Sophia Lillis em I Am Not Okay With This, da Netflix

Créditos da imagem: I Am Not Okay with This/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

I Am Not Okay With This - 1ª temporada

Série da Netflix homenageia Carrie, A Estranha numa temporada confortável e discreta

Henrique Haddefinir
26.02.2020
18h37
Atualizada em
26.02.2020
19h17
Atualizada em 26.02.2020 às 19h17

É fato que a nova série da Netflix, I’m Not Okay With This, foi adaptada da HQ homônima escrita por Charles Forsman. Mas, depois de alguns minutos assistindo fica evidente o quanto a mão de seu roteirista principal, Jonathan Entwistle pesa no projeto. Responsável por outro título da plataforma (The End of the F****ing World), Jonathan deixa impressa na nova série uma estrutura direta, às vezes fria e que privilegia o que a juventude interiorana dos EUA tem de mais melancólico e desajustado. I’m Not Okay With This não é uma série “fofinha”, mas também não é um exemplo cabal de ousadia e transgressão.

O mais seguro seria dizer que é uma série confortável. Seus 7 episódios de apenas 20 minutos compilam um horizonte pequeno de acontecimentos e deixam a produção com uma cara de que ainda haveria mais a dizer. Esse pode ser um ponto favorável, no fim das contas. A série foi produzida com referências muito claras do universo do High School cinematográfico e seriado. Portanto, as possibilidades que vislumbra são muitas. Mesmo assim, os produtores pisaram no freio e foram privilegiando a construção de sua protagonista do ponto de vista humano, mais que do ponto de vista sobrenatural.

Sim, porque há um elemento sobrenatural em torno da narrativa. A primeira grande referência que vaza da série é sua ligação com Carrie, de Stephen King. No livro, Carrie é uma menina sufocada por questões religiosas e familiares muito intensas; e depois de menstruar pela primeira vez começa a perceber seu poder de telecinese. No cinema, a história de King ganhou seu lugar de ícone cultural ao espalhar para o mundo a imagem da menina em seu vestido de baile, coberta de sangue de porco, depois de massacrar os colegas ao ser humilhada. É exatamente essa imagem que I’m Not Okay With This acessa do começo ao fim da temporada.

A jovem Sydney Novak (Sophia Lillis, de It: A Coisa) é descrita como a clássica desajustada adolescente do cinema e da televisão atuais. Ela é pobre, vive em conflito com a mãe, o pai se matou, ela se acha esquisita e ainda por cima sua melhor amiga Dina (Sofia Bryant) arrumou um namorado valentão e a esqueceu. Discretamente, Syd vai percebendo que ao passo em que sua vida vai fugindo do controle, acontecimentos estranhos a perseguem, como coisas se movendo sozinhas. A premissa de Carrie está ali incutida nas bases narrativas, mas Syd tem sua própria vibe e não é uma menina acuada e despreparada para o mundo.

Enquanto os poderes da garota vão sendo desenvolvidos muito lentamente, o roteiro vai estreitando a relação dela com seu amigo Stan (Wyatt Oleff, também de It). A dupla configura um dos atrativos para o público da Netflix, sempre procurando pelo próximo Stranger Things para cultuar. Lillis e Oleff não estiveram em Stranger Things, mas a franquia It veio numa esteira tão parecida que as coisas hoje em dia são facilmente confundidas. De todo modo, tanto em o seriado quanto em It, a literatura de Stephen King ecoa de uma maneira muito forte, o que se repete em I’m Not Okay With This.

Tudo acontece rápido, mas a temporada ainda arranja tempo de desenvolver seus adolescentes sob outras referências, como no bom e velho truque narrativo da detenção, tornado famoso pelo filme O Clube dos Cinco. Ainda que seja tudo muito direto, sem nenhuma intenção de disfarce, Jonathan Entwistle transmite mais da ideia de homenagem do que de cópia oportunista. Quando as coisas começam a parecer muito semelhantes, algo surge para lembrar que a série tem objetivos originais. Isso se vê em pequenos detalhes, como na sexualidade de Syd, na postura de Dina ou nos eventos do último episódio, que elevam a homenagem ao máximo, mas sem perder de vista um certo humor ao fazê-lo. Syd chega ao mesmo ponto em que Carrie, mas ela pode ter a ajuda que a menina de Stephen King não teve.

Bem cuidada, I’m Not Okay With This talvez pudesse ter se permitido alguns tons a mais, alguns episódios a mais. Ao mesmo tempo em que o exagero pode afugentar, a discrição pode ser confundida com apatia. Contudo, é preciso ressaltar que está em Syd a força e a relevância da produção. É deleitante saber que jovens do mundo todo poderão acompanhar uma heroína como ela nascer.

Nota do Crítico
Bom