Enola Holmes | Visitamos o set da versão teen feminista de Sherlock Holmes

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Enola Holmes | Visitamos o set da versão teen feminista de Sherlock Holmes

Com o diretor de Fleabag, filme muda os livros de Nancy Springer e tenta se conectar com uma nova audiência

Marcelo Hessel
22.09.2020
15h46
Atualizada em
22.09.2020
16h15
Atualizada em 22.09.2020 às 16h15

Millie Bobby Brown olha para a câmera para se apresentar. A quebra da quarta parede em Enola Holmes vem acompanhada de uma vontade de firmar sua imagem depois de Stranger Things, tanto na frente quanto atrás das câmeras. Além de protagonizar, a atriz de 16 anos produz o filme derivado de Sherlock Holmes - a sugestão de adaptar os livros de Nancy Springer partiu da sua irmã mais velha, a também atriz Paige Brown - e a maioria das decisões nos bastidores passa por MBB.

"Millie se encaixa tão facilmente na posição de produtora que dá até medo, para uma menina da idade dela", diz a coprodutora Ali Mendes. O Omelete visitou em 2019 o set em West Horsley, vilarejo nos arredores de Londres, onde a produção ocupou um casarão para encenar o interior da residência da família Holmes. Lá, a relações-públicas conta aos jornalistas que Millie Bobby Brown ocupa todos os espaços, conversa com todo mundo, às vezes traz café para as pessoas e brinca com o cachorro da casa, chamado Laszlo.

Com Laszlo a tiracolo, entre uma tomada e outra, Millie traz o cão para os visitantes conhecerem. Ao todos são dez semanas de filmagens, por locais variados no Sul da Inglaterra, e a atriz parece plenamente à vontade na casa de West Horsley. "O racionalismo e a loucura de Enola combinam comigo, somos similares nisso. Eu entrei na personagem já meio que sabendo que eu me identificaria com ela", diz. "E criativamente eu preciso prestar atenção em tudo o que acontece no set, vejo todas as noites os copiões e isso me atrai tanto quanto atuar. Antes eu só tinha que mergulhar na atuação."

O recurso de falar diretamente para a câmera lembra não apenas Deadpool, pelo apelo cômico, mas principalmente Fleabag. No filme, isso serve menos como comentário e mais como uma digressão para apresentar Enola e colocá-la, de fato, como a narradora da sua própria história. "Enola quer ser ouvida, do mesmo jeito que eu como uma menina em 2019 quero ter a minha voz ouvida", diz Millie. Não por acaso, o diretor de Enola Holmes, Harry Bradbeer, dirigiu também a maioria dos episódios de Fleabag. "Millie me pareceu uma pessoa capaz de ter uma relação fácil com o espectador nesse desafio de conversar com a câmera. Fleabag vai ficando mais triste e também mais engraçado à medida que os episódios passam, e em Enola Holmes acho que também temos esse alcance, esse senso de vulnerabilidade", diz Bradbeer.

Privilegiar o ponto de vista feminino é uma necessidade da própria história, que se baseia no universo de Sherlock Holmes mas o desloca no contexto da primeira geração de feministas, que lutavam pelo direito de votar em países como a Inglaterra vitoriana. Na trama, por volta de 1890, Enola decide procurar sua mãe (vivida por Helena Bonham Carter), com quem viveu trancada em casa a vida inteira, e que desapareceu da noite para o dia. Cenas de flashback mostram Enola treinando com a mãe, tendo aula de química e física; quando a heroína aplica um golpe em uma cena de ação, o flashback entra para ilustrar como Enola aprendeu a lutar. Segundo o pessoal da produção, foi escolha da própria Bonham Carter usar um espartilho mais apertado nas cenas no passado, porque ela queria que a mãe fosse, na memória de Enola, uma figura feminina empoderada e curvilínea.

"A Helena é 100% verdadeira com quem ela é, e o set fica vivo quando ela chega. É muito empolgante vê-la trabalhando! Estou aprendendo e me aproximando… Inclusive semana que vem ela vai viajar e vou ficar cuidando dos coelhos dela, eles podem morrer ou fugir", brinca Millie. "Hoje é uma época ótima para ser mulher ou uma garota, porque estamos podendo falar sobre isso, então o roteiro foi trabalhado para adicionar [o empoderamento], enquanto os livros já têm algum tempo e não necessariamente refletem o mundo para uma garota hoje."

