Taylor Swift no trailer de The Eras Tour

Créditos da imagem: Taylor Swift - The Eras Tour/ Taylor Swift Productions/Reprodução

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Opinião: Estratégico ou não, silêncio de Taylor Swift é uma quebra de confiança

Diante da inegável crise, artista fez uma escolha que pode desmanchar sua imagem de “melhor amiga” dos fãs no Brasil

Omelete
7 min de leitura
22.11.2023, às 11H42

A aparente normalidade com que Taylor Swift retomou a The Eras Tour no Rio de Janeiro no último domingo (19) incomodou e não foi pouco — afinal, seus primeiros dias na capital fluminense foram tudo exceto normais. A homenagem à cantora no Cristo Redentor, um atestado da dedicação e da devoção dos fãs brasileiros, se tornou uma vírgula diante da tragédia que teve palco no seu primeiro show: Ana Clara Benevides, uma estudante universitária de 23 anos, morreu depois de passar mal no Engenhão. O caso, embora soe pontual, não foi uma exceção. Mais de mil pessoas foram atendidas no ambulatório do estádio, sofrendo com a sensação térmica de 60ºC e desidratação. E, para piorar, o socorro que muitas delas relataram receber foi a administração de clonazepam, substância indicada para crises agudas de ansiedade, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia.

No dia seguinte, quando era esperado que a onda de calor no Rio se agravasse, Taylor anunciou o adiamento da sua segunda apresentação horas antes do ato de abertura. A razão, expressa em nota, foi preservar a “segurança e bem-estar dos meus fãs, colegas de performance e equipe” diante do clima, motivo mais do que pertinente à vista dos últimos eventos. No entanto, naquele momento, muitos fãs já tinham sofrido com o calor — mesmo com a ação do poder público que, entre outras medidas, determinou a obrigatoriedade de água potável gratuita em shows e com a liberação de sombrinhas e leques. Na realidade, muitos já aguardavam dentro do estádio o começo do show de Sabrina Carpenter e, na saída, foram surpreendidos com arrastões.

Quer dizer, a frustração e a revolta dos fãs neste final de semana são mais do que compreensíveis. Não bastasse a carga emocional do adiamento de um evento que mobilizou dezenas de milhares de pessoas por meses — com a luta para a compra dos ingressos, os gastos com deslocamento, hospedagem e figurino e toda a expectativa do que, para muitos, seria a realização de um sonho —, há indícios graves de negligência que não só colocaram vidas em risco, como potencialmente podem ter causado a morte de uma Swiftie. Não é pouca coisa. Na verdade, é um cenário tão grave, tão pouco comum, que o silêncio da cantora não é nem somente esquisito. É devastador.

Veja, não quero com isso dizer que a responsabilidade destes incidentes é da Taylor. Apenas uma investigação poderá determinar o que deve ser atribuído a ela e seu time, à produtora de eventos Time for Fun e à organização do Engenhão. O que quero dizer é que foram dias traumáticos, que não serão esquecidos tão cedo — se é que um dia serão. Uma pessoa morreu, e sequer uma palavra de solidariedade foi estendida à família? Nenhuma palavra de acolhimento foi direcionada aos fãs que, mesmo inseguros com a situação, ficaram para vê-la? Nenhuma declaração reconhecendo que os dias foram difíceis? Nada. No domingo (19), o máximo que ela fez foi cantar “Bigger Than The Whole Sky” como uma das canções surpresa da noite, escolha que a imprensa estrangeira atribuiu como uma homenagem a Ana Clara — mas Taylor mesmo não fez nenhum aceno nesse sentido.

Como fã, essa omissão é decepcionante, principalmente porque, por anos, Taylor criou a imagem de que é uma confidente leal dos seus ouvintes. Com suas músicas por vezes autobiográficas, ela construiu uma carreira sendo a “melhor amiga” de gerações, a pessoa empática que não julga nossos dilemas, deslizes e frustrações; na realidade, ela os expressa, sem embaraço, em músicas cativantes, que transmitem uma sensação nada banal de pertencimento. Porque, no fundo, ao longo da sua carreira, Taylor cultivou uma comunidade com vocabulário e ícones particulares, centrada nas idas e vindas da sua vida. Por isso, é natural que os fãs a defendam com unhas e dentes: porque, ainda que simbolicamente, ela também sempre esteve do nosso lado.

