I’m Not Okay With This e todas as suas referências

Netflix

Artigo

I’m Not Okay With This e todas as suas referências

De Carrie a Clube dos Cinco: uma olhada mais atenta revela que a nova queridinha da Netflix foi atrás das melhores referências do universo adolescente e sobrenatural.

Henrique Haddefinir
29.02.2020
12h46

I’m Not Okay With This não estreou há tanto tempo assim, mas com seus sete curtos episódios já causou uma impressão muito positiva na crítica por conta de sua história esperta, equilibrada e cheia de boas referências. A começar pelo nome de Jonathan Entwistle, um dos criadores, que situou a série no mesmo universo de sua outra produção, The End of the F****ing World. Ambas discorrem sobre o mundo adolescente com uma dose cavalar de sarcasmo, mas também com um pouco de melancolia e uma inesperada doçura.

O charme da série está, em grande parte, no uso muito saudável dessas referências, que não travam uma batalha com o material original, preferindo homenageá-lo com pequenos detalhes cheios de reverência. Para que nenhuma delas seja perdida, preparamos uma lista com tudo que I’m Not Okay With This tem para te oferecer (e que você não deveria deixar passar).

Os anos 80

Talvez a referência que mais envolva I’m Not Okay With This de sua própria identidade também seja aquela que mais vaza de praticamente tudo que a série faz. Não há uma informação exata do tempo em que se passa a história, mas ela é absolutamente tomada dos mesmos códigos visuais que compõem produções especificamente situadas nos anos 80, como Stranger Things. Essa pequena ambiguidade na construção artística da série é a mesma que conduz Sex Education, por exemplo, com a diferença de que na produção inglesa podemos ver elementos modernos com mais frequência. Tudo isso é muito calculado para criar uma ambientação que consiga ser muito referencial, mas sem perder-se de si mesma. Ser homenagem e ao mesmo tempo soar própria é uma missão para a série e até aqui ela parece ter alcançado seu objetivo.

Os anos 80 também aparecem em detalhes narrativos que podem parecer mínimos, mas que mantém esse ciclo de referências. Um deles é o diário de Syd, onde ela escreve sobre seus segredos e também sobre sua peculiar e sarcástica forma de ver o mundo. O detalhe remete ao clássico Heathers (Atração Mortal, 1988), em que a personagem Veronica Sawyer convive com três patricinhas insuportáveis que ela, secretamente, deseja matar. O filme tem uma energia sombria que está sempre atrelado a um senso de humor absurdo e isso é completamente relacionável com I’m Not Okay With This. Além, é claro, de ter sido estrelado por ninguém menos que Winona Ryder, que hoje em dia é a estrela de Stranger Things, série que compartilha os mesmos produtores que I’m Not Okay. Tudo cíclico.

Stephen King e Carrie

A outra grande ponta da identidade de I’m Not Okay With This está escorada na literatura de Stephen King. Contudo, apesar de Carrie ser a grande homenagem feita nos episódios, quando falamos da era 80 de King estamos falando também de um tipo de narrativa e de um tipo de personagem que se tornou muito característico da época: adolescentes desajustados, lutando contra valentões, lidando com novas emoções e – em alguns casos – com elementos sobrenaturais. O curioso é que esse elemento pode ser visto em It: A Coisa e em Conta Comigo, mas não exatamente em Carrie, onde o espírito cruel da adolescência está vivo, mas é visto por uma ótica menos coletiva, se focando mais em uma protagonista só. Sophia Lillis e Wyatt Oleff, astros de I’m Not Okay, inclusive, fizeram o remake de It nos cinemas.

Carrie foi o primeiro livro de Stephen King, lançado em 1974. Percebam como não estamos falando  dos anos 80, mas ainda assim é como se a história da menina se correlacionasse diretamente com essa fase do autor. Carrie começa a história tendo sua primeira menstruação, que ela não sabe o que é por causa da realidade de opressão religiosa que vive todos os dias em casa. O sangue aqui é um elemento muito importante e vai persegui-la por toda a trama, até o derradeiro baile. Quando a personagem sofre essa ruptura sua telecinese – que sempre esteve ali – se acentua. Carrie só quer um lugar no mundo, uma vida normal, mas o julgo que sofre do ambiente tóxico e abusivo do colegial acaba provocando uma tragédia sem precedentes.

