Cena de Democracia em Vertigem/Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Oscar 2020 | Documentário é cinema ou jornalismo?

Cobrindo diferentes tipos de assuntos, gênero cinematográfico informa ao mesmo tempo que entretém

Nicolaos Garófalo
26.01.2020
17h00
Atualizada em
26.01.2020
13h13
Atualizada em 26.01.2020 às 13h13

Categoria fixa no Oscar desde 1942, o prêmio de Melhor Documentário premia, obviamente, o que a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas considera ser o melhor documentário lançado no ano relativo à premiação. Em seu ano de estreia, a categoria contava com 25 indicados, entre longas e curtas-metragens, com quatro filmes agraciados pela estatueta.

Na época, em meio à entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, três dos documentários vencedores abordavam ângulos diferentes do confronto, como The Battle of Midway, que trazia imagens coloridas da batalha entre as forças norte-americanas e o exército japonês pelo controle da estratégica ilha no meio do Pacífico, e Moscow Strikes Back, que narra a defesa soviética contra a invasão do exército nazista entre outubro de 1941 e janeiro de 1942. Por apresentarem diversos recursos narrativos em comum com longas roteirizados, como a utilização de trilha sonora para criação de um tom emocional, um roteiro que conta uma história real e, com frequência, uma estética surpreendente para seu período, como The Battle of Midway ou Marcha dos Pinguins, de 2005, os documentários passaram a ter, pelo menos na visão da Academia, o mesmo valor artístico que longas considerados nas categorias de Melhor Filme, ganhando assim seu espaço próprio dentro da premiação.

Por seus indicados não terem o mesmo alcance que os de outras categorias, os documentários tendem, no entanto, a passar batidos pelo público da premiação. Em 2019, por exemplo, Free Solo rendeu a estatueta mais cobiçada do cinema a Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chin, Evan Hayes e Shannon Dill, mas não causou o rebuliço de filmes como Green Book, Roma ou Infiltrado na Klan, especialmente por acompanhar a trajetória do alpinista Alex Honnold em sua tentativa de alcançar o pico da montanha El Capitan, nos Estados Unidos, ao invés de abordar temas mais polêmicos, como alguns de seus antecessores.

Por outro lado, longas recentes, como Uma Verdade Inconveniente (2006), O.J.: Made in America (2016) e Inside Job (2010), todos vencedores do Oscar, deixaram de lado assuntos tidos como “curiosidade” ou de interesse para determinados nichos - como comportamento animal ou feitos esportivos - e priorizaram temas de importância global para, cada um de seu modo, revelar os efeitos do aquecimento global, explorar a vida do ex-ídolo do futebol americano acusado de assassinar a esposa e seu amante e expor um esquema econômico que resultou na crise mundial do final dos anos 2000. Assim como qualquer reportagem, os documentários cobriram dois preceitos básicos do jornalismo ao divulgar informações de interesse público e interesse do público.

Embora as expressões sejam extremamente parecidas, suas consequências têm efeitos gigantescos no conteúdo apresentado. Um documentário de interesse público, como Uma Verdade Inconveniente, informa a população sobre situações que possam alterar drasticamente a vida das pessoas. No caso do aquecimento global, ainda negado por diversos líderes mundiais, poucas pessoas buscam ativamente se informar sobre o problema, criando assim a necessidade da produção de conteúdos de alcance mundial – como foi o filme produzido pelo ex-político norte-americano Al Gore – que chame a atenção da população.

O.J.: Made in America, que buscou explorar mais a fundo um dos crimes de maior repercussão midiática da história dos Estados Unidos, cobre, como qualquer outro veículo de entretenimento, o interesse do público. O caso, que cobriu o circo em torno do julgamento do ex-jogador da NFL O.J. Simpson, segue vivo até hoje no imaginário popular, sendo adaptado até mesmo para a televisão na série American Crime Story.

Os exemplos citados acima têm uma origem em comum: todos foram produzidos após coleta de dados, pesquisas e incluem entrevistas com fontes confiáveis, sejam pesquisadores ou pessoas diretamente envolvidas no tema do documentário. Inside Job e O.J. ainda contaram com inúmeros livros e reportagens sobre os casos retratados, tornando a relação entre o jornalismo e o documentário ainda mais clara. 

