mas tipo, não fiquei totalmente focado... tive que ficar parando pra fazer os jobs que pagam as contas hehehe 

Omelete: De onde vem o título? 

Semanas:  O titulo veio meio que como uma homenagem a uma música de K-Pop bem popular. Gosto da sonoridade e a tradução seria aqueles brinquedos tipo "João bobo”, sabe? Aquele que tem a base redonda e você empurra e ele volta... Esse conceito também tem a ver com a história. A pira da ação e reação. No caso, de como um empurrão inesperado pode servir como motivação / inspiração.

Omelete: Fale, por favor, sobre as influências da Coreia. Você já foi para lá e se apaixonou? Ou foi pela estética?

Semanas: Sempre fui mais pelas referências do Japão. Mas quando veio a onda de K-Pop curti o apelo visual moderno, tem uma pegada mais fashion e cool, que eu achei legal de explorar graficamente. Quando terminei o quadrinho imprimi um boneco e comprei uma passagem para Coréia e Japão para tentar vender o livro pra alguma editora de lá. Bati na porta de algumas editoras em ambos os países, todas gostaram do livro mas descubri que o mercado de lá é super fechado, recebi conselhos dos editores para publicar fora e importar como conteúdo estrangeiro.

Omelete: Você está saindo aqui no Brasil pela Mino e lá fora pela Fantagraphics. Como foram as negociações? Foi fácil chegar nos editores? Você já entregou o material pronto ou algum deles editou algo, deu seus pitacos? 

Semanas: Desde o começo a intenção era publicar o livro em uma editora fora do país, mirar no mais alto possível e ver no que dava. Queria publicar nos Estados Unidos, na Coréia e no Japão. Acabou não dando certo na Ásia, como eu falei, mas enquanto isso meu amigo Rafael Grampá estava viajando pelos Estados Unidos e acabou conhecendo o Eric, editor da Fantagraphics. Ele apresentou o projeto Roly Poly e de cara o Eric adorou, entramos em contato e na próxima semana já assinamos o contrato. Foi surreal por que das editoras que gostaria de publicar, a Fantagraphics era a que eu mais queria. Entreguei o material totalmente pronto, eles só me ajudaram com pequenas correções gramaticais do inglês e adaptação de cores para impressão.

Omelete: Qual contrato você fechou primeiro: lá fora ou aqui? Um ajudou o outro? Ou foram negociações completamente paralelas? 

Semanas:  Fechei primeiro com a Fantagraphics, eles se propuseram a vender nos EUA e outros países, só pedi para que não publicassem no Brasil, que iria achar uma outra editora por aqui, pensei nisso como um jeito de fazer o quadrinho girar por aqui de maneira independente de lá. Tinha um apego grande ao quadrinho como um objeto, por isso cheguei na Editora Mino, que viu o material e também topou publicar no ato. Ambos os livros tiveram um acabamento impecável, não poderia pensar em editoras melhores para o projeto. 

Omelete: Chegou a pensar em um crowdfunding? Ou a ideia era essa de conseguir uma editora?

Semanas:  Aqui no Brasil era sim uma possibilidade, mas eu já havia tido uma experiencia de crowdfunding com o projeto Anna Bee e não gostei muito, todo o processo de divulgação para atingir a meta e o pós de enviar as recompensas era algo que eu não queria lidar, me fazia mais sentido investir no boneco e no teaser e chegar diretamente numa editora.

Omelete: Você tem uma playlist para a galera ouvir enquanto lê Roly Poly? Poderia indicar algo?

Semanas:  Durante os quase 3 anos de produção do projeto, um album que me inspirou bastante foi o Visions, da Grimes. A vibe do álbum tinha tudo a ver com o clima que gostaria de passar na história, escutava diariamente durante a produção para me manter inspirado e com a cabeça naquele clima. 

Omelete: Dá para ver o quanto que seu trabalho como animador ajudou na hora de contar história. Tem uma fluidez que não é comum para um estreante. Alguém chegou a comentar isso com você?

Semanas: Sim! Fazer a transição do formato animação para quadrinho foi um grande desafio na hora de fazer os thumbs. Na animação, rola de controlar o timing das cenas de um jeito preciso, podia contar com a trilha para acelerar e desacelerar o tempo de acordo com o mood que cena pedia. No quadrinho, quem escolhe o tempo de leitura é o próprio leitor, mas ainda assim era possível brincar com ritmo, adorei fazer as cenas em que os movimentos dos frames eram quase como um frame a frame de animação. Eu ter vindo da animação acabou deixando o livro com um timing mais autoral e, na minha opinião, acabou sendo um ponto positivo para o projeto.

Omelete: Aliás, por que fazer uma HQ? Por que não foi direto para uma animação, como no seu teaser? 

Semanas: Antes de começar o processo do livro, eu tinha acabado de participar de um projeto de episódio piloto para o projeto Anna Bee, juntamos um grupo de artistas em uma casa para tocar o piloto, passamos 6 meses trabalhando dia e noite para fazer 11 minutos de animação. No fim do processo eu e a equipe nos sentimos esgotados de tanto trabalhar. Foi daí que me veio uma vontade de explorar outros jeitos de contar histórias, algo que não precisasse de tanto investimento de grana, energia e equipe. Ironicamente acabou sendo tão trabalhoso quanto, se foi não mais (risos). Além disso, explorar outra plataforma é sempre um bom desafio, e isso me empolgava bastante, adorei fazer o formato quadrinho e fiquei inspirado a produzir mais.  O formato quadrinho permite contar uma obra grandiosa com uma equipe reduzida, muitas vezes até sozinho, e dependendo da repercussão teria até a possibilidade de se transformar em um filme ou uma série, como podemos ver vários exemplos de produções hoje em dia. 

Omelete: A HQ é uma puta viagem psicodélica. Você consegue listar algumas influências que te levaram para este caminho?

Semanas:  Me inspirei bastante na ambientação dos filmes do Wong Kar Wai - Fallen Angels é meu preferido. Drive, Warriors, etc. Para a parte de figurino me inspirei no trabalho do Alexander McQueen e para a parte visual, de um modo geral, vem muito do tumblr / pinterest. Visualizava o livro quase como um artbook ou uma revista de moda.