Foto de Coisa Mais Linda

Créditos da imagem: Coisa Mais Linda/Netflix/Divulgação

Netflix

Entrevista

A sutileza de Coisa Mais Linda ao abordar temas que continuam muito atuais

“Esse passado não passa”

Camila Sousa
19.06.2020
11h00
Atualizada em
17.06.2020
17h40
Atualizada em 17.06.2020 às 17h40

Assistir a série Coisa Mais Linda em 2020 é um experimento curioso. A produção nacional da Netflix chega em sua segunda temporada mostrando vários desafios das mulheres na década de 60, época em que precisam lidar com preconceitos, feminicídio e um constante sentimento de que precisam provar aos homens que são tão capazes quanto eles. Infelizmente, esses temas seguem mais atuais do que nunca. 

Em entrevista ao Omelete para divulgar os novos episódios, Mel Lisboa, intérprete de Theresa, diz sobre como Coisa Mais Linda abre portas para reflexões importantes: “A série te coloca em situações que te levam a refletir a realidade hoje. Diante das situações atuais de racismo e feminicídio, você passa a fazer esse paralelo e pensar na questão estrutural do racismo e machismo, por exemplo. Há outras, mas é um recorte. Além disso, pensamos também nas vitórias, que devem ser celebradas e precisamos lutar para manter essas vitórias”.

Uma das personagens que mais exemplifica a questão na segunda temporada é Malu. Após ver a morte de sua melhor amiga Lígia (Fernanda Vasconcellos), a protagonista fica em coma e precisa se reconectar com tudo o que conquistou. No fim das contas, como várias mulheres antes e depois dela, Malu parece cansada de lutar uma batalha que parece não ter fim. “O coma é uma forma simbólica de trazer para a consciência de quem está assistindo o quanto essas conquistas são facilmente perdidas”, diz Maria Casadevall, intérprete de Malu, ao Omelete. “O tempo inteiro se conquista e precisa-se manter. A Malu volta desse coma tentando resgatar a trajetória que ela teve interrompida. Então vamos acompanhar essa mulher que, através desses encontros e força pessoal, vai se reconectar com aquela trajetória que ela já tinha iniciado”.

No entanto, ainda que muitos retrocessos ainda existam, Casadevall celebra a possibilidade de ter uma série protagonizada por quatro mulheres em uma plataforma como a Netflix, algo que seria muito mais difícil há apenas algumas décadas: “Querendo ou não, isso já é um reconhecimento de que estamos caminhando, com muitas dificuldades, mas estamos. Somos quatro mulheres protagonistas de uma história, em uma plataforma que tem um alcance tão grande, em um momento como esse, é ainda mais importante”.

Já para Larissa Nunes, que ganha mais destaque no segundo ano como a jovem cantora Ivone, a sutileza da série ao trazer tais temas é algo também muito importante: “Acho que só faz sentido olharmos e retratarmos uma época porque ela cria um diálogo com o momento presente. A série traz isso com muita sutileza e esses temas são abordados com muito cuidado. Não são temas fáceis de abordar. Não é fácil abordar o feminicídio, principalmente sabendo que nesse período da quarentena, por exemplo, aumentou o número de casos de violência doméstica; entendo a questão racial como uma reação, porque o problema sempre esteve aqui entre nós. Esse passado não passa”.

O que é uma mulher forte?

Ter uma série protagonizada por quatro mulheres também faz com que muitos fãs olhem para elas como “mulheres fortes”. Há uma admiração pela mudança que Malu faz em sua vida, pela garra de Adélia, pelo enfrentamento de Lígia, pela coragem de Ivone, pela petulância (no completo bom sentido) de Theresa. E tudo bem admirar essas mulheres, desde que isso não as coloque em uma posição de força eterna. É muito comum romantizar as jornadas exaustivas das mulheres como algo positivo, sendo que o melhor é tratá-las como elas são: humanas, que também precisam de descanso, de colo, e que também têm o direito de chorar.

Na segunda temporada de Coisa Mais Linda, isso é colocado principalmente para Adélia, que precisa lidar com uma notícia muito difícil, mas escolhe fazer isso sozinha, sem o apoio da família ou amigos. Em entrevista ao Omelete, Pathy Dejesus, intérprete da personagem, fala como isso traz ainda a questão da força infinita da mulher negra, algo criado, segundo ela, “para justificar a escravidão, para justificar a solidão da mulher negra, para justificar uma mãe solo que precisa cuidar de outras famílias fazendo o serviço da casa de outras mulheres, para que essas mulheres se emancipassem, por exemplo. Acho que esse é o caso da Adélia”.

“Eu não quero dar spoiler, mas em um primeiro momento ela não tem nem opção, sabe? Dentro dessa estrutura que foi criada, ela não tem opção. Essa mulher não tem tempo de chorar suas mágoas, ela não tem tempo de sanar suas cicatrizes, porque vem uma bordoada atrás da outra e ela precisa colocar comida na mesa. Isso é um ciclo que precisa ser quebrado. Essa mulher, talvez, não tenha um olhar para ela ainda. Ela foi criada para doar, para servir, essa mulher talvez não tenha essa consciência, que ela vai criar depois. É o único spoiler que posso te dar. Pela primeira vez na vida, talvez, a Adélia terá a opção da escolha e eu acho isso muito bonito”, completa.

Já dssponível na Netflix, a 2ª temporada de Coisa Mais Linda continua trazendo várias questões importantes e mostra como Malu, Adélia, Theresa, Ivone e várias outras mulheres as enfrentam de forma cada vez mais unida. “O mais interessante dessa série é justamente isso: de uma forma para o entretenimento, ela faz esse paralelo de uma forma muito interessante, inteligente e sutil. E faz com que o público pense sobre isso. Não estamos impondo esse pensamento, mas as coisas são mostradas de uma forma envolvente que fez as pessoas pararem para pensar”, completa Dejesus.