Estou Pensando em Acabar com Tudo

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Estou Pensando em Acabar com Tudo

Charlie Kaufman tateia um olhar feminino no seu mundo de vaidades e noias masculinas

Marcelo Hessel
03.09.2020
15h30
Atualizada em
09.09.2020
15h43
Atualizada em 09.09.2020 às 15h43

Antes de mais nada, a neve e os cabelos coloridos já devem acender o alerta de familiaridade para os fãs de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Roteirista do filme de Michel Gondry, Charlie Kaufman volta à direção depois de cinco anos, em Estou Pensando em Acabar com Tudo. A familiaridade se estende à trama não-linear, cheia de digressões visuais e de texto, e ao olhar melancólico sobre a finitude da vida e dos afetos, mas há uma diferença central em relação aos trabalhos famosos de Kaufman: o ponto de vista principal agora é feminino.

O filme adapta o romance de estreia do canadense Iain Reid, sobre uma jovem que depois de seis ou sete semanas de relação com Jake já cogita seriamente terminar o namoro, mas ainda assim aceita viajar no meio de uma tempestade de neve para conhecer a fazenda dos sogros. Reid organiza a premissa como um terror-de-maníaco, em que as incertezas da heroína se juntam às gravações misteriosas que ela recebe em seu celular. Kaufman mantém mas minimiza as mensagens de voz - são apenas um entre muitos ruídos que convertem o suspense em um drama tipicamente neurótico do roteirista de Adaptação.

O próprio título Estou Pensando em Acabar com Tudo oferece uma leitura dupla: está se referindo pontualmente ao namoro da protagonista (vivida por Jessie Buckley, a revelação irlandesa de Wild Rose) mas adquire também contornos de morte que têm mais a ver com as tendências melodramáticas de Kaufman (e que não deixa de se comprovar metaforicamente, nos apagamentos de personagens, de identidades, ao longo do filme). Como é praxe no cinema do autor, uma situação mundana (por mais fantástica que seja, como no caso dos filmes dele com Gondry e Spike Jonze) logo se transforma numa espiral de provações da mente que englobam as maiores questões da existência. Aqui, Kaufman acrescenta uma camada intelectualizada de hipertextos, citando de Guy Debord a John Cassavetes, a título de lastro bibliográfico.

É uma experiência certamente desconcertante para o público desavisado da Netflix, mas talvez não ofereça tanto impacto para quem já espera os métodos de digressão de Kaufman. Um diálogo oferece boas pistas: os namorados discutem no carro que humanos são os únicos animais que não podem viver no presente, pois sabem da inevitabilidade da morte, e a partir disso inventaram a esperança. Essa noção da esperança não como algo natural que herdamos mas como uma fabricação conscientizada é Kaufman puro. É um autor obcecado com engenhos e estruturas, com um desfraldamento intelectual do mundo, então para entendê-lo é importante acima de tudo entender seu arsenal de artificialidades. 

Em Estou Pensando... a perplexidade com a vida se dá não apenas no texto e na metalinguagem (o fato da namorada ser chamada de muitos nomes, por exemplo) mas principalmente no visual e na direção. É o filme mais próximo de Gondry dentre os três que Kaufman fez como diretor, porque algumas das soluções de cenografia e câmera (ângulos obtusos, senso espacial e de proporção desnorteadores, grandes-angulares, planos de casa de bonecas) também já estavam presentes em Brilho Eterno…. Se Kaufman interiorizou o estilo de Gondry, isso permitiu que seu texto, obviamente excêntrico, se convertesse em uma mise-en-scéne que renega todo o naturalismo: a câmera se move horizontalmente e verticalmente como se fosse controlada por computador (particularmente na cena do jantar e no balé no colégio), o que sempre nos tira do filme “em si”. A dinâmica que Kaufman propõe ao espectador não implica necessariamente suspensões de descrença, e sim um estado mental permanente de vigília, e nesse sentido - por ironia - Kaufman talvez seja o mais anti-Cassavetes dos cineastas de grife americanos.

