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Créditos da imagem: Os Eternos/Marvel Studios/Divulgação

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Como Eternos pode ser o primeiro épico bíblico do Marvel Studios

Uma adaptação fiel da HQ de Jack Kirby passará obrigatoriamente por analogias cristãs

Marcelo Hessel
07.12.2019
13h15
Atualizada em
19.08.2021
09h23
Atualizada em 19.08.2021 às 09h23

É difícil saber o que esperar do filme dos Eternos porque, antes de mais nada, a história da equipe é uma mistura megalomaníaca de referências. Quando Jack Kirby deixou a DC Comics sem conseguir completar sua história dos Novos Deuses, ele voltou para a Marvel e lá reaproveitou conceitos de cosmogonia e mitologia para explicar a vida na Terra do Universo Marvel a partir dos gigantes Celestiais. Uma das principais referências de Kirby na HQ era o cristianismo - e não seria estranho se o Marvel Studios fizesse com Os Eternos seu primeiro... épico bíblico.

Marvel Comics/Reprodução

A ideia central por trás do primeiro volume da série, publicado em 19 edições entre 1976 e 1978, é a de que os chamados eternos estão por trás das narrativas mitológicas da Humanidade - os deuses do Olimpo grego eram eternos e figuras proeminentes de eventos definidores da história do mundo, como Nero ou Atila, conviveram com eles. Essa noção se consolida na quinta edição, a que revela a cidade eterna de Olímpia; na caixa de diálogo que abre a HQ, Kirby apresenta os eternos como "a verdade que há por trás de todas as mitologias".

Embora passeie por panteões ecléticos, porém, nas edições anteriores Kirby usa como base para a série uma noção cristã de Bem e Mal. Quando os primatas ainda caminhavam sobre quatro patas, os Celestiais vieram à Terra e aqui fizeram experimentos para criar três raças: os eternos, os humanos e os deviantes. A organização entre eles se assemelha à divisão entre céu e inferno; castigados pelos deuses, os deviantes se refugiaram nas profundezas dos oceanos, criando armas e planejando conflitos, enquanto os plácidos eternos encontraram abrigo nos topos das montanhas, de onde perscrutavam o universo com suas mentes, e coube aos homens povoar as terras baixas do planeta.

Se essa organização já tem um caráter cristão evidente, a própria noção de que os deviantes são parentes "corrompidos" dos eternos, seres deformados que não têm a mesma beleza dos "escolhidos" dos Celestiais, só cimenta o paralelo com a Bíblia e seus anjos caídos convertidos em demônios. Quando os deuses voltam à Terra nos dias de hoje (a ação que Kirby narra ao longo do Volume 1), o deviante Kro, que tinha a cabeça lisa quando surge pela primeira vez, então desenvolve chifres que, segundo ele, lhe dão uma imagem demoníaca que é capaz de instigar os humanos a temê-lo. "Eles não vão rir disto... Até o dia de hoje, esta imagem assombra as mentes deles como um vírus", diz Kro antes de partir em um ataque a Nova York. A ideia de Kro não é subjugar, mas instigar o medo e a ira nos humanos contra os deuses - uma agenda mais próxima do Mal cristão do que normalmente se vê em supervilões de quadrinhos.

Na HQ, Kirby não apenas estrutura esse paralelo como faz o derradeiro cruzamento numa cena em que Ikaris, o primeiro eterno criado pelo quadrinista (que estará no filme, e na HQ tem a loirice mais angelical possível), se explica a dois humanos: quando um dilúvio cobriu o planeta, Ikaris liderou o equivalente à Arca de Noé para preservar a vida na Terra. Kirby não se faz de desentendido: revisita o mito bíblico, desenha a própria arca, cuja carga consistia de "humanos e de fauna silvestre".

Em Os Eternos, o dilúvio acontece não como uma punição à corrupção dos homens, mas dos deviantes que então governavam a superfície. Os Celestiais são pintados como criaturas onipotentes que controlam sua criação com olhar vigilante, e a segunda vinda dos deuses à Terra (quando acontece o dilúvio que castiga os deviantes a viver sob os oceanos) é descrita como a vinda "da ira e da disciplina". Nos bancos de dados dos quadrinhos Marvel, a vinda do dilúvio inclusive é demarcada seguindo o calendário gregoriano e teria acontecido 18.500 anos antes de Cristo.

Todos esses elementos estão na base de Os Eternos. Trazer as "guerras antigas" para os dias de hoje e dar corpo às superstições dos humanos é a intenção dos deviantes, nas palavras de Kro, e essas duas expressões, "superstição" e "antigo", dão margem a reinterpretações de Os Eternos que obviamente lidam com mitologia e narrativas folclóricas que podem facilmente beirar o religioso. É possível imaginar nesse filme um épico em que eternos se caracterizam como anjos e deviantes, como criaturas demoníacas que desafiam os deuses - na verdade, uma adaptação fiel à obra de Kirby não poderia fugir muito desse viés.

O filme, escrito por Matthew e Ryan Firpo e dirigido por Chloé Zhao, terá os dois primeiros eternos apresentados por Kirby: Ikaris (o "anjo") e Sersi (uma feiticeira que é análoga à Circe da mitologia olimpiana). Ou seja, pode sair daí um épico religioso e um épico grego também - mas nesse caso Mulher-Maravilha e a DC chegaram primeiro.

O elenco do filme conta ainda com Gemma Chan, Angelina Jolie, Kit Harrington, Kumail Nanjiani e Brian Tyree Henry. A estreia de Eternos está marcada para 5 de novembro de 2021, no Brasil.

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