Noah Centineo em O Date Perfeito

Créditos da imagem: O Date Perfeito/Netflix/Divulgação

Netflix

Artigo

Como a Netflix lança seus atores ao sucesso

Plataforma cultiva cineastas em uma mistura de técnicas antigas de Hollywood e novas tendências digitais

Arthur Eloi
12.02.2020
20h00

A década atual será marcada pela disputa no streaming. Com cada vez mais serviços surgindo a cada dia, o catálogo será vital para puxar assinantes novatos, e muito desse interesse inicial virá dos talentos envolvidos nas produções originais. Essa estratégia foi definida por ninguém menos do que a empresa que foi pioneira dose aventurou no ramo: a Netflix. A plataforma já emplacou alguns filmes e séries de sucesso, mas a grande sacada foi de que não basta apenas investir no material, mas também cultivar elenco para estrelá-los.

A técnica foi desenvolvida por tentativa-e-erro ao longo dos anos, com início por volta de 2016 quando, em julho, Stranger Things chegou ao catálogo. O seriado oitentista teve pouco marketing, normalmente focado na nostalgia e na participação de Winona Ryder - único rosto conhecido da produção, além de Matthew Modine (Nascido para Matar). Em alguns dias o programa se tornou um hit surpresa, e a Netflix foi rápida em aproveitar o hype para definir como promoveria suas criações dali em diante: através das redes sociais. O perfil oficial da empresa no Twitter e no Instagram - onde é mais ativa - rapidamente realçou reações positivas do público, criou memes, compartilhou o perfil pessoal dos atores e se comunicou na mesma linguagem que os fãs. A ideia funcionou, com não só o seriado ganhando força nas discussões, como também a contagem de seguidores do elenco aumentando ao nível de se tornarem celebridades da noite para o dia. Enquanto o streaming não chegou a colocar os novatos em produções da casa - Finn Wolfhard foi fazer It: A Coisa e Millie Bobby Brown se juntou a Godzilla II: Rei dos Monstros, ambos da Warner Bros. -, a estratégia estava definida.

Para criar estrelas não basta que tê-las em bom conteúdo, é preciso criar presença digital para elas. “[A Netflix] surgiu na internet”, explica o analista de dados Rich Greenfield, da BTIG [via Fast Company]. “A expertise deles no uso do marketing digital, e menos uso da TV que seus concorrentes, resultou em melhores retornos de investimento que os outros. A Netflix consegue lançar conteúdo, ver a resposta do público e investir de acordo. É uma abordagem muito diferente.” A partir daquele ponto, a Netflix começou a mapear a carreira de quem estourava na plataforma e nas redes sociais. Shannon Purser, que caiu nas graças da internet por interpretar Barb em Stranger Things, viraria protagonista de Sierra Burgess é uma Loser. Kiernan Shipka, estrela de O Mundo Sombrio de Sabrina, viria a atuar em dois filmes originais do serviço, o terror O Silêncio e a comédia-romântica Deixe a Neve Cair. Mas o maior representante dessa tendência é, sem dúvidas, Noah Centineo.

O jovem ator ganhou certo reconhecimento do público adolescente por estrelar The Fosters e dar as caras no clipe de “Havana”, de Camila Cabello, mas nada próximo do que viria a seguir. Em agosto de 2018, Centineo coestrelou Para Todos os Garotos que Já Amei, comédia-romântica em que vivia Peter, o interesse romântico da protagonista Lara Jean (Lana Condor). Assim como havia acontecido com Stranger Things, o streaming tinha um sucesso inesperado nas mãos - mas diferente da série oitentista, não deixaria a oportunidade passar. Condor foi para projetos como Alita: Anjo de Batalha e Deadly Class, mas o galã fez carreira na empresa. Não só a Netflix criou bastante conteúdo em cima da imagem de Centineo que as fãs tanto comentavam e compartilhavam no Twitter, como também impulsionou as redes pessoais do ator. No Instagram e Twitter, ele rapidamente pulou de alguns milhares de seguidores para a casa dos milhões.

Ao invés de liberá-lo para outros projetos, o serviço então inseriu Centineo em mais e mais produções originais. O ator deu as caras em Sierra Burgess é uma Loser, estrelou O Date Perfeito e, ainda por cima, anunciou envolvimento em uma sequência de Para Todos os Garotos, que chegou ao catálogo recentemente. A plataforma foi a fundo na ideia de se atrelar ao jovem galã, a ponto de se arriscar por ele. O primeiro projeto de Centineo como protagonista nas telonas será um filme live-action de He-Man, para a Sony Pictures. A Netflix já demonstrou estar interessada em distribuir o longa, mesmo com o próprio estúdio já considerando como um potencial fracasso de bilheteria. Por pior que seja, ter mais conteúdo do ator reforça como foi o streaming que o lançou ao mundo.

Centineo, assim como Purser e Shipka, não é o único a fixar moradia na Netflix, já que essa tendência se estende além dos astros adolescentes. Alison Brie, que dublou Diane em BoJack Horseman, estrelou GLOW e o filme Entre Realidades no serviço. Sandra Bullock, de Bird Box, terá um longa com Vincent D’Onofrio e Jon Bernthal, dupla de Demolidor e Justiceiro. Algo semelhante ocorre até atrás das câmeras. O diretor Mike Flanagan, por exemplo, comandou Hush: A Morte Ouve e Jogo Perigoso antes de mergulhar em A Maldição da Residência Hill. Mesmo agora, que é cobiçado pelo cinema, ainda se envolve com projetos da casa, como o vindouro seriado de terror Midnight Mass.

É difícil, porém, dizer que essas práticas são inovadoras. A indústria audiovisual no início do século passado lidava com conceitos muito parecidos, chamados de studio system e star system. Ambos visavam associar cineastas e atores aos grandes estúdios, mas de forma muito mais invasiva e controladora. É um paralelo bastante válido com as abordagens da Netflix, que merece o crédito por não só resgatar como também reinterpretar essas ideias para a cultura pop moderna. O triunfo da empresa sob a concorrência se dá porque, além das boas produções, também entende como os fãs cultuam entretenimento e criam ícones de forma orgânica. Como o mercado de streaming ainda é novo, muita coisa ainda pode mudar - especialmente quando as concorrentes começarem a responder a altura. Até lá, a plataforma se mantém não só como a líder, mas também como a casa dos mais variados realizadores, de Noah Baumbach (Os Meyerowitz, História de um Casamento) à Noah Centineo.