Stranger Things: como fãs de heavy metal e RPG viraram alvos do Pânico Satânico

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Stranger Things: como fãs de heavy metal e RPG viraram alvos do Pânico Satânico

Primeira coluna do Wikimetal no Omelete foca nos casos reais de pânico moral ocorridos na década de 1980

Omelete
11 min de leitura
30.06.2022, às 11H17
ATUALIZADA EM 28.07.2022, ÀS 16H48
ATUALIZADA EM 28.07.2022, ÀS 16H48

*texto por Gabriela Marqueti

Ambientada nos anos 1980, a série Stranger Things é conhecida por incorporar em seu roteiro temas que apavoraram a sociedade estadunidense durante aquela década. Apesar de ser protagonizada por crianças e funcionar como um grande atrativo da Netflix para toda a família, a produção se baseia tanto em clássicos do terror quanto em momentos históricos reais para construir uma narrativa digna das bizarrices e dos temores da época.

Invasões alienígenas, sequestro de crianças, experimentos secretos em humanos e a “ameaça comunista” são alguns dos temas que foram abordados ao longo das três primeiras temporadas. Para a quarta e mais recente temporada, os irmãos Ross e Matt Duffer, criadores da série, decidiram inserir outro assunto que deu o que falar na década de 80 nos Estados Unidos: o Pânico Satânico.

O pânico satânico é uma vertente específica do chamado “pânico moral”, que se trata de uma crença coletiva de que um “grande mal” está ameaçando os valores sociais ou culturais de uma sociedade. Esse medo costuma ser exagerado e baseado apenas em especulações e teorias conspiracionistas, sem provas concretas, e é normalmente alimentado por correntes religiosas e pela mídia sensacionalista, gerando um clima irracional que se alastra pela comunidade.

Reprodução/Capa/Capital Daily

A associação desse terror coletivo ao satanismo se tornou mais forte nos Estados Unidos durante os anos 1980 com a popularidade do best-seller Michelle Remembers. Escrito pelo psicólogo canadense Lawrence Pazder e sua paciente Michelle Smith, o livro relata uma série de abusos sexuais que Michelle supostamente teria sofrido nas mãos de uma seita satânica. Ela alegava ter reprimido as lembranças durante anos e se recordado do crime durante suas sessões de terapia, o que despertou um medo coletivo de que esses grupos estariam à solta e espreitando a população.

Não muito depois, um caso ocorrido na Califórnia ganhou popularidade e ficou conhecido como Caso McMartin. Em 1983, o professor Ray Buckey foi acusado de molestar um de seus alunos da pré-escola. Lawrence Pazder, autor de Michelle Remembers, tinha então se tornado uma espécie de celebridade e autoridade em casos de “abusos ritualísticos” e passou a atuar como consultor do caso. Com o passar dos meses, Buckey, sua irmã, outras professoras e também a diretora da pré-escola, Virginia McMartin, se tornaram alvos de 321 acusações que relatavam abusos de 48 crianças em rituais satânicos que seriam supostamente realizados em cemitérios e em uma rede de túneis que se encontraria embaixo da escola. 

O julgamento do caso se tornou um dos mais longos e mais caros da história dos Estados Unidos e acabou em 1990, sete anos depois, com a absolvição de todos os réus. Buscas por túneis subterrâneos nos terrenos da escola não surtiram resultados e muitos dos estudantes que acusaram o professor admitiram que suas histórias eram falsas. Antes de ser liberado, Ray Buckey passou cinco anos preso sem nunca ser condenado por crime algum.

É importante lembrar que, na época, a ameaça da existência de seitas e possíveis grupos ligados ao ocultismo já era forte no imaginário popular estadunidense após o brutal assassinato da atriz Sharon Tate em 1969 pelas mãos de seguidores de uma seita hippie liderada por Charles Manson, e o Massacre de Jonestown em 1978, onde mais de 900 membros de outra seita cometeram suicídio coletivo. Para alguns, parecia razoável acreditar que os ocultistas e satanistas estavam se espalhando pelo país com um plano de violência, sadismo e dominação mundial.

Eddie Munson: o bode expiatório

No início da quarta temporada de Stranger Things, somos apresentados ao personagem Eddie Munson. Eddie foi calorosamente recebido pelo público da série, mas dentro de sua comunidade ele não é uma figura bem-vinda. Como um verdadeiro “excluído”, o jovem é um repetente do Ensino Médio, toca guitarra em uma banda autoral chamada Caixão Corroído e é mestre de mesa do jogo de RPG Dungeons & Dragons, ministrando o clube de campanhas conhecido como Hellfire Club. Eddie também é assumidamente fã de heavy metal e pode ser visto usando sempre um colete do álbum The Last In Line (1984), de Dio.

