Charli XCX é boa atriz? Esses três filmes que já chegaram ao Brasil respondem
The Moment, Erupcja e 100 Noites de Desejo mostram a ascensão de uma estrela de cinema
Créditos da imagem: Charli XCX em The Moment, 100 Noites de Desejo e Erupcja (Reprodução)
É natural que haja desconfiança quando qualquer artista consagrado em qualquer área decide se arriscar em qualquer outra. No consumir arte, afinal, sempre há uma tensão entre o que o artista quer com a obra, e o que o público quer tirar dela. E, no caso de uma popstar como Charli XCX investindo na atuação, a pergunta é simples: ela está aqui só pela vaidade, ou nós vamos conseguir algo com isso?
Bom, agora temos a resposta. The Moment, Erupcja e 100 Noites de Desejo foram os três primeiros projetos de Charli XCX como atriz que alcançaram o público brasileiro – todos com exibição nos cinemas nos últimos seis meses, e dois deles lançados nas últimas três semanas, há de se apontar.
A britânica tem um leque de outros filmes a caminho (de I Want Your Sex, de Gregg Araki, ao remake de Faces da Morte), mas por enquanto são essas as obras que temos para avaliar quem Charli XCX é como intérprete. Então por que não avaliá-la, e até tentar entender como esse início de carreira para XCX se relaciona a chavões da popstar no cinema? O Omelete faz exatamente isso a seguir.
The Moment: A popstar como ela mesma
Faz pouco menos de dois anos desde que Charli XCX se tornou, de fato, estrela de primeira grandeza na música. O álbum brat, de junho de 2024, foi um dos pouquíssimos verdadeiros fenômenos pop das últimas décadas neste lado do Atlântico, uma monocultura em torno de um único disco como não se via na música pop ocidental mainstream, talvez, desde a era imperial de Lady Gaga. Mas como um filme do brat de fato pareceria, dentro da mitologia subversiva e pulsantemente atual que o disco e a artista cultivaram?
A resposta é The Moment, um falso documentário que aborda o estrelato pop como patologia, cutucando a indústria do entretenimento e a cultura das mídias sociais por tentar reduzir expressões autênticas que tocam o público ao mínimo denominador comum, onde podem ser melhor controladas e mais facilmente entendidas. O longa assinado por Aidan Zamiri (parceiro de XCX em vários dos clipes da era brat) trata essa pasteurização como inevitável, e retrata uma artista tentando fazer as pazes com o fato de que sua obra… bom, ela não é mais sua.
Nesse contexto, a presença de XCX diante das câmeras como uma versão fantasiada de si mesma acerta em cheio o tom e a mensagem de The Moment. E a estrela se apresenta, aqui, totalmente ficcionalizada – em nenhum momento há a sensação de estar apenas assistindo Charli sendo Charli, há uma consciência aguda da performance como performance, completamente entregue aos ritmos de uma comédia de constrangimentos caótica. XCX claramente viu alguns filmes de Christopher Guest e absorveu deles todas as coisas certas.
Ao mesmo tempo, The Moment é também um exorcismo, uma chance de colocar fogo no artefato criativo que XCX não quer que a defina para sempre, e ela precisa ser vulnerável para que essa dimensão do filme funcione. Para uma atriz tão incipiente, talvez seja uma perspectiva intimidadora, essa de interpretar a si mesma em um momento tão delicado, mas há na XCX que vemos em The Moment, também, uma disposição em se colocar na tela que precisa fazer parte do arcabouço de qualquer atriz.
Erupcja: A popstar “gente como a gente”
Conta o diretor Pete Ohs que Charli XCX topou fazer Erupcja após uma noitada ao lado dele e do ator/dramaturgo Jeremy O. Harris – mas que o acordo entre os trÊs era puramente verbal, e aconteceu poucos meses antes do lançamento do brat. “Isso me fez pensar que o filme não aconteceria, porque ela estava sendo puxada em todas as direções”, confessou Ohs ao Omelete. “Mas ela ainda quis vir para Varsóvia por duas semanas para gravar conosco, durante o verão mais movimentado da sua vida. Isso mostra onde estão as prioridades dela, e que ela está nisso pelas razões certas”.
