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Quem é Isaiah Bradley, mostrado em Falcão e o Soldado Invernal

Personagem introduzido nos anos 2000 marcou presença no segundo episódio da série

Nicolaos Garófalo
26.03.2021
15h42
Atualizada em
26.03.2021
19h15
Atualizada em 26.03.2021 às 19h15

[Spoilers de Falcão e o Soldado Invernal à frente]

Não é segredo para ninguém que Steve Rogers está longe de ser o único Capitão América da Marvel. Ao longo dos anos, John Walker, Bucky Barnes e Sam Wilson já usaram o manto do supersoldado, cada um com motivações e abordagens diferentes. No entanto, um nome passa praticamente despercebido quando o legado do escudo é abordado. Apresentado em Capitão América: Verdade – Vermelho, Azul e Negro, de 2003, Isaiah Bradley foi canonicamente a primeira pessoa a usar o uniforme azul depois de Rogers.

O personagem, vivido por Carl Lumbly no segundo episódio de Falcão e o Soldado Invernal, lutou na Segunda Guerra Mundial, alistando-se após o infame ataque a Pearl Harbor que motivou a entrada dos Estados Unidos na guerra. Buscando recriar o super-soro que transformou Rogers no Capitão América, o exército norte-americano selecionou 300 soldados negros como cobaias. Para acobertar os testes, o governo americano executou o pelotão inteiro de onde retirou os soldados e informou às famílias nos EUA que todos – incluindo aqueles que passariam pela experiência – morreram em combate. Entre esses selecionados, apenas cinco sobreviveram aos experimentos, incluindo Isaiah, com o soro causando deformidades em alguns deles.

Após uma missão mal sucedida, Isaiah se tornou o único sobrevivente do grupo. Eventualmente, ele é mandado sozinho em uma missão suicida para assassinar o Doutor Kosh, um cientista alemão que estava perto de reproduzir a fórmula para o exército nazista. Isaiah então rouba o uniforme e o escudo de Rogers e parte para a missão como Capitão América. Embora consiga matar Kosh, o personagem é capturado e submetido a alguns experimentos.

Enquanto era transportado de uma base nazista a outra, um grupo de rebeldes alemães salva o supersoldado que, ao voltar para um campo do exército americano, é preso novamente, acusado de traição por roubar o equipamento de Steve Rogers. Em 1943, Isaiah é condenado à prisão perpétua em solitária.

Quem salva o veterano do isolamento é sua esposa, Faith, que, sem nunca acreditar no anúncio oficial da morte do marido, passou anos buscando seu verdadeiro paradeiro e pedindo, em cartas diárias à Casa Branca, para que Isaiah fosse perdoado. Em 1960, o soldado recebeu perdão do presidente norte-americano Dwight Eisenhower. No entanto, os 17 anos de isolamento somados aos efeitos colaterais dos vários experimentos que sofreu nas mãos dos exércitos americano e nazista afetaram a mente de Isaiah, que passa agir como uma criança pequena.

Falcão e o Soldado Invernal
Marvel Studios/Marvel Comics/Divulgação

Lenda da comunidade negra

Por mais que nunca tenha sido reconhecido oficialmente pelo governo norte-americano, Isaiah Bradley se tornou uma lenda entre a comunidade negra dos EUA. Ao longo das décadas, figuras importantes pelo movimento negro, como Malcolm X, Angela Davis, Nelson Mandela, Alex Haley e Colin Powell, visitaram em segredo o “Capitão América Negro”, que passou a viver praticamente no anonimato ao lado de Faith. O soldado, aliás, se tornou referência para figuras como Luke Cage, Falcão, Espectro e Golias, e foi reverenciado por eles no casamento da Tempestade com o Pantera Negra.

Mesmo que seu destino tenha sido trágico, o legado de Isaiah segue vivo no Universo Marvel. Elijah, um dos netos do supersoldado, foi membro fundador dos Jovens Vingadores, honrando a história do avô com o manto do Patriota. O jovem chegou a se colocar na frente de uma bala para salvar Steve. O ferimento tornou necessária uma transfusão de sangue e, embora o Capitão América original tenha se oferecido como doador, foi Isaiah que deu seu sangue para o neto, passando para ele também seus poderes.

Inspiração na vida real

A criação de Isaiah Bradley teve como inspiração um monstruoso caso real. Em 1932, o Serviço de Saúde Pública e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA firmaram parceria com o Instituto Tuskegee, uma universidade predominantemente negra, para testar os efeitos prolongados da sífilis em homens negros. 600 pessoas foram selecionadas para o Estudo de Tuskegee, sendo 399 infectadas sem saber pela sífilis, com 201 homens não infectados servindo como grupo-controle.

O experimento acompanhou por décadas os cobaias que, aceitando participar do teste sem saber de suas intenções reais, passaram anos recebendo atendimento público gratuito ineficaz para a sífilis, que, sem tratamento, pode causar danos cerebrais. O estudo só foi encerrado nos anos 1970, quando um vazamento de informações revelou o propósito real do teste e suas práticas antiéticas.

Axel Alonso, editor da Marvel no começo dos anos 2000, queria publicar uma história que refletisse a realidade histórica norte-americana e, com o conhecimento do Estudo de Tuskegee, repassou a ideia para Robert Morales. Criador de Isaiah, o roteirista decidiu usar o personagem também como uma homenagem ao pugilista Muhammad Ali, diagnosticado com Mal de Parkinson em 1984. A doença causou danos à sua saúde física e mental.

O mesmo racismo que levou o governo americano a testar as consequências da sífilis em homens negros foi sentido pela versão televisiva de Isaiah. Ao invés de ser recebido como um herói por derrotar o Soldado Invernal (Sebastian Stan) na Guerra das Coreias nos anos 1950, o soldado passou 30 anos preso e servindo novamente como cobaia de novos testes. O tratamento recebido por ele obviamente enfureceu Sam (Anthony Mackie), que foi convencido a abdicar do posto de Capitão América, repassado então para outro militar branco. Embora não hajam sinais de que Isaiah terá uma grande relevância nos próximos episódios, é de se esperar que o Falcão se inspire na experiência do veterano e passe a questionar de forma mais incisiva as ordens e decisões do governo dos EUA, abrindo caminho para que ele retome o escudo.

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