Sua impopularidade, seus longos cabelos de headbanger e sua reputação como traficante de drogas causa repulsa em um dos grupos mais populares do colégio - os atletas. Depois que uma jovem líder de torcida morre de forma misteriosa no trailer onde Eddie mora com seu tio, ele passa a se tornar o principal suspeito da polícia de Hawkins. O corpo da jovem é encontrado em um estado grotesco e inexplicável - sem os olhos e com os membros retorcidos - o que rapidamente levanta suspeitas de práticas ritualísticas.

Com o aumento do número de mortes em circunstâncias semelhantes, a igreja e a mídia local passam a distribuir folhetos alertando os pais contra uma ascensão do satanismo entre os jovens, culpando principalmente a influência do heavy metal e de jogos de RPG como Dungeons & Dragons. Com o rumor de motivações satânicas se espalhando pela comunidade, Eddie passa a ser apontado como o principal culpado do crime e a cidade inicia uma verdadeira caça às bruxas liderada pelos atletas do time de basquete e fundamentada por um discurso profundamente moralista e religioso. 

A suspeita de adoração ao diabo e assassinatos ritualísticos recai não só sobre o presidente do clube, mas também sobre os outros integrantes do Hellfire Club, que passam a ser vistos como possíveis criminosos e ameaças para a segurança e o bem-estar da vizinhança, mesmo sem provas que os liguem aos crimes cometidos.

Em seu livro The Day Care Ritual Abuse Moral Panic, a socióloga Mary de Young, que passou a vida estudando exemplos de pânico moral, explica esse fenômeno: “Todo pânico moral precisa ter um demônio folclórico. Precisa ter uma pessoa - ou, mais provavelmente, um grupo de pessoas, sejam estes indivíduos reais ou fantasiosos, que são demônios no meio de tudo isso.”

O advogado Danny Davis, que trabalhou na defesa do professor Ray Buckey no Caso McMartin, também estudou fenômenos sociológicos, como a Caça às Bruxas na Idade Média, e complementa: “Eu vi claramente que existe um processo na sequência de fatos que começa com algum tipo de escândalo ou mudança na sociedade que se transforma em uma acusação muito forçada e de acordo comum contra um alvo ou bode expiatório. E então esse bode expiatório é rapidamente destruído.”

À esquerda, Ozzy Osbourne mordendo a cabeça de um morcego, e à direita, a capa do álbum ‘The Number of the Beast’, do Iron Maiden 

Reprodução/YouTube/Capa

A associação entre heavy metal e o satanismo 

A suposta ligação do heavy metal com o satanismo foi estabelecida desde a origem desse gênero musical, não só pelas iconografias ocultistas e as temáticas obscuras adotadas por nomes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Iron Maiden, mas também pela característica inconformista do rock, que se apresentava vigorosamente contra o moralismo cristão que a sociedade adotava na época.

Quando começou a se popularizar entre os jovens dos anos 60, o rock virou um grande símbolo anti-religião e anti-sistema, pregando o individualismo, a rebeldia contra os costumes vigentes e uma entrega ao hedonismo, ou seja, à aproveitação máxima dos prazeres terrenos, como o sexo e as drogas. Esse discurso ia contra o discurso da igreja e pode ser, de fato, encontrado em seitas satanistas inspiradas nos fundamentos do filósofo inglês e famoso ocultista Aleister Crowley, que serviu de inspiração para a música “Mr. Crowley”, de Ozzy Osbourne.

Recentemente, quando questionado sobre o uso de simbologia satânica e ocultista no Iron Maiden, o vocalista Bruce Dickinson respondeu que as bandas de heavy metal fizeram uso dessa temática no início de suas carreiras pelo efeito “dramático” e para “chocar as pessoas” - não necessariamente porque acreditavam em Satã ou eram praticantes do satanismo.

“O que as bandas de heavy metal fizeram ao adotar essas imagens foi chocar as pessoas,” explica no podcast Psycho Squizo Espresso. “Do mesmo jeito que os filmes da Hammer reintroduziram Drácula, mas com sexo. A partir daí, eles tinham Drácula, sangue, presas, sexo, o diabo – todas essas coisas eram muito chocantes, mas elas secretamente nos excitam. E, é claro, enquanto criança você seria proibido de assistir e isso, obviamente, tornaria tudo interessante e você assistiria e usaria sua imaginação para criar histórias.”

Na mesma conversa, Dickinson também mencionou que no final dos anos 50, a Europa - seu continente de origem - era amplamente cristã, com muito mais pessoas indo à igreja e adotando costumes cristãos, e que, no geral, essas pessoas acreditavam em um “mal absoluto” e em um “bem absoluto”. Ele também pontuou a chegada de filmes como A Profecia (1976) e O Exorcista (1973) como pontos-chave da disseminação dessa ideia de “uma forma física do mal” ou desse mal absoluto incorporado em uma figura humana. 

