Music, Fashion, Film é álbum pouco inspirado sobre a falta de inspiração
Ainda há algo de comovente na busca constante do disco por si mesmo, no entanto
Créditos da imagem: Charli XCX em divulgação do Music, Fashion, Film (Reprodução)
No primeiro verso de “Rock Music”, o single que abre o álbum Music, Fashion, Film, Charli XCX fala de maneira enamorada sobre a rotina criativa e festeira que estabeleceu com o seu grupo de amigos. “Sim, estamos tão inspirados / Basicamente o tempo todo”, canta em certo ponto a britânica – mas a própria “Rock Music”, como faixa, perde o fôlego extraordinariamente rápido depois disso, esgotando suas ideias melódicas antes mesmo de chegar ao fim com 1:55 (sim, menos de dois minutos!) e cortando a última repetição do refrão pela metade antes de nos atirar direto para a próxima música.
É um sinal de alerta para um álbum que, apesar da declaração ousada daqueles versos, não consegue fugir do fato que a artista em seu centro simplesmente não parece inspirada. De fato, uma parte do conteúdo lírico de Music, Fashion, Film é justamente sobre isso. “Camera”, outro single lançado como “esquenta” para o disco, é sobre como a cantora “pensa em jogar toda a sua vida no lixo”, abandonar a música e se dedicar inteiramente à atuação. Em “SS26”, ela pinta o retrato de um mundo que está prestes a acabar, um apocalipse do qual “nem música, nem moda e nem filmes” podem nos salvar.
São as palavras de uma musicista que não se sente mais conectada com a forma de arte que está praticando. Music, Fashion, Film, antes de qualquer outra coisa, é um registro de 30 e poucos minutos de uma Charli XCX buscando reencontrar essa conexão após a experiência exacerbada que foi o sucesso do brat. Como mostrou no excelente falso documentário The Moment, XCX precisa encarar o fenômeno do seu último álbum como uma entidade separada de si, entregue ao público de maneira irreversível, para acreditar na própria sobrevivência como artista.
Esse caminho passa, é claro, por uma rejeição da sonoridade do brat. Trabalhando da mesma maneira instintiva de sempre, a popstar e seus fiéis produtores A.G. Cook e Finn Keane recorrem a aproximações supostamente subversivas de vários subgêneros do pop rock: a parede de guitarras graves e a cadência monotônica de “Card Declines” grita grunge; “Camera” não faria feio em um álbum do Two Door Cinema Club com sua guitarrada pseudo-tropical; “Yeah” zomba do pop punk de Avril Lavigne e cia, adicionando sintetizadores atmosféricos para ganhar pontos indie; e “Wink Wink” tem algo do folk-rock confessional de Beck ou Feist.
Enfim, boa parte do Music, Fashion, Film é composta por Charli XCX tentando desesperadamente não soar como Charli XCX. E não é que o álbum seja mal-sucedido nesse sentido, mas que brigar contra a própria natureza dessa forma produz um tipo de música que só pode funcionar em fragmentos, em peças definidas por resistência e conflito. Os raros momentos em que esse experimento acha alguma harmonia são aqueles em que a cantora deixa a sua assinatura transbordar para a nova direção musical, ao invés de tentar escondê-la – vide a vulnerável “Persona”, que tem a melhor melodia do disco.
Para além desses flashes do que poderia ser, Music, Fashion, Film se mostra um álbum desconfortável de uma artista em desconforto consigo mesma. Um álbum pouco inspirado sobre um período em que sua autora se vê sem muita inspiração para fazer música. Há algo de comovente na maneira como XCX abre o coração sobre essa busca, ao invés de tentar escondê-la do público. Como ato artístico, Music, Fashion, Film até tem seu valor nesse sentido. Mas, como obra encerrada em si, o resultado não poderia ser mais do que morno.
Music, Fashion, Film
Charli XCX
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