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Gavião Arqueiro encanta com aventura despretensiosa e dupla carismática

Relação entre Vingador veterano e Kate Bishop evidencia como basta explorar a humanidade de seus personagens para que a Marvel brilhe; leia as nossas primeiras impressões

Mariana Canhisares
23.11.2021
23h16

Gavião Arqueiro, embora seja uma tradução bem direta ao ponto para o título original da nova série do Marvel Studios no Disney+, talvez não dê a dimensão do quanto Clint Barton (Jeremy Renner) e Kate Bishop (Hailee Steinfeld) compartilham o holofote deste novo capítulo da fase 4 do MCU. Os dois primeiros episódios -- e, arrisco dizer, muito provavelmente toda a temporada -- são tanto sobre o veterano entendendo a relevância da sua intensa carreira como Vingador, quanto sobre a aprendiz de heroína sentindo na pele que há muito mais em jogo do que contusões e diversão ao escolher levar uma vida de justiceira.

É claro que, se tratando da Casa das Ideias, a tensão é bastante moderada: isso tudo é envelopado em uma aventura natalina com direito não apenas a uma trilha sonora com hits clássicos da época e decorações para todos os lados, como dramas familiares na mesa do jantar e bandidos trapalhões. Mas, diferentemente do que se acostumou a ver neste universo compartilhado, a escolha de um tom mais próximo do pastelão não é frustrante. Na realidade, não poderia ser mais bem-vinda.

Se Loki, Shang-Chi e WandaVision traziam ameaças mágicas com capacidade de danos em escala global -- quando não cósmica --, Gavião Arqueiro está mais alinhado a produções como Falcão e o Soldado Invernal e Viúva Negra, ou seja, seu universo é mais pé no chão. Ainda assim, o novo seriado não se encaixa perfeitamente neste combo. Não há volta ao mundo ou uma organização super secreta para lançar seus heróis em suas jornadas de amadurecimento. Estamos diante de uma Nova York dominada pelo crime organizado, e isso basta -- para que Clint sinta o peso dos anos, mas também para que Kate compreenda os riscos de enfrentar um bando como a Gangue dos Agasalhos.

Esse passo para trás do MCU dá uma despretensão muito agradável à aventura e permite que as situações se desenrolem com uma leveza invejável, como é esperado de fato de uma produção ambientada no Natal. Logo, ainda que existam comentários sutis sobre o que seriam “comportamentos adequados” para uma mulher e uma dinâmica familiar entre seus protagonistas -- mentor e pupila, mas que parecem mais pai e filha --, ela surge sem esforço.

Veja, que fique claro: o discurso do Sam Wilson (Anthony Mackie) ao final de Falcão, por exemplo, é um dos momentos mais bonitos da história do universo compartilhado e ainda bem que a Marvel o incluiu apesar dos pedidos constantes de fãs por “menos lacração”, o que quer que isso signifique. A despretensão e a sutileza a que me refiro é anterior: é a Casa das Ideias não querendo fingir que essa é uma história que vai determinar os rumos da fase 4, ou que é mais do que está de fato em tela. É simplesmente uma aventura e isso é tão libertador. Sim, trata-se da introdução da Kate Bishop, e é inegável que isso serve ao intrincado calendário do estúdio. Mas, ao menos até aqui, ser sobre a Kate (quem ela é, seus dilemas e suas ambições) é suficiente. Quanto tempo faz que não assistimos a uma produção da Casa das Ideias sem se preocupar com outra coisa se não as desventuras imediatas dos personagens?

Há de se dizer, porém, que a série sente a necessidade de justificar o heroísmo de Kate e sua admiração por Clint com alguma frequência, como se não bastasse viver em um mundo de heróis para querer ser um deles. Ainda que pareça apenas um detalhe, ele incomoda por se encaixar em uma convenção hollywoodiana: para ser uma heroína de ação, a mulher precisa ou ser mãe ou querer honrar algum legado do seu pai -- no caso da Gaviã em formação, é a perda do pai que desperta este seu interesse. Ninguém nunca se perguntou (ou se importou) por que o Gavião Arqueiro decidiu enfrentar aliens, inteligências artificiais ou um Titã Louco com um arco e flecha, e o espectador o aceitou sem grandes problemas. Por que, então, seria necessário fazer isso para uma de suas fãs?

Se por um lado a jornada de Kate é muito moldada pelos homens da sua vida (o fantasma do pai, a admiração por Clint e a rivalidade com o padrasto), Clint já opera em outra esfera. Depois de assistir ao sacrifício da sua melhor amiga para salvar o universo, o herói tenta seguir em frente com a família -- inclusive, a viagem a Nova York e a ida à Broadway para assistir ao constrangedor musical sobre o Capitão América é justamente sobre honrar a memória dos seus amigos e aproveitar seu tempo com quem realmente importa. No entanto, além de perder a audição como consequência das suas muitas missões -- um aceno muito bacana aos quadrinhos, diga-se de passagem --, Clint carrega ainda a responsabilidade do que fez como Ronin antes da revanche contra Thanos. Sem conseguir se desvencilhar dessa culpa, ele volta (um pouco) a contragosto a assumir uma postura destemida. Mas, curiosamente, é a primeira vez que o vemos fazendo isso de um modo envolvente e interessante.

Convenhamos, Clint sempre foi um personagem burocrático, sem nenhum charme particular -- ou, honestamente, chance, considerando os demais membros originais dos Vingadores. Mas, em Gavião Arqueiro, ele efetivamente alça ao posto de herói, de modo que sua arrogância, agora associada a uma visão clara sobre sua experiência e seu jeitão de pai, adiciona um carisma inesperado à sua figura. É claro que essa reformulação vem acompanhada de uma boa dose de humor: se os recorrentes agradecimentos dos civis pelos seus anos de serviço têm um quê cômico não-intencional, a exposição das suas habilidades de combate em um encontro de fãs de aventuras medievais o faz com muita clareza do ridículo da situação.

A autoconsciência de Gavião Arqueiro é possivelmente um dos seus grandes méritos, porque garante uma série simples, mas nem por isso menos divertida, e ainda oferece combustível de sobra para que a relação de Clint e Kate desabroche de um jeito verdadeiramente encantador. Não à toa, com dois episódios Renner e Steinfeld conquistam o espectador e já o deixam lamentando que a série terá apenas seis capítulos. Dá vontade de ver mais e mais desse improvável duo e seus embates com os bandidos atrapalhados da Gangue dos Agasalhos e sua líder Eco (Alaqua Cox), introduzida nos minutos finais do segundo episódio. Mas, mais que isso, Gavião Arqueiro deixa o fã da Marvel ainda mais satisfeito de ver que nem tudo precisa ser megalomaníaco: a humanidade dos seus heróis é mais do que suficiente para garantir boas histórias.

Gavião Arqueiro estreia em 24 de novembro, no Disney+.

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