Não deixa de ser evidência de uma grande posição de privilégio, convidar o público para essa dinâmica que é determinada, na prática, pelas vaidades do Autor. (O filme de estreia de Kaufman na direção não teria sido outro senão Sinédoque, Nova Iorque, sobre a obsessão de Philip Seymour Hoffman de recriar o mundo inteiro num ambiente criativo controlado.) Nisso o cinema de Kaufman é essencialmente masculino e seus personagens, extensões desse privilégio. Por pior que seja a miséria humana dos homens de Kaufman, eles nunca perdem sua posição: são intelectuais metropolitanos na maioria das vezes, à beira do reconhecimento do seu gênio ou de colher os louros por seu autoflagelo, sempre cercados de mulheres com diligente espírito maternal. 

Provoca um certo curto-circuito rever hoje filmes como Sinédoque, Nova Iorque porque, dez anos depois (um pouco mais no caso de Brilho Eterno), a condescendência de Kaufman com seus heróis trágicos edipianos fica mais visível à luz da cultura do cancelamento. O fato de Jesse Plemons interpretar em Estou Pensando... praticamente um Philip Seymour Hoffman mais jovem - nos gestos, no tipo físico, na ruivice - inevitavelmente coloca o novo filme dentro dessa evolução narrativa. Dá para estabelecer outros muitos referenciais (a ambientação na neve no Meio-Oeste desolado e o próprio tipo de Plemons lembram quadrinhos independentes de Chris Ware e Dan Clowes, autores que até fisicamente se parecem com Plemons/Hoffman), mas o jogo de namedropping fica por aqui, mesmo porque o filme em si já tem bastante disso. 

Toda essa digressão (por que não?) nos leva de volta ao ponto de partida: o filme, ineditamente, está propondo um olhar feminino do mundo; a protagonista que fala sozinha na narração em off e que quebra a quarta parede olhando para a câmera é uma mulher. Se os personagens de Kaufman são sempre assombrados com o medo do esquecimento, do apagamento, ora, isso é vivido por mulheres todos os dias - quando são forçadas a viver à sombra de seus maridos, quando a sociedade determina o fim precoce da sua juventude, quando acabam alienadas por serem multitalentosas na era dos overachievers. Todos esses dilemas são encapsulados no esquema de time-lapse de Estou Pensando em Acabar com Tudo e Jessie Buckley se sai muito bem na tour-de-force que o filme exige dela.

Ainda assim, é um olhar masculino. Para não serem apagados e esquecidos, não resta nada aos heróis de Kaufman a não ser deixar sua grande obra, seu legado, ou pelo menos uma grande lição de vida. Pela própria natureza das questões que o filme coloca, a namorada de Jake nunca tem essa alternativa diante de si; ou ela fica com Jake (e termina eclipsada) ou ela encerra o namoro (e termina apagada como uma das memórias amargas de Brilho Eterno, porque afinal a história não é sua verdadeiramente, mas de Jake). O que se coloca diante de Kaufman e de seu filme ao final, portanto, é um gigantesco paradoxo, porque em nenhum dos finais possíveis a heroína - sua imagem, sua presença - tem como vencer.

Isso acaba criando um desafio novo para Kaufman porque a autoindulgência não é uma saída possível, e embora o último ato do filme dê uma patinada nos registros é visível que algo ali está ganhando vida, no simples fato de tatear soluções que não vinham fáceis e prontas por antecipação. Uma dessas soluções (o número musical e depois o monólogo de teatro) é interessante porque Kaufman ali assume por completo a artificialidade, mas para buscar uma verdade no artifício. 

Nesse sentido, na quebra de convenções, Estou Pensando... se parece com Sob a Pele, outro filme sobre identidade e apagamento feminino nos horizontes opressivos do mundo dos homens. O filme de horror de Jonathan Glazer também era um objeto estranho de difícil catalogação, assim como este longa de Kaufman, mas ambos estão muito bem situados neste novo século porque, de alguma forma, conseguem capturar um mal-estar dos relacionamentos utilitários, dos parceiros escolhidos por sua funcionalidade, no menu infinito de afetos passageiros que se colocam hoje à nossa disposição. Que impacto essa conscientização do amor instrumentalizado tem sobre nós?

Uma última citação: se Glazer transformou o conceito do “amor líquido” de Zygmunt Bauman em uma substância viscosa de filme de horror em Sob a Pele, Charlie Kaufman submete o líquido às baixas temperaturas de seu inverno da alma, sempre o fatalista, sempre o paranoico, para quem toda escolha automaticamente interdita as demais, congeladas por toda a eternidade.

Nota do Crítico
Bom