Em casos de pânico satânico, é comum observar que todo o mal de uma sociedade recai sob a culpa de um único indivíduo ou grupo de indivíduos, que deixam de ser vistos como humanos e passam a receber uma identidade demoníaca - uma personificação desse “mal absoluto” que só pode estar ligado ao diabo, já que os seres humanos são feitos “à imagem e semelhança de Deus”. Se Deus é a representação do “bem absoluto”, então os humanos não seriam capazes de maldade sem a ajuda de forças espirituais malignas.

Damien Echols, Jessie Misskelley Jr. e Jason Baldwin ficaram conhecidos como Os Três de Memphis. 

West Memphis Police Department via CBS News

Os Três de Memphis: a história real que inspirou o personagem Eddie 

A história do personagem Eddie Munson e suas tribulações durante a quarta temporada de Stranger Things é baseada em um caso real que aconteceu nos Estados Unidos em 1993, conhecido como Os Três de MemphisNa época, os corpos de três crianças foram encontrados nus e amarrados, com sinais de espancamento e mutilação. Uma das vítimas tinha, inclusive, o sobrenome Byers, o mesmo do personagem Will. As investigações policiais logo apontaram a culpa para três adolescentes - Damien Echols, Jessie Misskelley Jr. e Jason Baldwin.

Echols, na época com 18 anos, era considerado o “cabeça” do grupo e principal autor do crime porque tinha largado a escola e se proclamava um entusiasta da religião Wicca. Seu interesse no ocultismo, somado à sua predileção por livros de terror de Stephen King e por bandas de metal como o Metallica, logo o colocaram no centro de uma conspiração satanista que envolvia o assassinato de crianças em rituais de adoração. 

O crime foi confessado por Jessie Misskelley Jr. depois de um interrogatório policial, mas mais tarde Misskelley alegou ter sido coagido a apresentar uma confissão e seus relatos supostamente forjados, de fato, não batiam com as características do crime. Nenhuma evidência física ligava os três colegas à cena do crime e todos tinham álibis, mas todos foram considerados culpados.

Echols foi sentenciado à morte, enquanto seus outros dois colegas pegaram pena de prisão perpétua, mas devido às circunstâncias suspeitas do caso, o apelo midiático e sensacionalista, e a aparição de novas evidências incluindo novos traços de DNA encontrados na cena do crime, os chamados Três de Memphis foram a julgamento em 2011 e foram liberados.

Os jovens, assim como Eddie Munson, foram usados como bode expiatório de um crime por serem alvos fáceis e que se encaixavam naturalmente na narrativa do pânico satânico, que também já foi usada em famosos casos no Brasil. Assim como aconteceu durante o desenrolar do Caso Evandro, a forte pressão midiática e populacional exigia uma resposta rápida da polícia, que, em ambos os casos, viu nas mortes violentas uma chance de criar uma narrativa envolvendo prática de magia e rituais de adoração demoníaca, fazendo uso de coerção e tortura para obter uma confissão forjada dos suspeitos e investigados.

Durante a década de 1980, o pânico satânico foi liderado pela propaganda e utilizado nos Estados Unidos como uma forma de tentar reavivar os valores cristãos dentro da sociedade, que fugia cada vez mais ao controle do Estado e da Igreja. Gêneros musicais como o heavy metal e jogos que eram povoados de figuras pagãs como o Dungeons & Dragons, foram rapidamente identificados como os culpados por essa perda dos valores cristãos e colocados no centro de conspirações sobre abusos e assassinatos ritualísticos como uma tentativa de diminuir sua influência nos costumes gerais.

O personagem Eddie Munson, com sua paixão por RPG, sua personalidade assumidamente headbanger e sua falta de recursos financeiros ou conexões importantes em uma cidade como Hawkins, é um retrato perfeito dos principais alvos da época, que muitas vezes foram usados para encobrir as verdadeiras motivações de uma série de crimes atrozes e seus verdadeiros culpados.

Com uma narrativa tão violenta e sensacionalista cercando um personagem tão querido, muitos fãs já especulam que talvez Eddie não encontre um final feliz no Volume 2 da quarta temporada de Stranger Things, que estreia nesta sexta-feira, 01 de julho. Em imagens do trailer mais recente, porém, o personagem é visto tocando um solo de guitarra, o que promete ao menos uma última homenagem ao metal e à comunidade headbanger antes do grande desfecho, e que também pode colocar o heavy metal não como o grande vilão, mas sim como o grande salvador da história.

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