Foto de Coisa Mais Linda

Créditos da imagem: Coisa Mais Linda/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Coisa Mais Linda - 2ª temporada

Apesar dos diálogos expositivos, série da Netflix fala de temas que, infelizmente, continuam muito atuais

Camila Sousa
24.06.2020
14h35

Não é exagero dizer que Coisa Mais Linda, série brasileira da Netflix, é uma das mais belas e interessantes produções exibidas no país atualmente. Criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth e com direção geral de Caito Ortiz, a série chega em sua segunda temporada reforçando os pontos positivos e negativos do primeiro ano, com uma trama que segue atual, apesar de se passar nos anos 60.

O segundo ano tem um leve salto temporal em relação ao que aconteceu no final da primeira temporada, mostrando como Malu (Maria Casadevall) está lidando com o trauma do que aconteceu com ela e com Lígia (Fernanda Vasconcellos). A forma com que o seriado trata o caso mostra uma grande delicadeza, com cenas que intensificam a amizade duradoura entre as personagens de Casadevall e Vasconcellos. Tanto Malu quanto Theresa (Mel Lisboa) se sentem culpadas por tudo, mas é na protagonista que esse sentimento cria raiz.

Se na primeira temporada de Coisa Mais Linda Malu começa a se desvencilhar das amarras que a sociedade lhe impunha, aqui ela parece sem forças para lutar. A batalha por igualdade e justiça é tão dura, que Malu pensa se não seria melhor apenas ser o “modelo de mulher perfeita” que todos esperam dela. Com isso, já nos primeiros episódios a produção mostra temas da década de 60 que, infelizmente, continuam muito atuais. As conquistas das mulheres dificilmente são permanentes. É preciso estar sempre atenta e forte.

Esse retrato de como as mulheres começaram a questionar mais seu lugar na sociedade na década de 60 segue como um dos pontos mais positivos de Coisa Mais Linda, ao lado do design de produção, fotografia e figurino. A produção da Netflix é caprichada. A fotografia quente faz o espectador se sentir no Rio de Janeiro de outrora e os figurinos não ficam longe de nenhuma produção hollywoodiana de época. Coisa Mais Linda continua ainda acertando na trilha sonora, que inclui MPB e samba em momentos que vão da descontração à sensualidade. Este último recurso, aliás, continua sendo utilizado da forma certa. Ainda que a nudez feminina seja mais presente do que a masculina - acentuando um tabu que segue presente na indústria - pelo menos as cenas de sexo são mais voltadas ao prazer da mulher e sua vontade de estar ali.

Forças e fraquezas

Como fez em sua primeira temporada, Coisa Mais Linda usa suas protagonistas para falar de diversos temas importantes. Se o foco de Malu é em, novamente, se libertar, a história de Theresa volta a ter contornos profissionais. Após, como ela mesmo diz, tentar ter uma vida em casa e ser a mulher que Nelson (Alexandre Cioletti) gostaria, ela volta ao mercado de trabalho, dessa vez trabalhando em uma rádio. Os desafios são muitos, até maiores do que os enfrentados por ela na mídia impressa, e trazem a dinâmica da personagem com Wagner (Alejandro Claveaux), que acha que Theresa não daria conta do recado. Há várias nuances na relação dos dois que podem ser aplicadas nos dias atuais - como quando ele espera um desfecho diferente após uma noite divertida no bar - e é positivo ver como a série inclui temas importantes de forma leve. Como a própria Malu diz: os homens se divertem o tempo todo, as mulheres também não podem?

Outro núcleo que ganha várias camadas é o de Adélia (Pathy Dejesus), especialmente agora que sua irmã Ivone (Larissa Nunes) está mais presente na trama como uma aspirante a estrela da música. No caso de Adélia, sua relação com o Capitão (Ícaro Silva) se intensifica, mas é impossível deixar as diferenças dos dois de lado. Como Dejesus afirmou ao Omelete em entrevista, Adélia teve pela primeira vez a chance de escolher e o resultado foi agridoce. Ainda que esteja seguindo seu coração, o caminho de uma mulher negra em uma sociedade preconceituosa é extremamente tortuoso. O sofrimento de Adélia por ela e sua filha Conceição (Sarah Vitória) é palpável e a temporada termina com um gancho interessante para sua história. 

Se há algo negativo na temporada de Coisa Mais Linda são alguns pontos do roteiro. Como aconteceu no primeiro ano, o seriado se esforça demais ao tentar passar algumas mensagens. Em vários momentos, o significado de uma cena está totalmente claro, mas sempre há uma fala dos personagens para acentuar o momento e pontuar seus significados. Há a impressão de que Coisa Mais Linda tem tanto receio de não ser compreendida, que prefere colocar diálogos óbvios na boca de seus personagens.

O outro ponto que incomoda são algumas conveniências. Adélia, por exemplo, passa por uma questão que parece ser extremamente importante, mas é resolvida de um episódio para o outro. Há consequências emocionais, mas o seriado pede uma suspensão de descrença muito grande do público ao resolver um problema grande em um piscar de olhos, deixando claro que tudo foi apenas uma muleta narrativa para chegar em outro lugar. Isso, infelizmente, enfraquece tramas com potenciais narrativos imensos.

Justiça

A segunda parte da temporada de Coisa Mais Linda foca em um julgamento e os momentos escancaram a desigualdade que existe entre homens e mulheres naquela/nessa sociedade. Os discursos, que infelizmente ainda podem ser encontrados em pleno 2020 em alguns fóruns de comentários, incomodam ao colocar as mulheres como “seres maquiavélicos” e homens como “pobres vítimas” de seus encantos. Os trechos chocam propositalmente e fazem o espectador ter vontade de pular certos discursos, especialmente quando a violência é colocada como uma "forma de amor".

Além de deixar claro a injustiça do caso, tais sequências são uma preparação para o grande gancho deixado ao fim do segundo ano. Há um quê novelesco em como tudo se desenrola e, ao rever o trecho final sabendo como ele vai terminar, há várias pistas que pendem até para um suspense. Ainda assim, a cena condiz com o seriado de um modo geral e tem um grande potencial para a ainda não confirmada terceira temporada do seriado.

Como dito no texto das entrevistas com o elenco, ver Coisa Mais Linda em 2020 é um experimento chocante. É perturbador perceber como as diferenças entre homens e mulheres continuam tão latentes na sociedade atual, ao mesmo tempo em que há um certo alívio ao constatar que houve sim alguma evolução - que precisa ser acompanhada de perto para não ser perdida. Ver Coisa Mais Linda em 2020 é agridoce, porém muito necessário.

Nota do Crítico
Ótimo