Alisha Hawthorne e Buzz em Lightyear

Créditos da imagem: Pixar/Divulgação

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Lightyear finalmente evolui o aceno da Pixar à representatividade LGBTQIAP+

Colocando romance lésbico no coração do filme, estúdio convida público a refletir

Omelete
4 min de leitura
Eduardo Pereira
14.06.2022, às 21H04

A notícia do banimento de Lightyear em três países por conta de um beijo entre personagens do mesmo gênero é um lembrete absolutamente lamentável do quanto a humanidade ainda precisa progredir na aceitação de sua própria pluralidade. Ao mesmo tempo, a Pixar manter a cena em todas as versões de seu maior lançamento nos cinemas em 2022 — aceitando a perda de mercado em países que abraçam institucionalmente a homofobia — é um inquestionável sinal de progresso.

Desde 1995, quando inaugurou com Toy Story sua tradição como um dos estúdios de animação mais icônicos da história do cinema, a empresa subsidiária da Disney coleciona icônicos casais em seu crescente rol de personagens. Bo Peep e Woody, Jessie e Buzz, os Cabeça de Batata, os Incríveis, EVE e Wall-E, Ellie e Carl e por aí vai. Todos heterossexuais porque pessoas LGBTQIAP+ só passaram a existir em 2020? Não, mas sim porque foi só nesse ano que a Pixar teve coragem para apresentar em um de seus filmes um personagem que abertamente sentisse atração pelo mesmo gênero.

Foi em Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, com a policial Spectre (Lena Waithe), uma coadjuvante de no máximo segundo escalão na aventura em que os personagens de Tom Holland e Chris Pratt tentam magicamente reencontrar o pai morto. Além de ser dublada por uma atriz que é abertamente lésbica, ela surgia em uma breve cena fazendo menção a uma namorada, mas tudo isso resultou em pouco mais do que um aceno à ampla diversidade sexual que enxergamos no mundo real. Depois disso, se Luca (2021) não versou oficialmente sobre nada além de amizade entre dois garotos, e Red - Crescer é uma Fera (2022) não teve espaço para abordar isso em seu recorte geracional sobre mães e filhas, restou a Lightyear o peso de realmente marcar um progresso na inclusão proposta pela Pixar. E, quem diria: ele conseguiu.

O novo filme faz de um relacionamento amoroso entre duas mulheres uma ferramenta essencial para que toda sua história funcione — mesmo que o protagonista dela seja um homem branco e aparentemente heterossexual. É porque, depois de Buzz (Chris Evans), a principal personagem de Lightyear é sua melhor amiga, a Comandante Alisha Hawthorne (Uzo Aduba). Mulher negra, em posição de liderança em um universo aparentemente muito mais avançado que o nosso (tecnológica e socialmente), ela se casa com outra mulher e estabelece, ao lado dela, uma família que se torna vital para a redenção heroica do personagem-título.

Felizmente, a inclusão de Alisha não se trata de uma instrumentalização vazia, com a personagem LGBTQIAP+ simplesmente construindo uma escada para a elevação do protagonista masculino que serve um padrão heteronormativo. Em Lightyear, um filme centrado na aceitação dos erros como meio de evolução, o arquétipo representado por Buzz é confrontado diretamente por suas próprias falhas. O que o faz mudar sua visão delas é encarar o valor naquilo que o cerca, e a validação da história de vida de Hawthorne é central para isso. Ao escolher conferir essa função ao amor entre duas mulheres, a Pixar conscientemente convida o espectador a partilhar da mesma visão que move Buzz; automaticamente fazendo com que se considere a beleza, a dignidade e o valor (inestimável) de um relacionamento que foge ao que é considerado tradicional.

É um acerto, que não apaga a necessidade de avanços muito maiores, mas que merece ser celebrado. Dentro do contexto que liga Lightyear a Toy Story, o novo filme é uma aventura de ficção científica dos anos 1990 à qual o garoto Andy assistiu, quando bem jovem. Considerando a diversidade e maturidade contidas na história, só pode-se concluir que o universo de Toy Story avançou muito mais rapidamente do que o nosso no trato às pautas sociais de representatividade sexual, racial e de gênero. O que o longa comunica à nossa realidade, portanto, é a esperança de que a Pixar consiga finalmente, nos próximos anos, ter a coragem e a sensibilidade para encurtar a distância entre sua realidade e sua ficção.

E que, depois de coadjuvantes de luxo, lésbicas, gays, bissexuais e mais minorias possam finalmente ser protagonistas de suas próprias histórias.

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