Syd e Carrie carregam a mesma habilidade de mover objetos com  a mente e também carregam como vítimas a mesma crueldade juvenil que exala dos corredores das escolas americanas. As duas reagem à humilhação com vingança e é o sangue - esse elemento marcante no livro de King - que também as torna parte de um mesmo núcleo criativo. Baile, morte, caos e as duas, cada uma em sua época, correm pela cidade com hemoglobina alheia escorrendo do corpo. A proposta de I’m Not Okay With This, entretanto, afasta Syd da oscilação entre algoz e vítima na qual King coloca Carrie, oferecendo à personagem uma possibilidade de futuro. Aqui está nosso maior ganho e o que torna essa ligação entre as obras tão especial.

John Hughes

As sessões de cinema nas tardes da Rede Globo marcaram uma geração inteira. Entre aqueles que chamamos de “clássicos da sessão da tarde” estão muitos filmes que até hoje nos fazem suspirar e parar em frente ao sofá não importando a quantidade de vezes em que já os tenhamos visto. John Hughes, um nova-iorquino que marcou seu nome na criação e direção de filmes com temática adolescente, foi um dos nomes que apareceram nessas sessões vespertinas muitas vezes, com títulos como Gatinhas e Gatões (1984), Clube dos 5 (1985), A Garota de Rosa Shocking (1986), Curtindo a Vida Adoidado (1986), entre outros.

I’m Not Okay With This não se privou de afetar-se por grande parte do universo de Hughes. A estética oitentista, marcante e exagerada, aparece na maneira como Stan (Wyatt Oleff) se veste, numa ligação direta com Duckie (Jon Cryer), de A Garota de Rosa Shocking, com seus ternos coloridos e óculos escuros. Mas, não se pode negar uma semelhança entre Stan e outro personagem de Hughes, vivido por Anthony Michael Hall em Gatinhas e Gatões. Há até mesmo um episódio inteiro que remete ao filme Clube dos Cinco, quando os personagens são obrigados a cumprir uma detenção na escola vazia e as relações entre eles são afetadas por essa convivência forçada. Várias outras séries teen também já repetiram a fórmula do “episódio da detenção”, o que nos leva ao próximo tópico.

Séries Teen

Durante o processo de criação da série, o criador Jonathan Entwistle recomendou aos atores não só que assistissem aos filmes de John Hughes, mas que também vissem exemplos de séries adolescentes que invocassem o espírito bucólico que ele queria transmitir, com as cidades pequenas dos EUA e suas culturas conservadoras na moral e competitivas na rotina. Um desses exemplos foi Dawson’s Creek, de Kevin Williamson, que ficou no ar entre 1998 e 2003; e lançou para o mundo as carreiras de James Van Der Beek, Michelle Williams, Katie Holmes e Joshua Jackson. A série foi reconhecida como uma das primeiras produções adolescentes a não privilegiar o drama gratuito e exagerado do gênero, preferindo a força do texto e a sensibilidade da linguagem.

Dawson’s Creek contava histórias de amizade, mas a latência amorosa não correspondida também estava entre as pautas da série. De certa forma, a relação entre Syd e o vizinho Stan nos faz lembrar da amizade entre Dawson e Joey, ao mesmo tempo em que a paixão de Syd por Dina, sua melhor amiga, também nos remete ao que Joey sente por Dawson secretamente, lá nos primeiros episódios. Vale ressaltar, ainda, que Dawson’s Creek foi uma das produções que repetiu o “episódio da detenção”, no primeiro ano, com direito a armação para cima do inspetor, traições reveladas e uma personagem malvada que incitava as tensões e que acabou se tornando regular mais adiante. E por ser uma série que usava o cinema como adorno referencial, o próprio texto de Dawson’s Creek reconhecia suas ligações com a obra de Hughes.

Não podemos esquecer, também, que o elemento sobrenatural em I’m Not Okay With This esbarra numa outra vertente que sai do campo do sobrenatural e entra no campo das habilidades heroicas. A série consegue oferecer ao espectador as duas possibilidades, com Syd lidando com a situação como se ela fosse uma manifestação sobrenatural herdada de forma maldita e também como se isso a transformasse numa pessoa com super-poderes. A narrativa, então, vai buscar os elementos do “super-heroi adolescente”, como nas sequências em que poderes são testados, em que o melhor amigo descobre o segredo e em que alguém que  parece ter as respostas fica à espreita até o minuto final. Smallville e Buffy são só alguns exemplos de séries em que isso acontece. Provavelmente na segunda temporada o mundo de Syd terá mais a ver com usar seus poderes do que omitir-se deles.

Enfim, com uma disposição de elementos referenciais admiráveis – além de saber usá-los – I’m Not Okay With This oferece ao espectador uma narrativa confortável e também substancial. Qualquer um que se disponha a seguir essa trilha de correlações vai se alimentar do que de melhor existe na cultura pop da nossa história.