Em Erupcja, XCX não interpreta a si mesma. Ela é Bethany, uma jovem britânica que chega a Varsóvia, na Polônia, ao lado do namorado Rob (Will Madden), que planeja pedí-la em casamento durante a viagem. Acontece que, por lá, ela reencontra Nel (Lena Góra), florista com quem nutre há décadas uma amizade intensa e codependente, que logo se mostra um obstáculo auto imposto para a evolução da relação de Bethany e Rob.
Como todos os filmes mais recentes de Ohs (este é o quinto que ele faz nesse estilo), Erupcja foi escrito em colaboração com o elenco – a partir de uma locação e um esqueleto básico das cenas que seriam filmadas no dia, o diretor e os atores se juntavam para criar diálogos e rumos de trama. Esse processo, embora pareça criativamente desafiador, também é ideal para alguém como XCX se introduzir ao público numa nova mídia.
Há espaço, em Erupcja, para a popstar britânica ser “gente como a gente”, mas também para colocar o quanto quiser de si em Bethany. O resultado é um retrato honesto de uma mulher em pleno limbo de amadurecimento, expressada numa colagem apropriadamente caótica de naturalismo e poesia (em certo ponto, Bethany recita “Darkness”, de Lord Byron, direto para a câmera). Você a vê como alguém de verdade, mas alguém de verdade interpretado por Charli XCX.
100 Noites de Desejo: A popstar como símbolo
100 Noites de Desejo é uma espécie de conto de fadas, tirando inspiração clara d’As Mil e Uma Noites para contar uma história de proteção e emancipação feminina que não se envergonha nem um pouco do seu próprio idealismo utópico. Também não faltam rostos reconhecidos em papéis marcantes no filme de Julia Jackman: temos Emma Corrin como Hero, a criada modesta que esconde um intelecto afiado e um talento para a narrativa; Maika Monroe como Cherry, a oprimida esposa de um lorde, acuada pela presença de Manfred (Nicholas Galitzine), o visceralmente masculino melhor amigo de seu marido, na propriedade da família.
Nesse tríptico de performances notáveis, Charli XCX aparece em apenas algumas cenas do longa – todas elas encenações das histórias contadas por Hero, uma espécie de “filme dentro do filme”. Os personagens nessas sequências são mudos, com a ação inteiramente conduzida pela narração em off de Emma Corrin, o que significa que XCX precisa recorrer a certos exageros cênicos para expressar bem o bastante a jornada de Rosa, uma mulher rebelde que marcou o passado do mundo fantasioso onde a trama se passa.
A britânica não só se dá bem nesse espaço dramático amplificado, como serve inteiramente ao objetivo do filme com sua personagem: o de criar um símbolo. Nada melhor do que uma popstar, afinal, para interpretar uma figura quase mitológica de rebeldia contra o sistema, e também uma encarnação trágica das consequências de se opor a ele. Aqui, XCX é – como eram as atrizes de cinema mudo, de certa forma – o avatar de uma série de conceitos primários. A mártir, a bruxa, a revolucionária.
100 Noites de Desejo, para ela, é um exercício de atuação em grande escala. Aqui, ela não quer mais criar uma pessoa (seja essa pessoa ela mesma, ou não), mas sim um conceito dramático. E consegue.
Afinal, então, Charli XCX é boa atriz?
Como citamos lá em cima, ainda teremos muito o que ver de XCX na tela grande, inclusive colaborações com cineastas que têm ideias fortes sobre o meio e as mensagens que passam através dele. Que a cantora é cinéfila, não há dúvida. Que ela está nessa pela vontade de fazer cinema, ainda menos… e eu diria que só aí já estamos com meio caminho andado.
O que XCX mostrou até agora, como atriz, foram instintos bem afinados e certa versatilidade, mas ainda há de se aguardar a chegada de papéis mais substanciosos, em produções de escala mais notável, a fim de julgar o seu talento. Por enquanto, dá para dizer que a britânica claramente é uma presença interessante na tela grande – e uma que veio para ficar.
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