Jesse Plemons e Jessie Buckley em Estou Pensando em Acabar com Tudo

Créditos da imagem: Mary Cybulski/NETFLIX

Netflix

Artigo

Ficou confuso? Explicamos o filme Estou Pensando em Acabar com Tudo

Apesar da sua premissa bastante mundana, longa deixou muitas perguntas no ar com sua narrativa, no mínimo, inquietante

Mariana Canhisares
10.09.2020
17h05
Atualizada em
10.09.2020
17h23
Atualizada em 10.09.2020 às 17h23

[Atenção: como o próprio título sugere, o artigo a seguir contém spoilers de Estou Pensando em Acabar com Tudo. Logo, se você ainda não viu o filme, guarde esse texto para mais tarde]

“Desconfortável” é uma boa palavra para definir a experiência de assistir Estou Pensando em Acabar com Tudo, novo filme do diretor e roteirista Charlie Kaufman na Netflix. Desde o minuto que a protagonista coloca os pés dentro do carro do seu namorado Jake, pronta para conhecer os pais dele que moram no interior, fica evidente que há algo fora do lugar.

Os pensamentos dela, que não consegue se desvencilhar da ideia de pôr um ponto final na relação, parecem ser lidos pelo companheiro, que tenta entretê-la a todo custo com suas incontáveis referências - “acho que assisto a filmes demais”, ele diz em certo ponto. No entanto, a inquietude desta obra não vem somente da aflição de vê-lo tentando reverter o inevitável, ou da recorrência da ideia do término. São as mudanças drásticas, porém sutis de rumo que os diálogos tomam que não te deixam relaxar no sofá. Ela se chama Lucy ou Louise? Ou seria Ames? Ela é pintora, física ou poeta? São muitas as alternativas em toda a trama, e nada aponta para uma resposta definitiva.

Com uma narrativa tão labiríntica, que em momento algum se interessa em pegar o espectador pela mão e explicar suas viradas surpreendentes, não é de se estranhar que muitos terminem o filme se questionando sobre o que assistiram. Logo, se este foi o seu caso, bem-vindo ao clube! Mas fica tranquilo. Os trabalhos de Kaufman costumam tomar rumos meio angustiantes mesmo, e o cineasta não é lá de dar muitos esclarecimentos sobre nada. Na realidade, como ele mesmo disse à Indie Wire, ele não tem expectativas sobre o que vão pensar. "Apoio a interpretação de qualquer um".

Portanto, se você veio atrás do famigerado “significado real” do filme, talvez você não o encontre aqui. Este artigo se trata de uma interpretação. Baseada parcialmente em falas de Kaufman, sim, mas ainda assim uma interpretação.


JAKE É O ZELADOR E A NAMORADA É… OS DOIS?

Estou Pensando em Acabar com Tudo é uma adaptação de um livro homônimo do autor Iain Reid e, embora Charlie Kaufman não seja tímido ao fazer mudanças, há no original ao menos uma pista sobre a conturbada relação entre Jake e a namorada. No romance, descobre-se ao final que os dois são a mesma pessoa. Ou, melhor, que ela é uma projeção do solitário zelador da escola, que por sua vez é o Jake. Esse nó sobre quem é quem talvez seja o mais simples de desatar, já que fica implícito em vários momentos no filme.

Logo no começo, quando a jovem espera sua carona, intercalam-se imagens do zelador e de Jake a observando na calçada, uma primeira pista sobre a identidade do misterioso senhor. Mais adiante, Jake aparece conversando com a atriz do longa que o zelador assistiu na hora do almoço, sugerindo mais uma vez uma conexão entre os dois. Há, ainda, o momento do beijo, interrompido pela bisbilhotagem do velho - se ele sequer estava ali, como poderia ter atrapalhado? Estes são apenas três trechos, mas certamente você consegue identificar outros paralelos entre ambos os personagens.

Fato é que, embora exista um contraste entre as duas figuras - um ainda tenta não ser só, enquanto o outro está ciente da sua solidão, racional ou irracionalmente -, os dois estão encarando seus fracassos. O zelador romantiza uma vida não vivida, e talvez não pela primeira vez, dada a quantidade de milkshakes na lixeira da escola. Já Jake é assombrado pelo seu fracasso intelectual. Apesar de todos os livros que leu e todas as referências que tem, o ponto alto da sua existência, aquele que sua mãe faz questão de se gabar, é apenas um troféu de participação em alguma atividade escolar. Não obstante, o jovem está diante de um relacionamento fadado a acabar mesmo dentro da sua própria fantasia. Quer dizer, nem em sonho é concebível que uma mulher queira ficar com ele.

As experiências dos dois, claro, se misturam e, pela própria concepção de que tudo está na cabeça de um só indivíduo, ganham um quê de irracional. Ou, talvez, você prefira a palavra lúdico. Essa interpretação justificaria a inconsistência da identidade da namorada - afinal, no sonho, ora você é um, ora você é outro -, assim como o inesperado número musical, a performance dos dançarinos e, por que não, até o porco animado. É nessas irracionalidades que ele organiza sentimentos e pensamentos e, se você parar para pensar, você faz o mesmo cotidianamente. Se você viu filmes demais como Jake, então, certamente uma encenação já ocupou sua mente. Às vezes, com um pézinho na realidade. Outras, tão distantes que até a maquiagem ou o filtro que você escolheu denunciam como são falsas.

