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Por que o cinema precisa de filmes infantis

Robert Rodriguez - de Pequenos Espiões, Sharkboy & Lavagirl e Pequenos Grandes Heróis - fala ao Omelete sobre criar cinéfilos desde cedo

Arthur Eloi
02.01.2021
14h00

2020 foi um ano bastante estranho, ao ponto que muitas bizarrices já deixaram de surpreender. E uma delas com certeza foi a volta inusitada do Sharkboy e Lavagirl, que deram as caras em Pequenos Grandes Heróis, o novo filme de Robert Rodriguez que chegou ao catálogo da Netflix no último Natal.

Se você tiver algo na casa dos 20 anos de idade, com certeza já ouviu os nomes Sharkboy e Lavagirl, como um filme bobinho da infância. Agora, se você for um pouco mais velho, ver gente com memória afetiva de um filme tão estranho deve te deixar confuso. Ainda mais considerando que, lá em 2005, As Aventuras de Sharkboy & Lavagirl foi um fracasso de crítica e bilheteria.

Mas por que é que, 15 anos depois, alguém se importaria com Sharkboy, Lavagirl ou filmes infantis? A resposta é Robert Rodriguez.

Quem é Robert Rodriguez?

O diretor norte-americano tem uma das carreiras mais interessantes do cinema, já que conquistou seu espaço através de muita insistência, estilo e filmes de baixo orçamento. Lá nos anos 90 ele se tornou um queridinho cult com os dois primeiros filmes da Trilogia Mariachi, que são O Mariachi (1992), e A Balada do Pistoleiro (1995). Além desses filmes terem lançado ícones do cinema como Antonio Banderas e Salma Hayek, eles têm algo em comum: são verdadeiros blockbusters de baixo orçamento. As produções custaram menos de 7 milhões de dólares cada, o que é praticamente troco de pão em Hollywood.

Após o sucesso comercial e de crítica desses filmes, Rodriguez se aproximou de Quentin Tarantino, parceria que lhe rendeu prestígio entre os cinéfilos e também originou o clássico Um Drink no Inferno (1996). Com a carreira em ascensão, muitos diretores tomariam caminhos mais seguros, com filmes cada vez mais ambiciosos e complexos. Já Robert Rodriguez quis buscar públicos novos - literalmente.

O diretor começou os anos 2000 numa virada brusca. Diferente dos seus violentos e intensos filmes para adultos, em 2001 ele começou uma franquia de ação para crianças, com Pequenos Espiões.

Para muitos, ver um diretor de peso fazendo filmes pra crianças pode parecer desespero, mas o caso de Robert Rodriguez não poderia ser mais diferente. A produção foi uma de suas mais caras, com orçamento em US$ 35 milhões. E cada centavo valeu a pena, já que arrecadou US$ 147 milhões na bilheteria mundial, e lançou uma franquia acompanhando os agentes mirins Carmen (Alexa Vega) e Juni Cortez (Daryl Sabara).

Hoje em dia há quem pinte Pequenos Espiões como um filme bobinho, ou que talvez não fique à altura de outros clássicos infantis de décadas anteriores, mas é preciso reforçar: além do sucesso financeiro, a crítica da época também se apaixonou pelo filme. Mesmo Roger Ebert, um dos mais prestigiados críticos do cinema, rasgou elogios ao primeiro Pequenos Espiões. Em sua crítica, publicada em 2001, ele afirma: “Pequenos Espiões é infinitamente imaginativo, de alto astral, e tão extravagante nas suas influências e diálogos carismáticos, que quanto mais você ama filmes, mais você vai amar este”. De um máximo de quatro estrelas, Ebert deu três estrelas e meia para o filme.

Mas por que falar de Pequenos Espiões? Não só foi o primeiro contato de muitas crianças com os trabalhos de Robert Rodriguez, como também deixa uma lição importante: bons filmes infantis podem também ser bons filmes para todos.

Mesmo nos filmes mais duvidosos da franquia, como Pequenos Espiões 3-D (2003), é visível o esforço do diretor em criar entretenimento puro. Isso significa explosão de cores, bom humor e também o uso de 3D, que tinha ares futuristas e fantasiosos no começo dos anos 2000.

Fracasso cult

Sharkboy e Lavagirl surge nesse contexto, de brincar com imaginação e tecnologia, mas é um filme muito mais desconjuntado e bizarro. Isso ficou bem claro na péssima recepção crítica e também de bilheteria, que juntou US$ 71 milhões no mundo todo.

Vale retomar a questão no começo: por que agora é a hora de retomar personagens de 15 anos atrás como Sharkboy e Lavagirl? E o que motiva um cineasta com estilo tão marcante a fazer filmes para crianças? No OmeleTV no topo da página, Robert Rodriguez discute com o Omelete sobre o tema, Pequenos Grandes Heróis e sua dualidade no cinema.

Se existe uma coisa que Robert Rodriguez entende é que são os nossos primeiros contatos com o cinema que ajudam a determinar nossas paixões. É fácil de observar isso nas várias pessoas que hoje, aos 40 anos ou mais, compartilham com seus parceiros e descendentes um carinho por filmes que começou lá atrás com Os Caça-Fantasmas (1984), Goonies (1985), e muitos outros.

Por mais que Pequenos Espiões, Sharkboy & Lavagirl, e até mesmo Pequenos Grandes Heróis não tenham o status de clássicos, algo é certo: muitos cinéfilos de hoje cresceram com esses títulos, e muitos dos de amanhã provavelmente estão se divertindo com filmes e séries do tipo. E é bom que existam cineastas como Robert Rodriguez para garantir que as próximas gerações estejam bem servidas.

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