Miss Americana

Créditos da imagem: Miss Americana/Netflix/Divulgação

Música

Crítica

Miss Americana

Taylor Swift apresenta imagem reveladora, mas ainda reservada, do desenvolvimento de uma voz própria

Julia Sabbaga
19.02.2020
17h06

Quando Taylor Swift lançou o clipe de “Look What You Made Me Do”, representando uma transição clara em sua carreira, ela disse adeus a uma de suas frases mais virais: “eu gostaria muito de ser excluída dessa narrativa”. Com uma postura mais afrontosa, a cantora aceitou sua fama pública e zombou de si mesma, relembrando a citação que foi utilizada no auge do conflito entre ela e Kanye West e Kim Kardashian. O movimento de enfrentar polêmicas abertamente, que se iniciou em 2017, chega a uma conclusão emblemática com o documentário Miss Americana, produção que busca analisar sua trajetória de queridinha da América até hoje. 

Partindo de um discurso simples, porém forte, de que seu ideal fundamental sempre foi ser “uma boa garota”, Taylor Swift apresenta sua carreira em Miss Americana como uma caminhada que vira de cabeça para baixo a partir do momento que ela percebe que não será sempre amada por todos. Relembrando o momento icônico em que Kanye West roubou seu microfone no VMA, Swift desenvolve um discurso tocante sobre a ruína de defesas e expectativas, e os efeitos tanto privados quanto artísticos disso. Em um dos momentos mais reveladores no início do documentário, Swift é vista recebendo a notícia de que Reputation não foi indicado aos prêmios principais do Grammy. Lá, o comportamento é representativo tanto de sua insistência em ser aceita, quanto de seu trabalho duro: “preciso fazer um álbum melhor”. 

A decepção do momento, enraizada em uma cultura antiga da indústria musical (e principalmente da música country), não faz mais sentido com uma artista gigantesca, que quebra regras, e serve como exemplo da dificuldade de se desprender das tradições. Mas Taylor Swift já não precisa mais do Grammy. Quando ela parece ter uma noção mais real disso, a partir da segunda metade de Miss Americana, a cantora investe em uma jornada mais pessoal, que encerra com seu antecipado posicionamento político público. Isso tudo é retratado em passagens que mostram a gravação de Lover, seu relacionamento com a mãe e uma análise estrutural de seu silêncio até a decisão de seu pronunciamento no Instagram, em apoio ao candidato ao Senado dos EUA, Phil Bredesen.

Há muitos acertos nessa narrativa, por mais discretamente que ela tenha sido construída pela diretora Lana Wilson. Ver Taylor Swift batalhando para encontrar sua voz, explorando os efeitos dos traumas públicos que enfrentou, inclusive na batalha judicial de assédio sexual, é intrigante. Ao mesmo tempo, Miss Americana ainda perpetua o enigma de Taylor Swift. É bom vê-la questionando sua posição na indústria e as tradições arcaicas desta, mas isso abre portas para uma discussão maior. A postura indefensável de West no VMA permanece problemática, mas a vitória de Swift em premiações, por muito tempo sustentada em uma falta de diversidade, é um terreno fértil a ser debatido. Enquanto é bom ver a cantora desconstruindo a indústria, seria ainda mais interessante ainda vê-la problematizando o seu próprio privilégio.

Sem mostrar Swift em momentos feios ou apontar suas falhas, o documentário agrada mais aos fãs porque os auges de Miss Americana envolvem as composições de Swift e seu método de criação. Vê-la compondo “The Man” como se viesse do fundo da alma, ou chegando ao refrão de “Only The Young” e brilhando os olhos, é entrar na mente de uma das compositoras mais autênticas do pop atual. Do mesmo modo, vê-la construir o megalomaníaco clipe de “Me!”, intercalado com imagens do vídeo em parceria com Brendon Urie, é um dos melhores trechos do documentário. Tudo isso tem uma mensagem clara que é recebida perfeitamente: Taylor Swift é construída apenas por ela mesma, e esse movimento se intensifica cada dia mais. 

Mesmo distante de problematizar Swift, Miss Americana é importante porque é inspirador. Ver uma grande estrela da música se mostrar mais relacionável, abrir seu coração sobre distúrbios reais e enfrentar seu próprio pai na busca pelo que acha certo tem um peso inegável. Por isso, por mais que Wilson não tenha conseguido capturar os defeitos que Swift deve (e precisa) ter para se tornar mais humana, Miss Americana aponta para um futuro promissor, cada vez mais questionador, de uma estrela única.

Nota do Crítico
Bom