365 Dias

Netflix

Crítica

365 Dias

Thriller erótico da Netflix não oferece muito além do sensacionalismo e do humor involuntário

Marcelo Hessel
16.06.2020
15h02
Atualizada em
23.06.2020
14h33
Atualizada em 23.06.2020 às 14h33

Que casamento infeliz o de 365 Dias, filme da Netflix que junta a cultura sugar daddy de 50 Tons de Cinza com as violências reminiscentes do tráfico sexual do Leste Europeu. O suspense erótico está entre os mais vistos do serviço e rapidamente gerou uma frente de reações ultrajadas, por sua romantização do abuso. Não deixa de ser um casamento de conveniência, por infeliz que seja: a Netflix faz de conta que oferece variedade com um mínimo de critério (a produção é polonesa então talvez tenha pelo menos um valor de exotismo) e quando o público repercute em massa o conteúdo de impacto valida-se nas redes a escolha da curadoria.

O mais interessante nesse caso é que, tirando pleno proveito dessa tendência à escandalização, 365 Dias não precisa articular nem oferecer muito: é um filme de máfia sem rivais, e um filme de sexo sem muito sexo. Assim como A Serbian Film dez anos atrás, ele praticamente prescinde de qualquer formulação mais trabalhada; sua força vem do sensacionalismo, que por definição não precisa de um fato relevante que o preceda, pois o sensacionalismo é um fim em si mesmo.

Isso se reflete de modo cômico na encenação. Talvez por uma questão de barateamento de custos, 365 Dias usa elipses temporais e de espaço, ostensivamente, para encurtar cenas. O assinante talvez fique com a sensação frequente de que está faltando algo: o mafioso toma um tiro e não vemos de onde veio, a mocinha Laura é raptada mas sem um ato violento em si, ela toma banho numa fonte e só a vemos depois, molhada. Os lapsos são inclusive incorporados à trama, que usa o sedativo do rapto como pretexto (aliado a uma condição cardíaca da personagem, repetida três vezes nos primeiros 20 minutos) para abusar da Manobra Tyrion Lannister: quando a cena vai ficar mais tensa (ou mais cara) a personagem simplesmente apaga - e do blecaute pulamos magicamente para a cena seguinte. A música preenche os buracos e as transições.

Não seria exagero dizer que estamos diante de um raro soft porn ontológico, porque a narrativa de 365 Dias em si é um grande comentário cínico sobre a desimportância da narrativa: quem quer saber de história quando só as cenas de sexo importam? Se há uma postura verdadeiramente radical sendo articulada aqui é o fato de 365 Dias não oferecer tanto sexo assim. Na minutagem é provável que os personagens passem mais tempo nas compras do que na cama; entre as cenas de montagem musical há duas ou três com a raptada provando roupas, outras duas se arrumando pra sair. O sexo no provador é inevitável; a cena não dura muito, porém, nesse caso não por narcolepsia mas por latente desinteresse.

A única coisa que falta para 365 Dias participar por completo do ciclo de reciclagem de conteúdo em 2020 são os vídeos teorizando o que diabos acontece no final e como a explicação está nos livros, porque é claro que o roteiro deixa o desfecho subentendido em mais uma elipse anticlimática de caráter orçamentário. O que é a cena do carro? Laura dormiu de novo, no escurinho do túnel? Ela mudou a cor do cabelo e portanto tudo não passava de um delírio como em Cidade dos Sonhos? Ou ela foi, num movimento digno dos clássicos, encoberta de propósito como a Kay no final de O Poderoso Chefão, para que 365 Dias se torne enfim a maior trilogia mafiosa do seu tempo sem dar mais do que um disparo de arma?

Nota do Crítico
Ruim