Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Mix de opiniões sobre o HQ Mix

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Mix de opiniões sobre o HQ Mix

Maior premiação brasileira de HQ tem pontos fortes e fracos

Érico Assis
02.10.2020
18h13
Atualizada em
02.10.2020
19h19
Atualizada em 02.10.2020 às 19h19

O Troféu HQ Mix anunciou seus indicados de 2020 esta semana. Em seguida começou a temporada de comemorações de quem entrou na lista do HQ Mix (eu, inclusive) e a temporada de críticas ao HQ Mix. Sempre um mix de emoções.

O HQ Mix é o prêmio mais importante do mercado de quadrinhos brasileiro. Está na 32ª edição e, nessas três décadas, a lista de premiados serve de bom indicativo do que foi bem falado em cada ano. Mesmo que nosso mercado seja dominado pelo material estrangeiro, o Troféu sempre privilegiou o quadrinho brasileiro. Até nos áridos anos 1990, quando era difícil juntar meia dúzia de publicações nacionais.

O Troféu deste ano: Radical Chic, de Miguel Paiva

As críticas ao HQ Mix costumam ser à amplitude: são muitas categorias - 32 na edição deste ano, mais três especiais -, muitos indicados por categoria - dez, em média, mas há categorias com treze indicados - e a sensação de que tentou se abraçar tudo, citar todo mundo que faz parte do mercado.

Quadrinhos obscuros aparecem pela primeira vez para muitos dos que leem a lista – o que é ótimo – mas também se afogam num oceano de indicados famosos e desconhecidos. A falta de informações em muitas categorias – quem é o autor ou a autora, é de editora ou independente, nomes incompletos ou errados – contribuem para esse afogamento.

A curadoria de uma lista de indicados cumpre uma função muito importante: selecionar as obras dignas de nota no ano. Selecionar, chegar em um número pequeno. Idealmente, a lista vai levar gente a procurar essas poucas obras antes da premiação, ler, fazer campanha. Os votantes inclusive teriam tempo de procurar estas obras e ler.

Uma lista gigante não é uma seleção: é só uma lista gigante.

A Cabana tem cinco indicações.

No Twitter, o quadrinista Pacha Urbano puxou uma discussão: a disparidade entre obras nacionais e estrangeiras.

O editor Guilherme Kroll, da Balão Editorial, concordou:

Maria Clara Carneiro, tradutora e crítica de HQ, fez o contraponto:

Também se questionou a quantidade de mulheres e a quantidade de mangás entre os indicados.

Três Buracos tem cinco indicações.

Não há como saber se essas proporções – estrangeiros/nacionais, homens/mulheres, entre estilos – vêm da curadoria do prêmio ou das inscrições. O HQ Mix não seleciona entre todo o mercado, mas apenas entre o material que se inscreve para concorrer. (A inscrição é paga, mas o valor é módico.) Quem não se inscreveu não tem como aparecer na lista de indicados.

Quanto à divisão entre nacionais e estrangeiros, talvez categorias específicas para um e outro fossem mais justas. É o que elaborou Guilherme Kroll, questionado pela coluna:

“Não tem sentido premiar a melhor minissérie do Tom King quando se tem um mercado brasileiro que publica mais do já se publicou”, diz o editor. “O quadrinho gringo vai ser melhor porque os autores podem se dedicar a fazer isso, é um mercado mais sólido, mais maduro, onde as pessoas trabalham profissionalmente apenas com isso.”

Tina: Respeito tem quatro indicações.

Maria Clara Carneiro, citada acima, tem razão: prêmios estrangeiros como o Eisner e o do Festival d’Angoulême misturam obras de várias procedências nas suas categorias. São prêmios de mercados consolidados – indústrias, melhor dizendo.

A grande maioria das categorias do HQ Mix também privilegia o nacional. Mas há categorias como a "Publicação em Minissérie”, citada acima, onde dois brasileiros concorrem com oito estrangeiros – incluindo o Senhor Milagre de Tom King e Mitch Gerards (Panini).

A questão aí talvez seja de restrição da categoria: minissérie é um típico modelo de publicação norte-americano (no HQ Mix, também aplicado a mangás). O nome de outras categorias, como “edição especial”, também parece resquício da época em que o modelo de publicação principal era a série mensal. No mercado de álbuns, graphic novels, coletâneas, tankobons etc., a “especial” virou comum.

Em "Publicação de Clássico", também há dois brasileiros contra oito gringos. "Publicação Juvenil" e "Publicação de Aventura/Terror/Fantasia" também misturam gringos e brasileiros.

O Elísio tem cinco indicações.

Mas, enfim, aquela pergunta: quem vai ganhar? Perguntei a Lucio Luiz, editor da Marsupial/Jupati e também estudioso do HQ Mix, que analisa tendências entre os vencedores há anos.

