Glamour, lágrimas e camarões: a minha experiência no Oscar 2023

Créditos da imagem: Arquivo Pessoal

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Artigo

Glamour, lágrimas e camarões: a minha experiência no Oscar 2023

Um relato detalhado de uma jornalista que viveu (e sobreviveu) a pompa hollywoodiana

Omelete
6 min de leitura
15.03.2023, às 13H22.
Atualizada em 16.03.2023, ÀS 12H12

Ainda me parece absurdo dizer essas palavras, mas no último domingo (12) eu fui ao Oscar. Em Los Angeles. Sim, aquela cerimônia luxuosa que elege os melhores filmes do ano, sabe? E não só isso: eu estive no mesmo cômodo que todos os vencedores da 95ª edição, celebrando e ouvindo-os falar sobre seus trabalhos. 

É apenas inacreditável, e escrevo isso não como jornalista que cobre cultura já há anos, mas como alguém que se encantou com o cinema na infância. Talvez por isso mesmo tenha demorado tanto tempo para cair a minha ficha de que indo ao Oscar eu estaria indo ao Oscar e que, portanto, ficaria frente a frente com tanta gente que eu admiro. Na realidade, sinto que eu passei uma semana inteira em Hollywood na mais absoluta negação, porque até o evento realmente começar, minhas preocupações eram muito mais corriqueiras.

Talvez seja contra intuitivo, mas para mim a pior parte de qualquer cobertura são as horas anteriores. E, considerando todos os muitos protocolos do Oscar, dessa vez a minha boa e velha ansiedade estava potencializada. Desde a noite anterior, minha cabeça foi tomada por questões hipotéticas: e se, indo a pé até o Dolby Theatre, eu não encontrasse a entrada adequada a tempo? E se a segurança do evento encrencasse comigo ou julgasse que a minha roupa não era elegante o suficiente e me mandasse embora? E se eu tivesse desaprendido a andar de salto, torcesse meus dois pés e ficasse largada no meio da Hollywood Boulevard? Em resumo, e se eu nunca entrasse?

Sim, você está corretíssimo: eu tenho a tendência a catastrofizar os cenários mais simples. E, acredite, eu me sinto especialmente idiota diante de toda essa insegurança agora, porque tudo foi tão simples. Tão simples.

Caminhando do hotel até a Calçada da Fama, encontrei realmente um longo bloqueio. Mas foi só pedir direções a um ou outro policial que logo encontrei meu caminho. Mesma coisa passado o letreiro do Oscar: com um sorriso no rosto, os funcionários da Academia — que, vale dizer, estavam tão perdidos quanto eu — foram me indicando as portas certas e, entre uma escapada e outra para fazer fotos no tapete, encontrei a sala de imprensa. Já a minha roupa… Eu podia até não estar de vestido longo, mas, modéstia parte, meu terninho dava um pau em muitos looks por aí. É, toda a minha ansiedade valeu de nada: às 11h55 da manhã, eu já estava a postos para um evento que começaria apenas às 17h — e se estenderia até 00h. 

O glamour do tapete, com suas longas cortinas castanho-avermelhadas, estatuetas gigantes, carpete champagne e uma verdadeira profusão de luzes e câmeras, era visto com mais discrição na sala de imprensa, onde me instalei. No fundo da sala, o palco que receberia os grandes vencedores dessa 95ª edição era, de fato, o auge da elegância. Uma parede bege era adornada por quadros com o logo e com a icônica estatueta, rodeados por detalhes em dourado. Voltado para ele estavam seis grandes holofotes, uma câmera e, claro, um microfone. Mas, passado esse pedaço do cômodo, todo o resto era bastante comum. 

Veja, tratava-se apenas de uma sala de conferência com sete longas mesas para comportar cerca de 300 jornalistas, vindos de 50 países. Não fossem os colegas com seus trajes brilhantes e acetinados e a variedade de sotaques, aquele poderia ser qualquer outro evento. Afinal, como em qualquer convenção, o espaço era tomado por notebooks e tinha cabos por toda a parte e singelos pratinhos de comida aqui e ali para sobreviver à longa noite. Mas, se tratando de Oscar, os petiscos para a imprensa incluíam até camarões.

