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O ano da Netflix no Oscar? Relembre como o streaming conquistou a premiação

Entre 2015 e 2020, a empresa gastou bilhões de dólares em produções para tentar ganhar a atenção da Academia

Arthur Eloi
05.02.2020
20h00
Atualizada em
05.02.2020
17h29
Atualizada em 05.02.2020 às 17h29

O Oscar 2020 é um momento decisivo para a Netflix. Não que a empresa esteja em apuros, mas muitos de seus gastos e estratégias ao longo dos últimos anos são justificados com um objetivo em mente: validação na grande premiação. Com dois nomes entre os mais indicados - O Irlandês e História de um Casamento - há grandes chances desse ser o ano em que a plataforma será enfim reconhecida pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas com uma vitória em Melhor Filme. Isso não significa que a estrada até aqui foi fácil, ou sem muitas intrigas.

Em 2015 o streaming já era grande quando se tratava de televisão, com produções renomadas como House of Cards, Orange is the New Black, Demolidor, BoJack Horseman e mais. Muitos dos seus seriados tinham presença e vitórias garantidas no Emmy. E quanto a filme originais? Nada. É aí que Beasts of No Nation entra na jogada. A produção de guerra comandada por Cary Joji Fukunaga atendia todas as características de um bom filme de Oscar: drama intenso e trágico sobre temas relevantes, bem dirigido, com uma atuação de peso por Idris Elba e recepção calorosa no circuito de festivais. Foi o suficiente para fazer a companhia investir US$12 milhões - dobro do orçamento do longa - para adquirir o projeto e soltá-lo como o primeiro Filme Original Netflix.

Documentários como The Square (2013) e Virunga (2014) já tinham garantido as primeiras indicações da Netflix ao grande prêmio do cinema, mas apenas nas categorias específicas. Para justificar o investimento a empresa mirava nas principais, como Melhor Roteiro, Melhor Direção ou, claro, Melhor Filme. Assim Beasts of No Nation ganhou uma enorme campanha de “For Your Consideration”, para despertar o interesse dos votantes da Academia em meio a tantos concorrentes. Isso significa enviar DVDs com o filme, promover festas e eventos, e estampar toda a cidade de Los Angeles (o coração da indústria cinematográfica) com outdoors. A técnica era garantida pois o mesmo nível de gasto chamativo era (e ainda é) usado para divulgar suas séries durante a temporada do Emmy - em um ponto, por exemplo, chegou até a enviar todos os 26 seriados e telefilmes em mídia física para os membros do júri, sendo que cada pacote pesava 9 kg, em ação com custo estipulado de US$5 milhões.

A Netflix tinha um desafio adicional: para se qualificar ao Oscar, os filmes precisam ser exibidos no cinema, em uma quantidade mínima de salas em vários estados dos EUA, e antes de qualquer outro meio, como a TV ou internet. A regra é justamente para desencorajar que telefilmes sejam inscritos no prêmio, já que produções do tipo geralmente são avaliadas pelo Emmy em categorias próprias. A companhia novamente abriu o bolso, fechou parceria com distribuidoras e salas para conseguir atingir os requerimentos mínimos. Querendo se enturmar, a Netflix semeou discórdia na indústria.

Redes de cinema, que normalmente exigem exclusividade de no mínimo 90 dias, se recusaram a passar o longa por saber que a estreia digital seria simultânea. Sindicatos de atuação e produção precisaram rever suas cotas salariais, já que fazer um longa televisivo não custa o mesmo que um exibido nas telonas. Membros votantes da premiação, por sua vez, questionaram se Beasts of No Nation de fato podia ser considerado um filme de cinema. “A Academia está em dúvida há mais de 40 anos sobre quais tipos de entretenimento podem ser definidos como interessantes ao Oscar”, diz um artigo do Hollywood Reporter de 2015. “E isso só se complica quando a separação entre filmes exibidos no cinema, telefilmes e produções distribuídas na internet anda ficando mais disforme.

Curiosamente todo esse auê não vingou para Beasts of No Nation, que totalizou meros US$90 milhões de bilheteria em 31 salas dos Estados Unidos. Além disso, o filme não foi indicado a nada - nem mesmo categorias técnicas. “Havia algumas coisas contra nós”, comentou o diretor Cary Fukunaga no podcast Here’s The Thing, em 2016 [via IndieWire]. “Por exemplo não ter o apoio de um grande estúdio e seus votos garantidos. A Netflix lançou o filme, e as pessoas a percebem apenas como um player digital. Pensaram que era um filme televisivo. Sei que muitos só descobriram o longa após o fim das votações, e mesmo assim boa parte dos votantes sequer assistiu.

Insistência Bilionária

Beasts of No Nation poderia facilmente ser o fim dessa investida no Oscar, e a Netflix voltaria confortavelmente a priorizar o desempenho de suas séries no Emmy. A empresa viu o caso com outros olhos: ao invés de fracasso, uma oportunidade para melhorar (ainda que uma bem cara). Estabelecida no mundo todo, com fluxo de dinheiro garantido pelos milhares de assinantes, a plataforma atraiu cineastas talentosos de todo tipo - muitos que não conseguiam financiamento decente em grandes estúdios - e interessou a indústria pelos bolsos profundos e público certeiro. Essa segurança financeira e de audiência permitiu que arriscasse quantas vezes fossem necessárias para despertar a curiosidade da premiação. Entre 2016 e 2019, produziu, adquiriu e distribuiu mais de 120 dramas e suspenses em diversos idiomas - sem sequer contar as várias comédias. Só em 2018, por exemplo, o streaming planejou 700 produções originais entre filmes, séries e documentários, um investimento de US$13 bilhões.

Muitas dessas produções foram recebidas com pouco alarde e caíram no esquecimento, mas a variedade e quantidade garantiu que a companhia sempre tivesse algo para promover. Enquanto a leva de 2016 passou despercebida, o ano seguinte foi mais proveitoso com campanhas para Okja, de Bong Joon Ho (Parasita); The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach (História de um Casamento); e Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi. Do trio apenas o último teve alguma chance, com indicações em Melhor Canção Original, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Mary J. Blige. Já foi o suficiente para provar que, com bastante dinheiro e um pouco de insistência, era possível chamar a atenção da Academia.

A leva de 2018 foi a que firmou que a plataforma tem, sim, bastante potencial de Oscar. Naquela temporada de premiações a Netflix promoveu 18 produções originais. Duas caíram nas graças dos votantes: Roma, de Alfonso Cuarón; e A Balada de Buster Scruggs, dos Irmãos Cohen. De 2014 até aquele ponto a empresa tinha um total de 14 indicações ao Oscar; com apenas essas duas produções conseguiu 15 indicações em uma única edição, incluindo a tão sonhada categoria de Melhor Filme. Promover o drama preto-e-branco de Cuarón não saiu barato, algo entre US$40 milhões e US$60 milhões. Mesmo assim Roma perdeu para Green Book - O Guia, mas se consagrou em Melhor Fotografia, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor.

Em 2020 esse número foi superado mais uma vez. Só nesta edição a plataforma tem 24 indicações entre O Irlandês, História de um Casamento e Dois Papas. Os dois primeiros, inclusive, disputam entre si em Melhor Filme - e ambos têm altas chance de conseguir o prêmio. Considerando que, apenas alguns anos antes, a Academia sequer considerava os feitos da companhia como cinema, é um avanço de enorme significado.

A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira a cobertura completa do Omelete no site e as redes sociais.