“Arrisco dizer que, desde 2011 não tem propriamente uma ‘surpresa’ em quem vence”, analisa Luiz. “E arrisco dizer, mais ainda, que este ano deve ser a primeira vez que não é tão fácil cravar quem será o vencedor, pois temos pelo menos quatro ou cinco com potencial para ser o mais votado.”

Três Buracos, de Shiko (Mino), O Elísio: uma Jornada ao Inferno, de Renato Dalmaso (Avec) e A Cabana, de Caru Moutsopoulos, Caroline Favret e Gustavo Novaes (independente) são as obras mais citadas no HQ Mix 2020: cada uma concorre em cinco categorias.

A Graphic MSP Tina: Respeito, de Fefê Torquato– certamente a graphic novel brasileira mais lida entre os lançamentos de 2019 – divide o patamar de quatro indicações com Monstruário Volume 2, de Lucas Oda e Mário Cau (Jupati Books), e Último Assalto, de Daniel Esteves e Alex Rodrigues (Zapata). Um dos grandes sucessos de crítica do ano passado, Luzes de Niterói, de Marcello Quintanilha (Veneta), tem três indicações.

“Nos últimos anos, o vencedor acabou sendo o quadrinho mais falado no ano”, comentou Lucio Luiz, lembrando que Marcelo D’Salete ficou com (merecidos) quatro troféus em 2018, sobretudo por Angola Janga. “Este ano, tanto pelos autores quanto pelas obras, não tem nenhum que seja ‘a unanimidade’. Chuto que 2020 é o ano mais equilibrado que já tivemos.”

Luiz levanta um último ponto importante: “Atualmente, temos mais prêmios de quadrinhos simultâneos desde, sei lá, de nunca. Claro que, tirando Angelo Agostini, HQ Mix e o Jabuti de quadrinhos, os outros ainda não têm a mesma força e/ou impacto, mas todos têm potencial de crescer: o Prêmio Grampo, o Prêmio Dente de Ouro e o Prêmio Le Blanc, todos com os vencedores de 2020 já definidos.”

QUINO

Marcelo Martinez

Não há notícia maior na semana, nem mais triste, que a morte de Quino. Já escrevi sobre ele aqui, esta semana, então não vou me alongar.

No dia do falecimento, o designer e ilustrador Marcelo Martinez publicou esta imagem perfeita de Mafalda, acima. Perguntei a ele da sua relação com Quino:

“Acho que conheci Quino primeiro pelos seus cartuns sem texto, em algum lugar de meus rabiscos de infância. E sigo encantado por seu desenho excepcional e sua maestria em uma arte onde elegância, sutileza, ironia e senso crítico só encontram o equilíbrio perfeito nas mãos de poucos. Pra mim, um dos maiores de todos. Bela safra, essa de 1932 (que nos deu também o francês Sempé).

Já sua Mafalda ganhou o mundo. Mas, nesses tempos em que jovens leem tão pouco, será? Fiz o teste com o adolescente lá de casa.

‘Filho, vários amigos estão agradecendo aos pais por terem lhes apresentado a Mafalda quando pequenos, então é só pra dizer que tem um Toda Mafalda ali na estante…’

‘Nem precisava. Toda prova de português tem uma tira da Mafalda sobre os problemas do mundo, pai.’

Mafalda e Quino seguem.”

Quero recomendar muito o obituário de Julieta Roffo, no Clarín, um texto longo e apaixonado sobre a obra do autor argentino.

“Uma personagem da ficção tornou-se espelho onde podemos nos enxergar. Pensar como a Mafalda - ou pensar como pensamos que a Mafalda teria pensado - tornou-se aspiração. Ninguém nos inventou o que Quino nos inventou: um parâmetro de como podemos melhorar, que já tem mais de cinquenta anos e ainda não tem substituta.”

UMA PÁGINA

Katharina Greve

Da alemã Katharina Greve. É de 2017, mas só conheci há pouco tempo. A autora fez 102 mini-histórias, correspondentes aos 102 pisos de um arranha-céu. E é esse o nome da HQ: Das Hochhaus, o arranha-céu.

Não está completa aí em cima: você pode ler (em alemão) todos os andares aqui. E, se quiser impressa, pode comprar em um rolo de sete metros.

UMA CAPA

Editora Veneta

De Berlim, com design de Gustavo Piqueira/Casa Rex sobre a arte do autor Jason Lutes.

Berlim é a obra colossal – quase 600 páginas – que Lutes produziu por mais de vinte anos. Trata da cidade alemã nos anos 1920 e 1930, logo antes da ascensão do nazismo – período de efervescência cultural, vanguardas artísticas e novas ideias, que acabou em tragédia. Saiu completa, finalmente, em 2018 e é um dos quadrinhos mais comentados da década.

Está em pré-venda, com desconto, no site da editora Veneta. A tradução é de Alexandre Boide.

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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