Me ocupo descrevendo a sala, porque uma orientação dita e repetida ao longo da semana do Oscar era “em hipótese nenhuma tire fotos”. As consequências de tal atitude nunca foram especificadas, mas o silêncio dos colegas mais experientes deixava claro a gravidade do que poderia acontecer — e eu não estava disposta a descobrir por conta própria.

Pelas próximas 12 horas, a minha companhia foram três jornalistas filipinos — dois deles, descobri mais tarde, eram membros da HPFA — um australiano e um homem cuja nacionalidade não me atentei. Apenas lembro que ele teve um problema com seu sapato, e me senti mais segura caso meu medo se concretizasse também. Acontece! Todos se conheciam de outros Oscars, e por isso aproveitaram a espera para colocar o papo em dia. Enquanto isso, eu os ouvia atentamente, esperando por algum conselho ou informação mínima que me ajudasse a entender o que até então parecia abstrato. E todos foram muito gentis comigo e minhas perguntas — ao menos, em inglês, né? Vai que estavam me zoando em filipino! —, e no final das contas me recomendaram até filmes filipinos para ver mais tarde — mas com um alerta: eles duram mais de quatro horas! 

O clima de camaradagem foi ficando mais e mais palpável conforme a cerimônia se aproximava. Todos estavam atentos à TV, elegendo os mais bem vestidos do tapete vermelho — e, claro, os piores também. E, embora todo o furdúncio de flashes e gritaria estivesse a um andar de distância, a gente não ouvia nada. Apenas o som da transmissão oficial e os comentários dos colegas — às vezes até afiados — sobre as estrelas.

É engraçado, porque nunca imaginei que os jornalistas estrangeiros mais experientes se impressionariam tanto quanto… bem, eu. Por isso, no momento em que me caiu a ficha de que estava de fato no Oscar — isto é, quando Guillermo del Toro entrou na sala uma hora depois de levar seu prêmio por Pinóquio —, tentei disfarçar que meu olho encheu de lágrima. Mas a verdade é que eu sequer precisava.

Conforme a noite foi avançando e o cansaço batendo — haja café, viu? —-, os repórteres se revelavam mais e mais como fãs. A cada novo vencedor anunciado, gritinhos eram ouvidos nos quatro cantos da sala. A cada nova piada do apresentador Jimmy Kimmel, risadas interrompiam as entrevistas em curso — e aqui vale uma breve explicação: todos estavam com um ouvido no radinho, acompanhando a cerimônia, e o outro, no que rolava na sala de imprensa. Mas a maior prova de que o profissionalismo poderia ser maleável naquela situação foi quando nomes como Ke Huy Quan, Michelle Yeoh e Brendan Fraser entraram no cômodo. Basicamente todos os presentes se levantaram e os receberam com palmas. E eu, que não sou boba, aproveitei para me jogar nessa farofada também! 

Era um ambiente muito descontraído. Jornalistas mais chegados aos vencedores abriam suas perguntas comnão te disse que você levaria?. Ou, então, no calor da emoção de ver um conterrâneo premiado, falavam longamente no idioma do seu país — e se você só falasse inglês, paciência! Os ganhadores, por sua vez, estavam em sua maioria em um estado de sonho: quando não tinham dificuldade de articular suas ideias, recorriam a comentários bem-humorados para preencher o tempo. Foi assim, por exemplo, que Jamie Lee Curtis arrancou gargalhadas com seu pedido depor favor, não me cancelem hoje. Mesma coisa quando Yeoh, diante da calorosa recepção, perguntou:vocês têm certeza de que são jornalistas?.

Infelizmente, pela necessidade de reportar o que é dito na sala de imprensa com rapidez, passei boa parte do tempo de cabeça baixa, encarando meu celular. Faz parte! Isso não anula o fato de que a experiência de participar de um evento como esse — que, vale dizer, deve sim ser observado com um olhar crítico, e não só do ponto de vista da produção cinematográfica — é algo que eu vou guardar com muito carinho na memória. Como jornalista, como fã e como ansiosa de carteirinha. Eu encarei mais essa montanha-russa de emoções e, quem diria? Sobrevivi para contar a história.

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