Por que a adaptação de Ruído Branco na Netflix é um acontecimento

Créditos da imagem: Penguin Books/Divulgação

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Por que a adaptação de Ruído Branco na Netflix é um acontecimento

Noah Baumbach começa nesta semana a dirigir o filme inspirado no clássico

Marcelo Hessel
29.06.2021
16h12
Atualizada em
29.06.2021
16h25
Atualizada em 29.06.2021 às 16h25

Em meio às notícias do início das filmagens de Aquaman 2, John Wick 4 e Entre Facas e Segredos 2, terminou eclipsada uma informação interessante. O diretor Noah Baumbach também está iniciando nesta semana as filmagens de White Noise, que tem Greta Gerwig, Adam Driver e Jodie Turner-Smith no elenco. É a terceira parceria de Baumbach com a Netflix, depois de Os Meyerowitz (2017) e História de um Casamento (2019). O produtor Uri Singer marcou a data com um tuíte:

White Noise é também o primeiro roteiro adaptado de Baumbach, que em quase 30 anos de carreira foi indicado ao Oscar de roteiro original duas vezes, por A Lula e a Baleia (2005) e com História de um Casamento. Para além desse ineditismo, o que torna essa adaptação um acontecimento? Ruído Branco (como o romance é conhecido em português, disponível hoje em dia em tiragem da Cia. das Letras) é o livro mais importante de Don DeLillo e também um dos romances mais influentes da literatura dos EUA no século 20.

No Twitter circula uma piada que se conta em defesa dos adultos que ainda leem fantasias infantojuvenis, porque elas contêm amor e aventura enquanto os típicos romances para adultos gastam 300 páginas especulando se o adultério pode preencher o vazio da existência. A piada, no caso, é que a graça dos romances “adultos” é justamente essa, e Ruído Branco não difere muito da regra. Há adultério e há o vazio da existência na trama, sobre um professor de universidade do Meio-Oeste americano que leva uma vida ideal e tediosa com sua quarta esposa e seus quatro filhos, até que um acidente químico nas cercanias pode acarretar a morte de toda a população local.

Ruído Branco foi publicado em 1985, ganhou o National Book Award e transformou DeLillo - que até então só era conhecido por seus sete romances anteriores em círculos literários - numa celebridade cultural, digna do cânone ao lado de autores como Thomas Pynchon e Philip Roth. Hoje os livros de DeLillo ganham projeção (como Cosmópolis, de 2003, adaptado ao cinema em 2012) mas todos ficam à sombra agigantada de Ruído Branco, que ajudou a moldar uma certa literatura americana do Pós-Guerra com suas problemáticas sobre consumismo, o fim das ideologias e o ocaso da geração baby boomer, alienada na sua vida nos subúrbios e assombrada com a responsabilidade de herdar o legado da chamada Grande Geração, que lutou para os EUA as duas grandes guerras da primeira metade do século passado.

Filmes de sucesso como Eleição (1999) e Beleza Americana (1999) escolhem um caminho da sátira que, em boa medida, deriva do senso de humor de Ruído Branco. Hoje sente-se fortemente a influência de DeLillo também nas listas de mais vendidos do New York Times; nomes celebrados da literatura americana dos últimos 20 anos, como Jonathan Franzen, Jennifer Egan e Jeffrey Eugenides, prestam tributo diretamente ao clássico com suas histórias da América do capitalismo tardio, progressista, estudada e aborrecida. O próprio Noah Baumbach já havia tentado adaptar um romance de Franzen para a HBO, As Correções, antes de partir para White Noise.

Nesse sentido, a HBO talvez fosse um território ideal para o material, porque a essa altura do campeonato as crônicas ácidas sobre as sofrências da classe média alta no subúrbio já se transformaram em todo um gênero próprio de séries da emissora, desde os tempos de A Sete Palmos até produções recentes como Big Little Lies. Hoje, porém, por conta da virada do século, no geral, e por causa da pandemia, em específico, um filme de Ruído Branco se aproxima mais de um terror apocalíptico literal do que era em 1985, quando o acidente químico narrado no livro servia mais de metáfora do que ameaça real.

Vamos acompanhar como Baumbach lida então com a contemporaneidade no filme da Netflix. De resto, o texto de DeLillo permanece atual nos seus comentários políticos, sociais e culturais. A adaptação deve chamar muita atenção ainda - para quem conhece o romance, sua tradução para as telas equivale, na esfera da ficção científica, a ver sair do papel uma nova versão de Duna para o cinema.

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