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Crítica

La Casa de Papel - 1ª parte

Série espanhola prende espectador ao misturar emoção de novela com adrenalina de thriller de ação

Rafael Gonzaga
30.01.2018, às 19H03
ATUALIZADA EM 26.03.2020, ÀS 15H18
ATUALIZADA EM 26.03.2020, ÀS 15H18

Misturando a ação de narrativas policiais com a imprevisibilidade das relações humanas, a primeira parte da minissérie La Casa de Papel entregou uma história eletrizante e, ao mesmo tempo, emocionante. A trama gira em torno de um grupo de ladrões, hackers, especialistas em armas e falsificadores que são reunidos por um homem misterioso na missão de invadir o prédio da Casa da Moeda espanhola e roubar a maior quantia da história direto da fonte. O grande mérito da metade inicial da atração está em não deixar a tensão do sequestro cair em nenhum momento ao mesmo passo que não se priva de explorar ao máximo todas as possibilidades de envolvimento entre bandidos, reféns e autoridades policiais.

La Casa de Papel acompanha um homem chamado de Professor, vivido por Álvaro Morte, recrutando um grupo de pessoas com habilidades específicas para algo que planeja há tempos: um roubo de proporções homéricas. Enquanto ele tem o plano perfeito, Tokio (Úrsula Corberó), Rio (Miguel Herrán), Nairóbi (Alba Flores), Berlim (Pedro Alonso), Moscou (Paco Tous), Denver (Jaime Lorente), Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García Ruiz) têm as habilidades necessárias para colocá-lo em ação - todos têm nomes de cidades para protegerem a própria identidade dentro do grupo: quanto menos se relacionarem entre si e souberem um do outro, melhor para o sucesso da missão.

É justamente conhecer mais a fundo cada um deles que cativa o espectador entre uma sequência de tiros e outra: todos os personagens carregam histórias problemáticas e possuem motivações que destroem a lógica binária de certo e errado, fazendo com que o público torça para os criminosos. Dramas como o de Nairóbi, uma falsificadora exímia que perdeu a guarda do filho após ser capturada pela polícia carregando drogas para vender, ou a relação de pai e filho de Moscou e Denver são eficientes em humanizar o grupo de bandidos. Paralelamente, a série faz questão de mostrar que o grupo não é santo: Berlim, o segundo no comando abaixo do professor, mostra uma faceta muitas vezes sádica e perturbadora; até mesmo Tókio, a primeira apresentada na atração, acaba sentindo necessidade de meditar sobre seu egoísmo e sua impulsividade.

O fato de fazer com que o espectador se apegue aos bandidos não quer dizer que o público torça necessariamente para o fracasso da polícia. Do outro lado da balança estão os negociadores do sequestro, liderados por Raquel Murillo (Itziar Ituño), uma mulher que precisa lidar com o descrédito de colegas de trabalho machistas e com o drama particular de ter sofrido violência doméstica do ex-marido, também policial. Enquanto dentro da Casa da Moeda sitiada a relação entre reféns e sequestradores floresce das mais diversas formas, do lado de fora Raquel e o Professor engatam dois tipos de relações: um jogo de gato e rato para ver quem terá sucesso no fim do assalto e, sem que ela saiba da verdadeira identidade dele, uma relação de romance entre os dois.

O resultado disso tudo é uma trama complexa onde certo e errado se confudem o tempo inteiro e são relativizados de acordo com as vivências prévias de cada um. Há uma discussão moral que é colocada em vários momentos na trama sobre o grupo de bandidos optar por ocupar a Casa da Moeda e produzir seu próprio dinheiro para, dessa forma, não tirar dinheiro de ninguém. O desenrolar do assalto mostra também as distintas experiências vividas por assaltantes, como arrependimento e dúvida, e pelos reféns, como ações motivadas pelo medo e até a corruptibilidade de cada um.

Algumas pessoas podem achar que La Casa de Papel tem uma dose muito alta da intensidade emocional das novelas latinas, mas isso é o que acaba dando personalidade à atração e fazendo com que ela não seja só mais um thriller policial pasteurizado. Na reta final da primeira parte da minissérie, pontes inéditas são construídas entre os personagens e mais informações reveladoras sobre o passado de alguns deles dão novo fôlego para a segunda remessa de episódios. Durante boa parte dos primeiros capítulos, o público acompanhou um Professor metódico antevendo os mais improváveis movimentos da polícia, mas, felizmente, a série coloca o estrategista em pé de igualdade à equipe de Raquel. Resta ao público esperar para ver como a história deverá caminhar para o fim enquanto torce simultaneamente para os vilões e para os mocinhos, sem nem saber categorizar direito quem é quem.

La Casa de Papel
Em andamento (2017- )
La Casa de Papel
Em andamento (2017- )

Criado por: Álex Pina

Duração: 5 temporadas

Nota do Crítico
Ótimo

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