A produtora Ali Mendes concorda: "O filme é um pouco mais ‘crescido’ em relação aos livros, porque enfoca muitas questões atuais e acaba abrindo um pouco mais esse universo, sem mudar o espírito do original. Aqui temos uma história com temas adultos, mas que pode se conectar com os públicos de todas as idades", diz. Segundo Bill Darby, supervisor de locações, a própria chegada de Enola a Londres denota esse amadurecimento. "Ela entra por uma margem da cidade por onde eram trazidos os animais de fora para o abate, e ela pode ver logo como Londres é cheia e caótica", diz Darby.

Netflix/Divulgação

Já em West Horsley o clima é de conforto - e de cores. "A ideia é que tudo seja mais colorido e diverso, e mais excêntrico que a média dos filmes de período vitoriano, que são mais monocromáticos", diz o desenhista de produção Michael Carlin. A casa é atulhada de coisas, tanto para demarcar a excentricidade quanto para sublinhar o "abandono" do lar, quando a mãe dos Holmes desaparece. Então paredes brancas foram todas cobertas de papel de parede, com motivos de pássaros e plantas, que na trama do filme, na forma como a mãe se comunica com Enola, acabam tendo uma razão de ser. O único cômodo que não foi mexido é um quarto privativo, interditado para a produção, que só o dono da casa acessa, o apresentador de TV Bamber Gascoigne, que por sua vez herdou o imóvel de uma tia que ele desconhecia ter.

"A casa só foi usada aqui algumas vezes para dramas de TV, nunca para um filme grande assim", diz Bill Darby. "De uns tempos pra cá ficou mais difícil achar casas assim, em estilo antigo, porque muitas são reformadas de um jeito contemporâneo quando são compradas", completa. Ainda assim, a fachada de Ferndell Hall, o lar da família Holmes, foi filmada em outro endereço, em Yorkshire, onde os proprietários deixaram o jardim crescer além da conta, para simular o abandono materno.

Os interiores, porém, são todos em West Horsley, e foi um prazer durante a visita ao set de Enola Holmes poder conhecer - num quintal aconchegante, em mesas de café da tarde no jardim - a coordenadora de dublês Jo McLaren, uma das responsáveis pelas coreografias das lutas de Enola. Quando ainda era dublê, McLaren, que entre seus trabalhos famosos dublou Rachel Weisz em A Múmia, fraturou a clavícula e precisou seguir na indústria como coordenadora, para garantir seu sustento de mãe solteira. Isso foi há uns seis anos, segundo ela, "e eu dei esse mergulho em um trabalho que poucas mulheres fazem e que exigem muito do ponto de vista artístico para conceber cenas de ação de uma maneira segura".

Originalmente, Enola Holmes seria mais uma sucessão de cenas de ação sem muito respiro, segundo McLaren, e as versões seguintes do roteiro moldaram mais uma jornada de personagem. Ela diz que Millie Bobby Brown passou um mês treinando luta antes das filmagens, e as técnicas de jiu-jitsu foram o foco da prática. "Inclusive as suffragettes [feministas organizadas pelo sufrágio] supostamente treinavam o jiu-jitsu que vinha do Oriente, porque elas tinham que se defender da polícia. Um dos movimentos no filme é o de saca-rolhas, e um dos desafios no filme é fazer crível que uma garota possa aplicar esses golpes de alavancar e arremessar um oponente. E também não podia ser muito moderno, mas algo que uma mãe conseguiria ensinar para sua filha", diz McLaren, cujo trabalho acontece muito em paralelo com a da equipe de figurino. "Vestimos Enola com um corsete expansível para ajudar na maleabilidade, porque a roupa vitoriana era muito restritiva. Adicionamos mais tecido no torso e nos braços, porque com qualquer arremesso a roupa já pode rasgar."

"Não é fácil achar dublês para atores novos mas, como Millie é alta, foi menos difícil. E ela aprende muito rápido. Para uma menina na idade dela, você mostra uma única vez e ela já pega", elogia Jo McLaren. O desafio principal de Enola é encarar o personagem vivido por Burn Gorman, cujo mercenário de chapéu coco tem um perfil quase de vilão de James Bond. "Ele tem um treinamento militar e só pensa em matar, seja criança ou adulto", adianta McLaren. A produtora Ali Mendes emenda: "Ver a luta climática ganhando vida foi um momento empolgante e difícil, porque foram muitos dias rodando. Como é uma cena noturna, muito contraste de luz e sombra, exigiu bastante da fotografia e dos atores. Na hora parecia muito estiloso, esperamos que funcione na tela".

Enola Holmes | Crítica    

Enola Holmes estreia nesta quarta-feira na Netflix, e nossa visita ao set continua depois com ninguém menos que Henry Cavill - que interpreta um Sherlock Holmes bem diferente do que estamos acostumados!

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