Mary Cybulski/NETFLIX

O teatro e toda sua idealização, no entanto, nem sempre resistem à realidade. Ou, ainda, às ideias preconcebidas do próprio Jake/zelador. Por isso, talvez, quando a namorada e o senhor ficam frente a frente no corredor da escola, a versão da história sobre o primeiro encontro deles mude tão drasticamente. O que foi apresentado inicialmente como algo fofo e brincalhão - ele, tímido, com dificuldade para pedir o telefone dela, e ela tomando a iniciativa - vira um caso de uma vítima e seu stalker. Não fica claro se essa virada é uma manifestação meramente emocional sobre uma frustração que ele tem com ele mesmo, ou se durante sua vida foi um hábito observar e perseguir mulheres. A verdade é que uma resposta para essa dúvida não faz muita diferença. O importante é que o encanto se quebra e ele se depara novamente com seus fantasmas.


OS PAIS FANTASMAGÓRICOS

Falando em assombrações, os pais de Jake são fatores essenciais nessa equação - além de uma das grandes razões para Estou Pensando em Acabar com Tudo causar tanto estranhamento. Durante todo o período que o casal está na casa, os personagens de Toni Collette e David Thewlis mudam constantemente de aparência. Ora estão idosos, ora estão no auge da juventude, recolhendo brinquedos espalhados pela sala. Uma troca rápida, que acontece em questão de um piscar de olhos.

Mary Cybulski/NETFLIX

Para qualquer pessoa, o ato de apresentar a namorada aos pais é um passo e tanto no relacionamento. Mas, para o personagem de Jesse Plemons, que possivelmente nunca chegou neste estágio com ninguém, esse primeiro jantar é ainda mais relevante. Ele precisa ser perfeito, principalmente se seu par está convencido a deixá-lo. Logo, as mudanças de visual podem ser vistas como o jovem tentando encontrar o momento ideal para levá-la para casa. Quando seria melhor: durante a juventude, a meia-idade ou a velhice dos pais? Em que momento da suas vidas eles seriam menos inadequados?

Não se pode esquecer também que toda essa viagem para o interior é uma invenção - ou alucinação - do Jake/zelador, então ele poderia fazer seus “testes” para chegar no resultado desejado. Por isso, talvez, que vez ou outra o vemos dando uma permissão discreta para os pais dizerem ou fazerem algo, com um simples aceno de cabeça. Ele é o dono da fantasia, e eles apenas ferramentas para construí-la.

Considerando que Jake nunca chega em um cenário ideal dentro da própria mente, é claro que a relação com os pais também mostraria suas fissuras. É aí que se observa prováveis lampejos da sua vida de verdade. O diálogo durante o jantar revela que Jake foi muito solitário também em casa. Sua mãe, aparentemente carinhosa apesar do desprezo do filho, admite que parou de entendê-lo a partir da sétima série. Não conseguia acompanhar as ideias mirabolantes do pequeno Jake. Seu pai, um homem de mente bastante simplista, claramente também não o compreende. Para ele, arte abstrata é uma enganação, e Billy Crystal, um desmunhecado no filme Esqueça Paris. Falta a ele a sensibilidade para enxergar o que é importante para o filho. Não à toa, vários momentos desta reunião familiar parecem bastante incômodos. É como se o jantar fosse um passo necessário para se atingir a fórmula do romance perfeito, mas os ingredientes à disposição estivessem todos errados.


UMA FOLHA EM BRANCO

É inevitável chegar à conclusão de que a namorada, na realidade, não é a protagonista no filme. A história, no fundo, nunca foi sobre ela, mesmo que seja partir da “sua” perspectiva que se desenvolva toda a trama, ou então seja Jessie Buckley quem quebra a quarta parede em determinado ponto. Como bem resumiu Kaufman à Indie Wire, ela é um instrumento.

Mary Cybulski/NETFLIX

Entretanto, enquanto desempenha essa função de mulher dos sonhos, mas também de espelho das ambições de Jake, a namorada tem autonomia. Diferentemente dos pais, que parecem conscientes da sua inexistência, ela vive praticamente uma crise de identidade a cada nova descoberta sobre como sua personalidade, na realidade, tem a ver com seu par - ela é pintora, mas quem tem quadros guardados são ele; ela é poetisa, mas o poema que escreveu é de um livro que está no quarto dele. Ela percebe as pequenas inconsistências daquela fantasia e ela é sujeita das suas ações e dos seus pensamentos - ela quer terminar com o seu criador, não é mesmo?

Dar à namorada um papel ativo na história torna tudo mais interessante. Mais do que deixar aquela sensação de desconforto que mencionei antes, a decisão de torná-la sujeito mostra o quão profunda é a insegurança de Jake, e o quão triste e solitária é de fato a sua existência.

 

Note que, neste artigo, se discutiu apenas alguns elementos de Estou Pensando em Acabar com Tudo. A narrativa criada por Kaufman é, obviamente, mais complexa - há o turbilhão de referências, que cita nominalmente até Robert Zemeckis em determinado ponto; a relevância do Tulsey Town Ice Cream; o porão e sua porta toda arranhada. Porém, não entendê-la por completo é parte do apelo do próprio filme. Ele convida o espectador a desvendar seus símbolos e a se permitir ficar confuso. Provoca-o para vê-lo mais de uma vez e realmente pirar nas várias interpretações possíveis. Portanto, este texto é apenas um primeiro passo. Divirta-se, agora, com suas próprias viagens.

Estou Pensando em Acabar com Tudo está disponível na Netflix.