O Rei Leão | Como o remake da animação muda a maneira de fazer cinema

Créditos da imagem: O Rei Leão/Disney/Youtube/Reprodução

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O Rei Leão | Como o remake da animação muda a maneira de fazer cinema

Versão dirigida por Jon Favreau concilia realidade virtual com os processos analógicos de uma produção live-action tradicional

Mariana Canhisares
17.07.2019
19h12

O Rei Leão não é mais um dos live-actions da Disney. Quer dizer, a nova versão da história de Simba sequer pode ser chamada por esse nome. Afinal, o longa não envolveu captura de performance, sets práticos e muito menos animais de verdade zanzando por um estúdio. Por mais realista que seja, nos 118 minutos de filme há apenas um quadro gravado no mundo real. Todo o resto, entre animais, paisagens e texturas, foi criado em computadores.

Embora seja cada vez mais comum usar CGI nas produções cinematográficas, a tecnologia usada no remake é inédita. O diretor Jon Favreau, responsável também pelo aclamado Mogli, o Menino Lobo, em mais de uma ocasião a definiu como uma espécie de "jogo multiplayer em realidade virtual". Todos os dias, usando seus headsets de VR, ele e sua equipe exploravam as Terras do Reino, encontrando leões, hienas, suricatos e javalis pelo caminho.

“É demais”, contou o ator JD McCrary, o jovem Simba do remake, durante uma entrevista coletiva em Los Angeles. Ele, como todos no elenco, teve a chance de visitar os icônicos cenários da nova versão. "É tipo assistir a um filme, mas você está dentro dele! A gente voava! Podíamos ser o que quiséssemos”. Mas a experiência, ainda que pareça divertida e em alguma medida até pouco complicada, exigiu um trabalho meticuloso e técnico antes fora da realidade virtual.

Em vez de um set, Favreau e companhia trabalhavam em um ambiente chamado volume, um espaço praticamente vazio ocupado apenas por um tablado. Lá, os operadores de câmeras usavam carrinhos conhecidos como dollys, iguais aos que você pode ver em qualquer produção cinematográfica. Porém, eles não apoiavam câmeras tradicionais, mas equipamentos - com formato e peso de uma câmera - que, por meio sinais infravermelhos e sensores 3D, reproduzem no ambiente virtual o trabalho de um cinegrafista no mundo real.

Então, antes de qualquer gravação, Favreau e o diretor de fotografia Caleb Deschanel entravam nas Terras do Reino virtuais e planejavam como a cena se desenrolaria com a ajuda de controles muito parecidos com os usados por Steven Spielberg em Jogador Nº1. Definidos os posicionamentos das câmeras e dos demais equipamentos no ambiente virtual, a equipe e seus visores no mundo real entravam em ação e, conforme se moviam sobre o tablado, seus movimentos de câmera eram recriados na savana de Simba.

Steven Spielberg durante as filmagens de Jogador Nº 1

HTC VIVE/ Reprodução

Essa harmonia entre as inovações e os processos tradicionais e analógicos da cultura cinematográfica foram uma determinação de Favreau. "Produzir filmes e games está se sobrepondo tanto ultimamente com essas mudanças. Sempre que uma nova tecnologia chega, ela perturba a indústria”, afirmou. Por isso, para ele, era essencial construir todo esse esquema ao redor da maneira como cineastas trabalham normalmente. Assim, o cinema não se perderia dentro dos avanços tecnológicos que, como a captura de performance em Avatar, podem moldar o futuro da indústria.

CRIANDO OS PERSONAGENS

Ainda que os gráficos fotorrealistas dos personagens e cenários de O Rei Leão sejam todos frutos de trabalhos quase que exclusivamente em computadores, a equipe não apenas fez extensas pesquisas e visitas a campo como usou vídeos das performances dos atores para trabalhar o aspecto dramático das cenas. Colocando todo esse acervo, incluindo as gravações, dentro da realidade virtual, os profissionais então animavam dentro da engine do jogo.

Nesse contexto de filmagens, o chamado volume também se transformava em uma espécie de espaço de ensaio de teatro. Mais do que captar suas expressões, Favreau também aproveitou o ambiente para ampliar a comédia no remake. Com as duplas Seth Rogen (Pumba) e Billy Eichner (Timão) e Keegan-Michael Key (Kamari) e Eric André (Azizi), ele fazia sessões de improviso e gravava suas vozes, garantindo dublagens mais naturais.

"Se você fez seu trabalho bem feito, você esquece o que está olhando e foca na história", falou ao Omelete o supervisor de efeitos visuais Robert Legato no tapete vermelho da première mundial, em Los Angeles. Quer você ache necessário ou não o lançamento da nova versão, fato é que o trabalho gráfico desenvolvido ao longo dos últimos três anos culmina em um resultado técnico realmente impressionante. Logo, não é exagero pensar que este filme tem o potencial de reformular a maneira como se produz cinema nos próximos anos.

O Rei Leão estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas.