Uma Batalha Após a Outra é o tipo de filme que o Oscar deve premiar
Filme de Paul Thomas Anderson foi o grande vencedor da noite, levando Melhor Filme e Melhor Direção
Créditos da imagem: Warner Bros.
Por muito tempo, Paul Thomas Anderson tem sido mencionado por críticos, cinéfilos e cineastas (particularmente aqueles que nasceram dos anos 1990 pra cá) como o diretor norte-americano de sua geração. Responsável por clássicos como Sangue Negro, Boogie Nights e O Mestre, PTA era tão frequentemente mencionado como um gênio que ele parecia destinado a seguir os passos de outros grandes nomes que nunca levaram o Oscar de Melhor Direção para casa, como Stanley Kubrick ou Alfred Hitchcock, ou, no mínimo, esperar anos pelo reconhecimento, como Martin Scorsese. Então, ele lançou Uma Batalha Após a Outra.
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Seu épico de ação sobre a vida no aqui e agora não só rendeu, enfim, o prêmio de Melhor Direção no Oscar 2026, como foi consagrado em Melhor Filme e em mais categorias. Semelhante a Sean Baker no ano passado, é curioso pensar em PTA como um titã de prêmios. É verdade que, diferente do diretor de Anora, Anderson já havia sido indicado múltiplas vezes. No entanto, depois de tanto tempo preferindo recompensar narrativas e filmes típicos de premiação, ainda é impressionante ver o Oscar reajustar seu status como evento. Pelo quarto ano consecutivo, a nova Academia – mais internacional e jovem – coloca as estatuetas na mão do “filme do ano.” Não necessariamente o mais visto, mas o que dominou a conversa, tem fãs dentro e fora da indústria e foi quase universalmente louvado pela crítica.
Concorde ou não com as escolhas, foi assim com Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Oppenheimer, Anora e, agora, Uma Batalha Após a Outra. O melhor deste quarteto, o longa de PTA é incomum dentro da filmografia do californiano, e talvez por isso tenha sido o título que anulou as resistências do Oscar. Custando mais de US$ 100 milhões para ser produzido, rodado e lançado em IMAX e estrelado pelo maior astro dos últimos 30 anos em Leonardo DiCaprio, Batalha destoa dos projetos mais íntimos recentes do realizador, como Vício Inerente, Trama Fantasma e Licorice Pizza. Aqui está algo grandioso, de amplo escopo e fincado em temas cuja urgência pauta noticiários e feeds mundialmente – Imigração, racismo, rachaduras familiares. Com exceção de O Agente Secreto, não há outro filme entre os 10 indicados com tanta pólvora social e política.
É impossível assistir a algo como Sangue Negro e O Mestre e não detectar o autor diagnosticando o nascimento da sociedade moderna, mas desde seu primeiríssimo frame, Uma Batalha Após a Outra eletriza e arrepia com sua disposição para escancarar os dilemas modernos, algo que pode facilmente ser lido como uma resposta de PTA às acusações de que ele não saberia fazer um filme situado no Século 21 (seu único outro projeto contemporâneo, Embriagado de Amor, poderia existir em qualquer época). A diferença é que Batalha nunca pisa no freio para discursar. Não porque faltam discursos ou grandes declarações no filme, mas porque a abordagem do diretor não é de comunicar seus temas via cenas didáticas e pedantes, e sim através do cinema de gênero. Neste caso, estamos falando da ação.
Tão inspirado por algo como Exterminador do Futuro 2 quanto por A Batalha de Argel, Uma Batalha Após a Outra nos diz tudo que precisa nas sequências de fuga, que separam pai e filha e sublinham a dificuldade de proteger nossos amados de um mundo cada vez mais violento. Ele diz tudo que precisa no caos dos personagens que, frenéticos, vão de um lugar ao outro em busca de segurança. O grande clímax do longa, uma perseguição que literalmente usa altos e baixos para gerar suspense, é o exemplo definitivo do que PTA quis dizer escolhendo o título Uma Batalha Após a Outra. Há sempre uma nova ladeira para subirmos. A luta diária nunca acaba. Isso é político, e é humano. Você pode escolher olhar pelo viés do confronto contra regimes autoritários, como também pode abraçar o desespero de pais que observam uma nova geração enfrentando perigo por todo lado.
Este é, enfim, o tipo de filme que deve ganhar o Oscar. É isso que essa premiação deve almejar. Premiar algo digno do posto de Melhor Filme não só por ter ótimas notas ou pelo sucesso de bilheteria, mas porque se trata de um longa-metragem que se anuncia ousadamente como imediato sem nunca sacrificar o atemporal. Uma Batalha Após a Outra será, para sempre, um ótimo retrato do mundo na primeira metade desta década, mas sua execução – com o humor escrachado, a ação intensa e as atuações de ponta – o sustentará por anos e anos no futuro. Por quanto tempo nós sonhávamos ver algo assim levando o principal prêmio da noite? Quando reclamamos de O Discurso do Rei ter vencido A Rede Social, ou de Corra! ter ficado apenas com Melhor Roteiro Original, era essa motivação que movia as críticas ao Oscar.
Agora, a maré está mudando. Uma Batalha Após a Outra consolida esta nova versão Oscar como uma premiação confiável na hora de formar uma espécie de cânone atual. Claro que, se tratando do Oscar, a garantia só dura um ano (vale lembrar que Emilia Pérez esteve a uma polêmica de fazer história), mas hoje, podemos descansar as preocupações. Assim como Bong Joon-ho, Christopher Nolan ou (num nível mais indie) Baker, pensar no cinema dos últimos 20 anos é pensar, inevitavelmente, nos filmes de Paul Thomas Anderson. Se o Oscar precisa representar o melhor do cinema, então já era hora de colocá-lo no palco, com um troféu nas mãos. Afinal, ele fez o tipo de filme capaz de definir um século.