Jeremy Renner como Ronin em Vingadores: Ultimato

Créditos da imagem: (Marvel Studios/Divulgação)

Séries e TV

Artigo

Gavião Arqueiro | Série precisa lidar com um dos erros de Ultimato: o Ronin

Clima leve e familiar do 1º trailer passa perto de ignorar que personagem se tornou um assassino

Eduardo Pereira
13.09.2021
18h56

Quando Clint Barton (Jeremy Renner), o Gavião Arqueiro, estava sob o poder de Loki (Tom Hiddleston), em Os Vingadores (2012), o embate entre ele e Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), a Viúva Negra, ganhou camadas bastante pessoais. Além de terem partilhado Budapeste, e outras missões secretas a mando da S.H.I.E.L.D., a dupla sempre dividiu um entendimento único sobre os tons de cinza que compõem a dura realidade do mundo. Como Natasha era uma assassina reabilitada, transformada em agente, e Clint era um agente usado para missões letais, era como se ambos se encontrassem no meio do caminho na escala de moralidade: entre heroísmo, vigilantismo e vilania. Juntos, eles viviam uma jornada de melhora; ainda assim, a luta entre os dois no primeiro encontro cinematográfico dos Maiores Heróis da Terra deixava claro: perto de Natasha, Barton ainda era um mocinho.

É por isso que, quando Thanos apagou a família de Barton junto a metade da população mundial, em Vingadores: Guerra Infinita (2018), Natasha acabou angustiada diante do que sabia que seria a gota d'água para que seu antigo amigo abraçasse seu lado mais sombrio, tornando-se o que ela havia lutando tanto para deixar de ser. Quando ambos se reencontraram, em Vingadores: Ultimato (2019), Barton havia assumido o manto de Ronin, dando cabo a sangue frio de criminosos variados, mesmo que rendidos ou indefesos. Ao contrário de Natasha, que havia sido uma assassina enquanto sujeita ao controle e à opressão do programa das Viúvas Negras, o Gavião Arqueiro tinha se tornado um matador por vontade própria; porque não soube lidar com as próprias dores e frustrações.

Só que Barton tinha uma família, o que levou os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely a entenderem que a melhor conclusão para esse arco compartilhado da dupla seria com Natasha se matando para garantir a Barton uma nova vida; uma chance de começar de novo, ao lado de seus entes queridos. Na atuação de Johansson na cena, fica traduzida a intenção de colocar o salto da Viúva Negra em Ultimato como o ato de redenção final da personagem por seu passado sangrento, mas só graças ao talento da atriz. Em termos narrativos, a escolha não faz o menor sentido, e ainda impede que Barton se redima, diante dos olhos do público, de seus atos execráveis como Ronin.

A regra é um dos grandes clichês do cinema, mas só porque funciona: "mostre, não conte". E, enquanto Ultimato nos mostra o monstro que Barton se tornou diante da dor, os filmes da Marvel Studios nunca deram a real dimensão de seja lá quais atos sombrios Natasha Romanoff protagonizou em seu passado. Ainda pior: em Viúva Negra (2021), a retroativa e falha tentativa de dar razão e profundidade ao sacrifício vazio da única Vingadora fundadora, ficamos sabendo que o pior ato da personagem sequer foi consumado. Assim, matar a Viúva Negra em nada compensa, diante dos olhos do público, os assassinatos que Barton protagoniza. Com Thanos derrotado e o mundo salvo ou não, o filme de 2019 se encerra com o Gavião Arqueiro como um assassino. E nada mais que isso.

É aí que entra Gavião Arqueiro, a vindoura série do personagem na Disney+ que unirá Barton à jovem arqueira Kate Bishop (Hailee Steinfeld), em uma versão dos quadrinhos de Matt Fraction e David Aja que se encaixe na narrativa maior do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). Como o primeiro trailer da série revela, é ao ver uma outra pessoa agindo com o manto de Ronin que Barton dá uma pausa em sua vida pacata como pai de família e volta a se envolver em atividades criminosas, enquanto passa a mentorar Bishop. É uma divertida referência ao que aconteceu em Ultimato, mas um indício preocupante de que a série talvez não se preocupe em trabalhar uma temática há anos central aos filmes da Marvel: consequência e responsabilidade.

Matar, nas telonas, nunca foi um constrangimento para os principais heróis da Casa das Ideias. Ainda assim, quando Tony Stark, o Hulk ou até o Capitão América dão cabo de inimigos, é sempre em um contexto similar ao da guerra, de forma a dessensibilizar a questão perante o público. Dito isso, quando a perda de vidas começou a se tornar indiscutível e indisfarçável, as tramas do MCU passaram a girar em torno das consequências ligadas a elas. Não há exemplo melhor do que as crises de pânico e ansiedade que levaram Stark a criar Ultron, ou os Tratados de Sokovia em Capitão América: Guerra Civil (2016); o principal conflito que acabou fragilizando os Vingadores. Entregar ao Gavião Arqueiro uma série solo que seja só uma comédia de ação sobre passagem de bastão, e de forma alguma o confronte com a responsabilidade das mortes que ele promoveu para exorcizar demônios pessoais, é nadar contra a corrente estabelecida pelo próprio estúdio. E um desserviço à qualidade narrativa de todo o universo cinematográfico.

Não importa se a ausência de Linda Cardellini no trailer de Gavião Arqueiro for indicativo de que que Barton sofreu pelo menos com um divórcio, entre Ultimato e agora; nem se o sacrifício de Natasha foi mais focado em salvar Yelena Belova (Florence Pugh) do que a moral de seu amigo: a série do Disney+ precisa colocar Clint fazendo por merecer sua chance de aposentadoria feliz, especialmente depois de manchar seu legado com o sangue arrancado pela espada de Ronin. Precisa, se não pela integridade do personagem, ou do próprio MCU, pela memória da Viúva Negra. Porque por muito, mas muito menos, uma dupla de roteirisitas achou que ela precisava enterrar a cara numa pedra. E ele ganhou um especial de natal.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.