Netflix

Crítica

Dark - 3ª Temporada

Série alemã da Netflix abre mão de respostas fáceis e chega ao fim com a ousadia que marcou sua trajetória

Gabriel Avila
26.06.2020
19h30
Atualizada em
27.06.2020
20h28
Atualizada em 27.06.2020 às 20h28

Há diferentes formas de se referir a Dark. Há quem a chame de “série alemã da Netflix”, ou “a da viagem no tempo”, e em especial, “aquela difícil de entender”. Ainda que todas essas definições estejam corretas, é especialmente complicado apresentar em poucas palavras uma série que, ao longo de duas temporadas, desafiou velhos conceitos da ficção científica, propôs discussões filosóficas, investiu no suspense e ainda reservou tempo para investir em histórias de amor - e como elas podem criar heróis e monstros. É com uma ingrata missão de dar um final que honre o legado construído até aqui que o terceiro e último ano da série chega ao streaming.

A temporada final de Dark começa quase exatamente de onde a segunda se encerrou. Minutos antes de o apocalipse cair sobre a cidade de Widen, Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) assiste Adam (Dietrich Hollinderbäumer), sua maligna versão mais velha, assassinar sua amada Martha (Lisa Vicari). Desesperado, o garoto é salvo por uma outra Martha, vinda não de uma linha temporal alternativa, mas de um universo paralelo. Levado a esse outro mundo, ele agora precisa correr contra o tempo para impedir que a catástrofe aconteça nas duas Terras. É a partir daí que tanto Jonas, quanto o público, começam a entender a dimensão dos problemas e os custos necessários para resolvê-los - caso isso seja possível.

É natural acreditar que a temporada final de Dark foi planejada com o objetivo de esclarecer seus mistérios e resolver sua trama, mas ao longo de seus episódios é possível perceber que essa não era a única tarefa da equipe criativa. Mais do que arrumar a casa e encerrar a história, o último ano apostou todas as suas fichas em ampliar tudo o que já havia sido feito até então. A dupla de criadores formada pela roteirista Jantje Friese e pelo diretor Baran Bo Odar claramente elevaram sua ousadia criativa à máxima potência - para o bem e para o mal.

A principal expansão no novo ano está na forma como aborda o mundo alternativo. Após uma estreia praticamente dedicada a apresentar essa outra Widen, a série a incorpora à narrativa principal, alternando não apenas diferentes épocas, mas agora também diferentes Terras. Além de servir à trama, mostrando que um universo fatalmente interfere no outro, essa escolha valoriza e muito toda a equipe da produção. Nesse ponto, cenários, figurinos e até mesmo penteados se destacam e ajudam a contar a história, ressaltando ainda mais esses aspectos que costumam ficar em segundo plano.

O mesmo pode ser dito do elenco, que ganha ainda mais destaque ao explorar o resultado dos traumas de personagens antigos e apresentar as versões alternativas. Além de exigir versatilidade dos veteranos, a produção também destina mais tempo de tela a personagens que até então haviam aparecido como meros coadjuvantes da trama principal. Mais do que retomar pedaços menos destacados dessa história, essa alternância de protagonismo reforça o conceito de que tudo contribui para que as coisas cheguem no estado em que estão.

Ainda que essa variação de tempos e espaços expanda a trama e apresente novas possibilidades, o rumo do último ano é definido por algumas decisões questionáveis. Retomando a discussão sobre quanto os ciclos são perpétuos e (quase) impossíveis de se quebrar, a série dedica boa parte de seu ano final para criar uma atmosfera desanimadora que por muito soa redundante.

Se as temporadas anteriores estabeleceram discussões como essa enquanto levavam a trama para algum lugar, no último ano é como se a caminhada fizesse uma pausa para que o público possa meramente testemunhar algumas lacunas sendo preenchidas. Ainda que tenha seus propósitos, como deixar alguns eventos mais claros claros para o espectador menos atento, essa escolha mais parece uma barriga, já que muito do que é mostrado já havia sido estabelecido anteriormente. Problema esse que chama ainda mais atenção com a constatação que algumas tramas paralelas, que poderiam fazer a história andar, foram simplesmente abandonadas sem maiores explicações - como por exemplo a investigação de Clausen (Sylvester Groth) sobre o assassinato de seu irmão, que perdeu completamente a relevância após a segunda temporada.

O fim de várias eras

Ainda que traga seus problemas, Dark chega ao fim com uma temporada que a consolida como uma das melhores produções dos últimos anos. Mais do que respostas, os últimos episódios entregaram uma conclusão que honra a maturidade com que a série discutiu seus temas. Após anos de dúvidas e angústias, a jornada da cidade de Widen se fecha de forma bela, utilizando todas as suas complexas características para contar uma história cujo tema principal não poderia ser mais simples.

Chega a ser curioso que o grande tema por trás de toda a mitologia baseada em ficção científica e muita discussão filosófica seja o amor, sentimento que move histórias desde que a humanidade aprendeu a contá-las. Assim foi no passado, e certamente será no futuro, em um ciclo que se torna perpétuo graças a obras como Dark, aquela série alemã de viagem no tempo da Netflix que finalmente se fez entender.

Nota do Crítico
Ótimo