Kiernan Shipka em O Mundo Sombrio de Sabrina

Créditos da imagem: O Mundo Sombrio de Sabrina/Netflix/Divulgação

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Artigo

O Mundo Sombrio de Sabrina | O que os satanistas acham da série

Church of Satan, organização oficial por trás da religião, não tem problema com o programa desde que entendam que é só ficção

Arthur Eloi
24.01.2020
15h25

Ao longo de várias temporadas, O Mundo Sombrio de Sabrina divertiu com uma típica história de amadurecimento ao mostrar o cotidiano de uma adolescente (Kiernan Shipka), dividida entre romances, estudo e família… com o diferencial de que ela e seus familiares são bruxas satanistas. A série já mostrou rituais, citou dogmas e a hierarquia da religião, mas quanto disso é parecido com o satanismo real? Isso irrita os praticantes? A resposta curta para ambas as perguntas é “não muito”, mas é pouco mais complexo.

Ainda que seja vilanizado com cultos secretos e robes pretos há décadas, o satanismo é uma religião autêntica e legalmente reconhecida, representada pela Church of Satan. A organização foi criada em 1966 por Anton LaVey, que em 1969 escreveu o documento definitivo sobre os fundamentos do movimento: A Bíblia Satânica. Com poucas revisões ao longo dos anos, é curioso que o livro já servia para desmistificar a visão pública antes mesmo dela ganhar força. Para LaVey e a Church of Satan, que se consideram iconoclastas, não há nada além da existência na Terra - portanto, o melhor que se pode fazer é se dedicar a si próprio e seus objetivos. O mais místico que chega é quando lida com rituais, mas até esses têm a finalidade de automelhoria e conquista de objetivos (e, vale ressaltar, que LaVey proíbe sacrifícios de qualquer tipo e atos sem consentimento nos mandamentos satânicos).

O autor era uma personalidade bastante midiática, sempre aparecendo em programas de TV para divulgar suas ideias e debater crenças. Pela personalidade excêntrica de LaVey e os ideais iconoclastas/antiteísta, a Church of Satan ganhou muita visibilidade, aliada com um maior interesse em misticismo e ocultismo do fim dos anos 1960. Isso tornou a instituição alvo fácil para paródias, e também bode expiatório para ansiedades da época, com diversos rumores e escândalos envolvendo rituais, sequestro de crianças e abuso sexual. Isso, combinado com os assassinatos do culto liderado por Charles Manson em 1969 e mais uma série de tragédias ligadas ao ocultismo, despertou uma histeria coletiva nos EUA chamada de "Satanic Panic", muito forte entre 1980 e 1990.

Sabrina não é um problema

É durante esse período que muitos dos clichês satânicos surgiram no entretenimento, algo que a instituição luta contra até os dias de hoje. Sabrina bebe diretamente desses clichês e constrói sua Igreja da Noite em cima dessa percepção cultista exagerada, com rituais cheios de sacrifícios, magia negra, a existência do inferno e a figura do Diabo. A série, em momento algum, se propõe a pintar um retrato fiel da religião real - e é isso que faz com que a Church of Satan não se incomode.

Em um artigo de 2018, o sumo sacerdote Peter H. Gilmore categorizou o programa como inofensivo, dizendo que “mais se assemelha com uma versão sombria de Harry Potter” - ao ponto que membros da organização estavam assistindo e gostando. “Nossos integrantes, como muitos são fãs de horror, estão assistindo. Alguns aproveitam, outros vêem que não é para eles, conforme esperado. Não somos um coletivo, mas sim um grupo variado de indivíduos, então cada um tem o seu gosto!”, afirmou. A fala faz parte de um texto que critica outras obras modernas que tentam se assemelhar à organização, como American Horror Story, que colocou uma versão de Anton LaVey durante Apocalypse, a oitava temporada.

Como em muitas questões, a instituição dá bastante espaço para o bom senso do público. “Os diálogos estabelecem que nada disso é para ser levado a sério, são exageros com o propósito de criar programas que entretenham [...] Enquanto o público-alvo de AHS e Sabrina provavelmente não confundirá essas paródias de satanismo com nossa religião iconoclasta legalmente reconhecida, não ficaria surpreso se espectadores menos sofisticados achassem que são representações precisas e sentissem a necessidade de agir com hostilidade contra os verdadeiros satanistas que estão ‘escondidos’ na sociedade.

A Church of Satan voltou a defender Sabrina em outra ocasião ainda em 2018, quando o The Satanic Temple - um movimento político não relacionado - tentou processar a série, alegando terem copiado a estátua de Baphomet deles. A Netflix fechou um acordo com a TST, e o processo não deu em nada. Dois anos para cá, a instituição oficial apenas citou vez ou outra o seriado no Twitter, onde são bastante ativos. Os comentários segue o mesmo tom do pronunciamento: alguns membros gostaram, outros não, e não é um retrato fiel da religião. O feed deles tem discussões sérias do tipo, mas também notícias populares comentadas, receitas de doces e fotos de gato, mostrando que, mesmo após anos tentando mudar a percepção pública, a Church of Satan ainda sabe quando não se levar a sério.

As três temporadas de O Mundo Sombrio de Sabrina estão disponíveis no catálogo da Netflix.