Logo, não é de se surpreender que muitas pessoas se sintam, inclusive, traídas por esse distanciamento. “Cartas escritas à mão” não são consolo o suficiente,  muito menos em stories, onde o registro é tão breve e, portanto, tão pouco condizente com as consequências do que aconteceu. O silêncio na hora do olho no olho, quando se espera que o ídolo venha com palavras de acolhimento — aquelas mesmas palavras pelas quais Taylor se tornou conhecida e adorada —, representa uma quebra de confiança. É como se, no momento em que a situação ficou difícil, ela tivesse escolhido largar a mão dos fãs brasileiros e preferido se resguardar. A ironia é que, como consequência, ela validou um dos seus versos mais severos de “Anti-Hero” (“Did you hear my covert narcissism in disguise as altruism / Like some kind of congressman”): no final, seu altruísmo aqui foi mesmo midiático.

Veja, ninguém é inocente de acreditar que Taylor não seria estratégica na sua comunicação em um cenário de crise como esse. Ela não é apenas uma artista, ela é uma empresária, dona de um império literalmente bilionário. Quer dizer, era esperado que ela tomasse cuidado ao manifestar sua ignorância sobre os eventos que culminaram na morte de Ana Clara — na carta, ela escreve "tenho poucas informações além do fato de que ela era incrivelmente bonita e jovem demais" — para se proteger de quaisquer consequências jurídicas que possam vir com a investigação. Mas existe uma diferença entre não se comprometer e se ausentar. Porque a verdade é que ela não precisaria assumir responsabilidade alguma sobre a morte ao demonstrar solidariedade e se compadecer diante da tragédia. Esta é uma escolha, como bem analisou Molly McPherson, especialista de relações públicas que produz conteúdo destrinchando a resposta de astros a crises de imagem. Taylor não quer ser associada a este incidente para sempre. Por isso, ela não se posiciona no palco. Sem possibilitar que existam registros seus em vídeo falando sobre o caso, a história se dispersa mais rápido e, teoricamente, sua imagem se mantém íntegra.

Do ponto de vista empresarial, é uma escolha planejada, uma tentativa de minimizar os efeitos negativos de um acontecimento grave. Mas, do ponto de vista humano, é uma decisão mesquinha, o atestado de que a lealdade dos fãs, especialmente os brasileiros, não é recíproca. Porque, lá fora, talvez as pessoas possam se esquecer da morte de uma Swiftie; elas podem até inverter a situação em TikToks que sequer disfarçam seu viés xenofóbico e menosprezar as queixas, dizendo que quem corre perigo em toda essa situação é Taylor. Mas, aqui, os primeiros shows da cantora no país sempre serão lembrados pela tragédia. A questão é que eles também poderiam ser lembrados pela sensibilidade da cantora diante da situação, sua generosidade com os fãs e a família da vítima, sua coragem de lidar com a dor de peito aberto — como fez outra atração internacional também em turnê no Brasil nesta última semana: o RBD.

Em fevereiro de 2006, na primeira apresentação do grupo mexicano no Brasil, três pessoas morreram e outras 42 pessoas ficaram feridas, uma tragédia que, na época, também foi amplamente noticiada e, portanto, deixou pais e fãs abalados. Os seis membros do RBD, no entanto, não só visitaram as famílias das vítimas, como também deram declarações públicas demonstrando seu pesar. Na verdade, até hoje Alfonso Herrera fala sobre como o incidente foi um dos momentos mais difíceis da sua vida. Essa demonstração de humanidade foi essencial para o público brasileiro começar a superar a dor e o desespero de toda a situação, porque todos puderam encontrar nos seus ídolos um espelho do seu desamparo. Não à toa, a tragédia não criou rachaduras na relação entre o grupo e os fãs. Na realidade, a aprofundou de certo modo. Antes mesmo da turnê de reencontro agora em novembro, que teve oito apresentações esgotadas, o RBD voltou outras seis vezes ao Brasil, todas também com a presença de dezenas de milhares de fãs.

Não quero com esse texto desmerecer os sentimentos da Taylor: ela pode mesmo estar abalada demais, como escreveu em uma das cartas. Mas, ao seguir o roteiro do show como se nada tivesse acontecido, sem reconhecer minimamente o luto e o choque dos seus fãs diante dos eventos do último final de semana, ela desmerece o nosso sentimento. Porque não dizer uma palavra é também uma declaração muito forte — uma declaração memorável, da qual ela não conseguirá se desvencilhar no Brasil.

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