Cena de Democracia em Vertigem/Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Democracia em Vertigem

Indicado ao Oscar, documentário se contenta com a aposta na perplexidade

Marcelo Hessel
03.02.2020
21h28

Vale para Democracia em Vertigem a mesma regra que no Oscar é perceptível em tantas categorias: os filmes mais sentimentais, capazes de atingir um público mais amplo a partir de escolhas de hipérbole, simplificação e hiperdramatização, batem mais fácil entre os votantes. Nesse sentido o filme brasileiro não é muito diferente, por exemplo, de Indústria Americana, um dos seus concorrentes no páreo ao Oscar de melhor documentário.

O brasileiro tem a vantagem de soar como uma revelação a olhos estrangeiros, leigos ou deseducados, e a diretora Petra Costa, ciente disso, não se furta a assumir para si o papel de portadora das revelações. Democracia em Vertigem se sustenta todo nessa ideia de que a política na prática existe e acontece nas sombras, invisível ao mundo, e o filme se contenta em mistificar mais as coisas da vida pública, em travelings solenes de steadycam que transitam pelo plenário da Câmara e pelo Palácio da Alvorada, em planos de drone pela Esplanada dos Ministérios. As revelações, acompanhadas de um sentimento generalizado de assombro, se dão de forma panorâmica.

O processo de erosão dos três poderes no país obviamente permite as palavras mais graves; entre 2002 e 2018, período contemplado no filme, do otimismo do lulismo à incredulidade diante da eleição de Jair Bolsonaro, passando obrigatoriamente pelas Jornadas de Junho de 2013, o país assistiu atônito à perda de suas ilusões republicanas. Costa recorre a metáforas hiperbólicas, de "abalo sísmico" a "tsunami", porque a situação atual do Brasil assim permite, mas principalmente porque essas imagens exageradas, de apelo imediato, servem para dar conta de algo insondável, do qual só se identifica a magnitude.

É curioso notar que, na natureza, dos abalos sísmicos e dos tsunamis não vemos a origem, só as ondas de choque; Democracia em Vertigem é pouco mais que o registro dessas ondas, afinal as repercussões são mais espetaculosas. Ainda que acuse as razões de senso comum para os nossos problemas - a promiscuidade entre o público e o privado sempre no centro da questão - o filme reitera que "nada mais seria igual" como se essa constatação em si bastasse, enquanto investigação. É um filme cheio de gente e de comoções, mas escasso de personagens, e que quase nunca visita gabinetes de deputados ou salas de reuniões, a não ser quando é irresistível sua caricaturização, como no caso do então deputado Bolsonaro.

Em comparação, O Processo, de Maria Augusta Ramos, outro documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff, frequenta gabinetes e comissões de Brasília atrás de personagens até as raias da insanidade, porque trata o sistema político como um organismo vivo em atividade, feito de pessoas, enquanto Costa se paralisa diante dessa grande quimera que não permite aproximação. Falando em O Processo, é sintomático que Democracia em Vertigem compre a fala de Dilma e José Eduardo Cardozo que compara o impeachment a O Processo de Franz Kafka, porque - enquanto ferramenta de autodefesa da ex-presidente - é realmente mais tranquilizador enxergar tudo como um complô inevitável de uma máquina desumanizadora. Ao comprar essa visão, porém, o documentário contribui para sua posição pela desmobilização.

Assim como Elena, o primeiro longa da diretora, Democracia em Vertigem diz muito mais sobre como Petra Costa se vê e como projeta sua própria imagem. Na eleição de Dilma ela é filmada na Avenida Paulista, festejando com uma dança de rodopios que evoca os talentos de artista da falecida irmã, antes do plano se fechar no close-up do olho de Costa. O que temos ao longo do filme é a reparação desse romantismo, que ela herdara da mãe, cuja visão de mundo, originada num tempo mais simples, se resume no slogan de camiseta "me dê democracia ou me dê morte". Petra Costa se ressente das escolhas políticas da família, e Democracia em Vertigem em boa medida é menos o manifesto de um despertar político do que um lavar de mãos, balizado numa suposta pureza do olhar leigo.

Evidentemente é justo que a diretora reivindique para si esse registro em primeira pessoa, e afinal suas reiteradas declarações de desconhecimento e pitaco político ("eu não acompanhava", "eu julguei que terminaria assim") encontram eco na descrença que a maior parte da população tem da coisa pública. Não é por acaso que uma das poucas personagens "invisíveis" de Brasília, uma faxineira entrevistada no final, diga que não acredita haver democracia no Brasil. É a fala do "povão" que autoriza, enfim, o filme a se contentar com a paralisia, trajeto que se construía a cada fala que Costa, arrebatada, declamava com a lentidão imitada das narrações em off dos filmes de João Moreira Salles - documentarista que também tenta, através do cinema, expurgar seu elitismo.

O próprio Salles já teve o privilégio de acompanhar de perto comitivas de Lula, quando realizou Entreatos, um filme ainda atual que soube desvelar as sombras do teatro político em busca de compreensão de um processo e de um momento. Em Democracia em Vertigem, o acesso privilegiado de Petra Costa ao comando petista rende imagens fortes no final, nas cenas que refazem as horas que antecederam a prisão do ex-presidente. O que persiste, porém, são as panorâmicas do Alvorada desocupado - imagens de um vácuo indefinido, perigoso no teor apolítico porque registra daquele espaço só seu lado feio num país injusto, a ostentação dos janelões, do piso bem lustrado, das esculturas imponentes. O filme reivindica para si o protagonismo do relato, e ao olhar ao redor só parece capaz de enxergar os privilégios de classe de que compartilha.

Nota do Crítico
Bom