Taylor Swift - Lover

Créditos da imagem: Taylor Swift Lover/Divulgação

Música

Crítica

Taylor Swift - Lover

Amadurecida, a “velha Taylor” retorna leve e mais política, apostando em suas melhores qualidades

Julia Sabbaga
26.08.2019
13h35

Depois de lançar o álbum mais sombrio e experimental de sua discografia, não estava claro o caminho que Taylor Swift trilharia em sua carreira. A partir de Reputation, álbum de 2017, a cantora tinha diversas escolhas a tomar, inclusive insistir em um caminho mais sinistro, lapidando uma figura vingativa que nasceu na época. Ao invés disso, Taylor Swift decidiu estabelecer Reputation como um ponto fora da curva, ousando voltar ao seu território familiar em seu novo álbum, Lover, e apostando novamente no que sempre a fez relacionável e atraente: sua genuinidade. Ainda, apesar de marcar um retorno à forma, Lover não é um retrocesso, e muito pelo contrário. A volta da cantora transparece um amadurecimento claro, baseado em aprendizados. No álbum, a compositora revela algumas de suas melhores letras e explora um território até hoje intocado, o político.

Tudo isso já começou a ficar claro nos primeiros singles, em que Taylor quis mostrar que a nuvem escura de Reputation havia sido deixada para trás. Mas assim como fez no último álbum, a escolha do primeiro single foi traiçoeira. “Me!”, assim como “Look What You Made Me Do” serviu o propósito de estabelecer uma sonoridade e declarar um novo começo, mas passa de longe das maiores qualidades do álbum. Para fazer uma declaração neste sentido, a introdução de Lover serviu melhor. O álbum abre com “I Forgot That You Existed”, um pop chiclete bem atual que também não está entre os destaques do álbum, mas enfatiza melhor os elementos do retorno de Taylor, explicando com todas as letras que o passado ficou para trás.

Os próximos singles de Lover, “You Need To Calm Down”, “The Archer” e a faixa-título, explicaram que o trabalho seria doce, romântico e politizado, e serviram seu propósito. Mas com o lançamento do álbum, tudo ficou mais profundo. Lover é o começo de um caminho novo, através da exploração de novos arranjos e de um pensamento crítico. Quando estes elementos se sobressaem no álbum, Lover tem seus destaques. “Miss Americana & The Heartbreak Prince”, uma combinação de instrumentações inéditas com uma das melhores letras de Taylor, é o ápice de Lover. Aqui, a compositora trabalha uma analogia admirável entre a política dos EUA e um simples romance colegial, conseguindo unir seu talento para letras adolescentes com a uma nova profundidade: “Você joga jogos estúpidos, ganha prêmios estúpidos” ou “Garotos serão garotos, então onde estão os homens sábios?” ela canta, em uma atmosfera americana que remete à Lana Del Rey. Mais importante ainda, é que através de imagens de luzes fortes e patriotismos, ela reflete sobre a sua própria isenção destas questões, criticada até hoje.

Em “The Man”, Taylor fala de desigualdade de gênero de um modo simples mas certeiro: “Quando todos acreditam em você, como será isso?”, ela reflete, de modo tanto leve quanto afiado, citando até as aventuras de Leonardo DiCaprio para construir uma imagem poderosa da diferença de tratamento entre homens e mulheres. A faixa segue recheada da problematização de Taylor sobre ela mesma, mas ouvir a compositora fazer uma relação mais universal de seus questionamentos é um dos melhores aspectos de Lover. Assim como “You Need To Calm Down”, a importante mensagem vem envolta de uma melodia empolgante que deve render um dos melhores momentos de sua performance ao vivo.

O elemento político de Lover chama atenção pela novidade, mas mesmo sem ele o álbum mostraria Taylor desenvolvida, já que não é apenas nestas letras que a compositora se mostra mais madura. “Não quero manter segredos só para manter você” ela canta na ótima “Cruel Summer” e “Lutar contra um amor verdadeiro é lutar boxe sem luvas”, ela se desenvolve em “Afterglow”, uma auto-crítica que sempre foi presente, mas nunca tão poética. “False God”, faixa que explora amor de uma perspectiva religiosa, mostra que a experimentação também não está ausente em Lover, apesar do álbum chamar mais atenção pelo carisma puro de canções como “Paper Rings”, “Death By a Thousand Cuts” e “Cornelia Street”. Como se não bastasse, o disco também traz uma das músicas mais tristes da cantora, “Soon You’ll Get Better”, sobre o câncer da mãe.

Reputation talvez tenha sido um álbum mais coeso, mas a máscara usada pela cantora desfavoreceu seu resultado final. Mas, dois anos depois, ficou claro que a empreitada foi essencial para que Taylor retornasse crescida, por um aprendizado que precisava acontecer. Os tempos sombrios fizeram com que Taylor entendesse seus talentos de forma mais adulta, e retornasse independente e genuína novamente, entregando o que sempre soube fazer, pop de qualidade, mas dessa vez com muito mais significado e energia.

Nota do Crítico
Ótimo