Recentemente, dois escândalos mundiais tomaram o mesmo caminho. O primeiro, levado a público em 2015, foi o escândalo de corrupção da FIFA liderado pelo então presidente da entidade Joseph Blatter, que ajudou a eleger o Qatar como sede da Copa de 2022. A reportagem, inicialmente escrita e publicada por Andrew Jennings em The Dirty Game, se tornou tema de documentários como Planet FIFA e The FIFA Family – A Love Story.

Dois anos depois, Ronan Farrow abalaria o mundo do entretenimento com uma reportagem publicada no New Yorker em que escancarava os abusos de Harvey Weinstein contra atrizes de Hollywood. Seguindo a repercussão do artigo, corroborado por nomes como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, diversos sobreviventes de experiências semelhantes conseguiram espaço para derrubar seus agressores, expondo pesos-pesados da indústria como Woody Allen, pai de Farrow, e Kevin Spacey. Em 2019, o artigo foi usado como base para o documentário Untouchable, lançado em 2019 pelo Hulu (o vídeo abaixo apresenta conteúdo sensível).

Assim como qualquer reportagem em qualquer outra mídia, os documentários não estão livres de um olhar enviesado. Untouchable, Made in America e Uma Verdade Inconveniente, todos carregam um pouco da ideologia de seus realizadores. O mesmo acontece com Democracia em Vertigem, documentário brasileiro dirigido por Petra Costa indicado ao Oscar deste ano. O longa narra o conturbado momento político vivido no Brasil desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff até a ascensão do atual governo. Focada no discurso extremista de Jair Bolsonaro e seus apoiadores, a cineasta e a Netflix, distribuidora do filme, se tornaram alvo das mesmas críticas e xingamentos sofridos por veículos que denunciam falhas ou discordem da visão ideológica da administração atual, como Folha de S. Paulo, Rede Globo e até mesmo o Omelete.

Por tratarem de assuntos reais e, como exemplificado pelos filmes de Costa e Gore, o enviesamento dos documentários pode tomar proporções maiores e mais graves do que longas como Bohemian Rhapsody, de 2019, criticado por seu retrato incorreto da vida do cantor Freddie Mercury. Assim como qualquer produção jornalística de conteúdo mais polêmico, Democracia em Vertigem e Uma Verdade Inconveniente receberam duras acusações de manipulação de informações para não só agradar o público que já compactuava com a visão de seus realizadores, mas também influenciar pessoas com pouco conhecimento sobre o tema. Embora nem todo documentário busque como princípio manipular ou alterar a opinião pública, a maneira como aborda determinados temas tem um alcance e, por consequência, um impacto muito maior na hora de informar (ou desinformar) os espectadores, despertando discussões quanto à sua responsabilidade ética ao cobrir temas mais delicados.

Mas a relevância do documentário para o interesse público é o que torna Democracia em Vertigem importante para o jornalismo. Apesar de assumidamente enviesado, o documentário serve como retrato histórico para os acontecimentos políticos dos últimos anos e cobre, da perspectiva de Costa, o processo político que levou à polarização extremista no Brasil. Com discursos semelhantes reaparecendo nos Estados Unidos, Europa e América Latina, o filme cumpre seu papel de expor os momentos decisivos dessa mudança política, do mesmo jeito que repórteres, analistas e autores têm feito há anos, mas com o apoio de uma plataforma de alcance mundial.

Mais acessível e de consumo mais popular do que o jornalismo tradicional, os documentários seguem à risca quase todos os requisitos de uma boa reportagem: linha narrativa, entrevistados que fortaleçam os argumentos apresentados e uma história cativante o bastante para atrair público e investidores - coincidentemente, características necessárias em qualquer produção cinematográfica. Embora a Academia premie o melhor do entretenimento, a categoria de Melhor Documentário apresenta, anualmente, os grandes trabalhos jornalísticos no audiovisual, seja uma reportagem sobre um alpinista ou o retrato da situação política de uma nação.